domingo, 28 mai 2017
Administração

O fiscal de esgotos

 

O pioneirismo inglês em fazer sua Revolução Industrial em meados do século XVIII, trouxe mudanças drásticas sob o ponto de vista tecnológico, principalmente nos processos de produção industriais que impactaram a economia e a sociedade ao longo do século XIX, época em que se passa a estória tão bem descrita que vem a seguir. A personagem que surgiu foi a de um homem insatisfeito com sua vida e sua situação, e que por isso foi capaz de atos egoístas pelo qual se arrependeu, e sofreu, vidas depois. A primeira e mais nítida impressão que ele teve daquela existência foi a de que detestava o lugar em que morava e, principalmente, o estilo de vida que teve que assumir para subsistir. Interessante anotar que o regredido nada conhecia dos fatos históricos que relato a seguir.

Em Londres nesta época a superpopulação convivia com as péssimas condições de higiene das casas e com as más condições de moradia, constantes dos bairros operários londrinos. Vale ressaltar também, que os bairros reservados aos trabalhadores, eram tidos em situações precárias nos quais a saúde e a alimentação eram inexistentes. Os bairros operários se agigantavam, tornando quase cidades dentro da capital, eugenia3
onde a degradação se misturava entre trabalhadores, bêbados e criminosos.
Nos bairros pobres, o mau cheiro era tamanho que Londres foi tida como a cidade
mais fétida da Europa e passou por um período que foi denominado “O Grande Fedor”, devido ao mal cheiro causado pela poluição. As atividades da vida privada, eram realizadas na rua, como as ligadas às necessidades fisiológicas e não era incomum a presença de cadáveres em decomposição pelas ruas, mortos por crimes ou mesmo suicidas. As águas, de tão contaminadas, pelos esgotos eram negras, fazendo com que se criasse um ambiente propício à doenças contagiosas, como a cólera, varíola e escarlatina, além de doenças epidêmicas, como o tifo. 

O criação do sistema de esgoto de Londres foi um dos grandes projetos de engenharia da era Vitoriana que viria a revolucionar a vida na cidade.  Como Londres vivia uma época de efervescência política e cultura, e por conseguinte sua população havia dobrado de tamanho, viu-se a necessidade de construir um sistema de esgoto que despoluísse o Rio Tâmisa e fizesse da cidade um ambiente limpo. A obra foi feita e logo o sistema de esgoto londrino tomou fama. Aí começa a história que me foi contada na regressão:

“De início só vi a escuridão e senti um cheiro nauseabundo que empestava o ar, quase insuportável, um barulho de água corrente bem baixinho chegou aos meus ouvidos, eu não conseguia entender aonde estava. Quando a terapeuta me perguntou que lugar era aquele foi que comecei a visualizar melhor meu entorno, havia uma réstia de luz naquela escuridão e observei que as paredes eram feitas de pequenos tijolos que formavam arcos até o teto e pelo chão corria um córrego de esgotos, por todos os lados haviam ratos. Meu inconsciente me fez perceber de imediato que estava dentro dos esgotos de Londres, no século 19, e meu trabalho consistia em fiscalizar aqueles lugar visualmente para detectar alguma anormalidade. Era algo que detestava, fazia porque naquela época não haviam muitas opções de trabalho para sobreviver. Vivia num bairro operário na periferia da cidade e da pequena janela de meu apartamento podia ver os telhados e janelas dos outros, centenas, que estavam à minha volta, era uma visão urbana feia e triste” – Conhecendo um pouco da história da cidade é fácil saber porque ela transmitia essa sensação.

“Meu personagem era um homem de mais ou menos 40 anos, forte branco, um pouco acima do peso, baixo, de cabelos e olhos castanho escuros, nem feio nem bonito, comum. Não gostava de meu trabalho, de onde eu morava, nem do país em que nasci, o achava frio e cinzento, o sol quase nunca aparecia, tinha uma família também, com mulher e dois filhos que desgostava igualmente sentindo-os como um fardo e pelos quais não tinha nenhum afeto. Me sentia extremamente frustrado com a vida que levava, queria mudar de vida de qualquer jeito. Parecia que a vida foi me levando por seus caminhos sem muita escolha e quando me vi estava naquela situação, me sentia preso e infeliz.

Com a desculpa de procurar uma situação de vida melhor para todos abandonei minha família quando os filhos ainda eram pequenos, fui embora dizendo que quando estivesse em situação melhor voltaria para ajuda-los, mas era mentira. Passaram-se 20 anos, me vi envelhecido em melhor situação financeira, mas me sentindo muito só. Resolvi procurar minha antiga família, mas minha mulher já havia morrido e meus filhos me rejeitaram, continuei sozinho, nunca mais consegui me unir a ninguém ou formar outra família, mais por vergonha de mim mesmo.

Com 80 e poucos anos vivia sozinho no meu apartamento, um lugar pequeno e simples, sentindo o peso de uma solidão terrível e a amargura de uma vida sem mais nenhum sentido, um dia quando senti uma dor aguda no peito, era um infarto, levei a mão ao peito e caí com o rosto contrito entre as cadeiras de minha sala de jantar; fiquei ali no chão, morto. Minha aparência era deprimente: um velho de cabelos brancos e ralos, magro, de terno cinza, antigo. Logo depois da morte pensei que não devia ter agido como agi naquela vida, com um egoísmo enorme , pensando só em mim, me senti muito culpado por ter abandonado minha família e pensado só no meu bem estar,  uma solidão imensa me assolava, e acompanhada de uma infelicidade sem tamanho, continuava com vergonha de mim mesmo e cheguei à conclusão que nunca devia ter feito o que fiz, decidi que nunca mais iria repetir o mesmo erro, jamais iria abandonar minha família de novo e não iria mais ser egoísta”.

Até hoje esse cliente sente repulsa por Londres, se saber porque, esteve lá uma vez e não gostou, apesar de ser hoje uma cidade moderna e cosmopolita. De certeza ficaram gravadas em sua memória as péssimas condições de vida que teve naquela existência. Talvez ele não tenha perdoado até hoje aquela cidade, que não lhe deu meios de sobreviver bem e ter uma existência decente.

 

 


 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

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