sábado, 19 ago 2017
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Os puros de coração

As chamadas “bem-venturanças” foram citações de Jesus a respeito das virtudes morais e das dificuldades vividas pelos homens de seu tempo, mas que se tornaram atemporais pela sua profundidade. Entre estas existe uma que merece um olhar mais acurado, pois sua interpretação de início simples, pode levar a equívocos. É aquela que diz “Bem-aventurados os puros de coração porquê verão a Deus” – Mt 5,8.

Estando Jesus nas colinas próximo a Cafarnaum era normal aproximarem-se dele as multidões, famintas de consolo e ânimo. Eram anciãos, crianças, pobres e ricos, crentes e ateus, atraídos pela sua fama e curiosos de suas  obras. Com a alma e o corpo doloridos pelas agruras da vida. Mas o grande mestre não estava interessado em espetáculos, ele queria, antes de mais nada saciar a fome da alma daqueles homens e mulheres já desesperançosos da ajuda e até mesmo da existência de um Deus que parecia te-los abandonado. Naquelas tardes quando o sol tingia de laranjas e vermelhos os céus da Galiléia a brisa fresca que corria por aquelas pequenas colinas parecia trazer a voz de Jesus chegando aos ouvidos mais distantes. E ele começava, com uma voz suave, mas com a potência do ribombar de um trovão contido, a transmitir sua mensagem divina, entre elas a que escolhemos e que teve várias interpretações ao longo dos séculos:  “Bem aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus” (Mt 5,8). 

As chamadas “Boas Aventuranças” tinham cada uma um significado especial que consolava e causava resignação perante as dificuldades deste mundo. Mas o que Jesus quis dizer com “Ver a Deus?”. Qual a vantagem existencial disto? Vou partir de uma interpretação psicológica para tentarmos entender a profundidade destes ensinamentos, afinal tudo o que Jesus ensinou tinha um fundo e um propósito psico-terapêutico, mais até que religioso. Vamos começar com o que ele queria dizer com “puro de coração”.

O coração sempre serviu de metáfora aos sentimentos do ser humano, bons ou ruins, se acreditava na antiguidade ser ele a sede de nossas emoções. Assim Jesus usou também dessa analogia. A pureza, outra colocação, implica em abstenção de nódoas, sujeira e tudo o que possa conspurcar algo ou alguém. Assim a pureza de coração implica um coração isento de máculas, limpo de qualquer impureza. E o que pode tornar impuro nosso coração? Obviamente os sentimentos negativos que abrigamos nele; o ódio, os ciúmes, a inveja, a mesquinhez, a ira, a soberba e tantos outros, mas isso não é o mais importante, o que importa é que para Jesus só se o tivermos “puro” veremos a Deus, mas a dúvida que quero colocar é a seguinte: isto é condição ou consequência dessa pureza?

Eu creio que ambas, mas principalmente a consequência, por um motivo: Se precisamos de um coração puro para termos a mínima condição de nos apresentarmos ante uma entidade que seria o ser supremo do universo, também precisamos da mesma condição para identifica-lo, pois afinal como saber que estamos perante ele ou não? Afinal, diante de nossa pequenez moral, isso seria possível em nossa atual condição? Quem poderia dizer que tem o coração tão puro a ponto de encarar Deus sem  nenhum temor? Talvez só os hipócritas poderiam se arvorar de tal condição. Mas Jesus aventou essa possibilidade como real: A de que se formos puros o suficiente poderíamos ver o Criador. Então como isso poderia ser minimamente possível? Posso arriscar uma dedução.

Será que em nossa pequenez, por mais puros que fôssemos seriamos capazes de tal proeza? Será que o criador do Universo caberia em nossa pobre capacidade de percepção e entendimento? Acho sinceramente que não. Isso talvez coubesse aos anjos ou espíritos mais evoluídos da criação, não a nós simples seres humanos. Ainda assim, de acordo com Jesus, isso caberia dentro de uma possibilidade; a de que nós pudéssemos ver a Deus pelas suas obras, porque afinal ninguém sabe se ele é uma personalidade ou, se como muitos suspeitam, um todo, imbricado em cada partícula da criação.

Se assim o fosse ao tornarmos puros nosso coração nos livrando de tudo o que o conspurca poderíamos perceber coisas que hoje nos é impossível. Sentimentos como os ciúmes, a inveja, a purossoberba, a mesquinhez, o egoísmo e muitos outros contaminam nossos sentimentos negativamente impedindo-nos de ver os homens e a natureza como irmanados a nós, assim nos tornamos cegos aquilo que pode estar muito próximo e que poderíamos associar à presença divina. Ver a Deus pode não ser necessariamente enxergar alguém, mas perceber sua presença em todos nós, e principalmente em nossos semelhantes.

Assim quando estamos “puros de coração” podemos ver a Deus sim, nas pessoas que dividem a vida conosco, em toda a natureza que nos cerca e em cada boa experiência que sentimos. Mas Jesus, como sempre um grande psicólogo, nos estimula a melhoria interior, como em qualquer boa psicoterapia, condicionando aquela expectativa a um superior grau de evolução onde o ser humano não abrigue me seu coração sentimentos maus que lhe lavarão a perda da paz e à morte, e a completa impossibilidade de “Ver a Deus”, pois isso também já seria, por si só, um estado de graça.

 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

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