sábado, 24 jun 2017
Administração

Viver e morrer juntos

Essa história é de uma beleza ímpar e me emocionou muito quando a ouvi de minha paciente na época, nela podemos comprovar como a tolerância, o amor e o tempo podem nos ajudar a superar nossas próprias falhas e limitações, nos levando a ter uma existência bela e feliz.

Nunca soube o nome da personagem dessa história, que veio numa das regressões de C.S, paciente que tratei em 2003, mas sabemos como ela era pela descrição que me deu:  mulher jovem, entre 15 e 17 anos, aparentemente de muitas posses, pois tinha servas, “aias”, e se vestia ricamente, usava na ocasião enfeites nos longos cabelos negros e pescoço, tudo emoldurado por um vestido longo com detalhes dourados de mangas compridas; nos pés sandálias douradas amarradas na perna, ao modo grego. Ao me falar do lugar onde se encontrava C.S me descreveu pessoas que usavam roupas parecidas as dela, como túnicas longas, parecia a Grécia antiga me disse, num dia de sol em um mercado aberto, cheio de variedades. Ela estava escolhendo roupas e, naquele momento, discutia com uma mulher por uma peça de roupa ( isso parece não ter mudado muito ao longo dos séculos), contou-me que brigava mais por capricho, nem queria muito a roupa, mas apenas para não deixa-la para a outra.

Ao avançarmos no tempo relembrou de outra cena, posterior,  onde estava dentro de um palácio, tomando banho dentro de uma banheira cheia de pétalas de rosas, sentindo-se linda e poderosa, num palacete de arquitetura grega com pilares redondos e detalhes dourados, estava se preparando para sua festa de noivado com alguém que parecia ser uma pessoa importante. Vamos às suas palavras.

“Meu casamento foi arranjado por meu pai, ele queria mais poder para nossa família, e essa era uma boa maneira de conseguir, mas meu noivo era um homem de terras distantes e isso me fazia sentir insegura, como vou casar com alguém que nunca vi? Mas fazer o que…naquela época isso era comum, pensava também que os homens poderosos dali sempre tinham outras mulheres e eu não queria passar por isso, estava com medo de ser traída, tocada…mas chegou a hora de conhecer o noivo. Me apresentei na festa com uma maquiagem forte e um vestido longo, dourado e justo, quando o vi tive uma surpresa agradável, ele era novo, alto, bonito, parecia um lorde, fiquei maravilhada,  senti paixão por ele imediatamente o que, depois ele me confidenciou, foi recíproco. Fomos dançar e damos as mãos, sinto as dele e as minhas geladas, estávamos nervosos, findamos nos beijando e nos apaixonando ali mesmo.

Após o  casamento fomos viver com ele em seu país, sofri um pouco para me adaptar, lá as pessoas e os costumes eram diferentes, elas me olhavam de forma estranha e acho que riam de mim, mas ele se esforçava para que eu ficasse menos deslocada, me explicava e ensinava os costumes de lá, apesar disso eu sofria, pois desconfiava que na corte outras mulheres já haviam tido algum romance com ele, sentia ciúmes, mas ele dizia que nunca tinha havido nada entre eles, como naquela cultura todos traiam, tanto homens como mulheres, me preocupava, mas ele insistia que elas foram apenas pretendentes e que nunca  ia me trair, sentia em suas palavras que isso era verdade e que ele gostava de mim.

Depois de pouco tempo meu sogro morreu e meu marido assumiu o reinado, mas a vida na corte não era fácil, vivíamos cercados de pessoas más e invejosas, que tentavam tomar o poder por golpes que meu marido, o novo rei, conseguia neutralizar; ele me dizia que tinha essa força por minha causa e isso me fazia me sentir mais segura, fomos vivendo assim unidos e centrados, até que nosso primeiro filho nasceu, aí as coisas desandaram.

Como era costume por lá, meu marido insistiu em que meu filho fosse estudar em um lugar distante, com apenas 7 anos, e isso me magoou demais, não estava em meus planos ficar longe de meu filho assim; essa mágoa me fez distanciar-me do meu marido, que ficou mais vulnerável, achando que eu o odiava; passamos a viver em quartos separados, nessa época eu tinha uns 30, e ele uns 40 anos.Me sentia triste e angustiada, achava que ele havia arranjado outras mulheres e que elas eram as culpadas deles haverem se distanciado. Mas era muito orgulhosa para voltar atrás e como fui eu que pediu para que ficássemos separados não iria ceder, apesar de morrer de vontade de pedir para ele voltar.

Quando estava com 40 anos meu filho voltou dos estudos e minha filha noivou, a essa altura nossa relação como marido e mulher estava completamente fria, quase formal, sentia que ainda nos gostávamos, mas éramos muito orgulhosos para nos desculpar e voltarmos a nos falar, ele se tornara frio e nem nossa filha trata com carinho.gregos

Na festa de noivado de nossa filha, findamos dançando muito e me senti como na primeira vez em que nos conhecemos, ele me falou palavras carinhosas e disse que continuava apaixonado por mim, chorei e nos beijamos, me senti rejuvenescida, pensei que agora poderia morrer feliz. Depois disso eu lhe pedi desculpas pelo meu egoísmo, por tudo o que disse, perdemos muito tempo por um orgulho impróprio e a partir daí passamos a viver bem, nos amando, chegaram os netos e a vida foi tranquila até estar com a idade bem avançada, tipo 90 anos.

Nessa época ele ficou doente e eu também, por causa dele, resolvi que vamos morrer juntos. Ao sentirmos a proximidade da morte ele mandou fazer a cama do mesmo modo de quando nos casamos, e eu vesti-me da mesma forma e com o mesmo arranjo na cabeça de quando me casei, estava fraca e sem forças, deitei-me e me agasalhei nos seus braços esperando a morte que logo chegou para nós dois, as últimas coisas que ele disse foi que nunca teve outra mulher e que sempre me amou” – Contava C.S. com emoção.

Depois da morte aquela mulher viu-se como jovem novamente, assim como o marido. Sua emoção era da mais pura felicidade e finalmente pode refletir sobre tudo o que havia passado. Pensou que foi uma mulher de sorte, corajosa e digna, se sentiu alegre por ter tido aquela vida, mas lamentou que tivesse deixado passar inutilmente bons anos de sua vida pelo simples fato de ter sido contrariada, isso não ajudou em nada sua felicidade. Avaliou que o fato dele não ter feito sua vontade havia lhe magoado muito, foi orgulhosa e imatura e isso não a havia deixado ser mais feliz, aprendeu lições de maturidade. Decidiu que, partir dessas lições, para outras vidas, ia tentar ser menos orgulhosa, para ser mais feliz.

 


 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

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