sábado, 18 nov 2017
Administração

Fazer sua parte

Dona R. era uma senhora de 54 anos, educada e distinta, de boa família, casada com um médico conhecido a quem ajudava no consultório organizando a agenda de pacientes. Chegou se queixando da filha, com quem nunca conseguira um bom relacionamento, dizia que ela era interesseira, orgulhosa e gastadeira. Sentindo-se humilhada por ela se afastou de seu convívio e dos netos a quem tinha muito apego, não sem sofrer, mas não aceitava a falta de reconhecimento por seus esforços em criar a filha dando-lhe do bom e do melhor, menos limites, como ela mesmo me passou.

Quando começamos suas regressões o padrão de suas personagens era constante: homens e mulheres orgulhosos e intolerantes que necessitavam aprender a ajudar o próximo e, na maioria das vezes fracassaram. Assim fomos em frente até que perto de sua alta findou abandonando a terapia, quando se viu frente a um novo desafio, onde teria que enfrentar seu principal problema: um orgulho imenso. Uma de suas regressões me marcou pelas lições que trouxe a ela, e a ajudaram em sua evolução, vou conta-la a vocês usando de suas próprias palavras.

“Estou em um asilo, é um lugar tranquilo, silencioso, com muitas árvores, sou um enfermeiro, trabalho lá, mas não gosto, tem pouca gente e trabalhamos muito, sem descanso. Sinto em meu coração a necessidade de ajudar as pessoas, mas não consigo, meu orgulho e egoísmo me impediam de aproximar das pessoas como deveria, isso me entristece. Tinha medo de começar a me doar a ouvir…mas preciso abrir meu coração, as pessoas necessitam de conforto, elas ficam pedindo ajuda.  Tinha uns 35 anos e comecei a trabalhar lá depois de uma visita.

Trabalhei lá muito tempo assim, dividido entre o dever de ajudar e a vontade de fugir daquele compromisso, pois não gostava de estar ali. Meu coração pedia que eu ajudasse, mas achava que não poderia ajudar sozinho.  Sentia raiva de mim mesmo, mas não conseguia tomar a iniciativa.

Findei adoecendo depois de alguns anos, achei que isso era um tipo de lição, parece que se eu não ajudasse aquelas pessoas de coração, se não me entregasse à tarefa, iria ter que aprender pela dor, e foi o que aconteceu. Com 60 anos tive uma dor  de estômago muito grande, de tanta raiva e contrariedade, precisei de ajuda, muita ajuda para cuidar de mim, e quem cuidou foram as próprias pessoas do asilo. Sinto que eu adoeci porque não estava ajudando como deveria, era para sentir o que as pessoas estavam sentindo e poder ajudar. Senti medo de ninguém cuidar de mim como eu não quis cuidar, mas cuidaram e fiquei curado — Dona R. respirou aliviada.

idosos-cabelos-brancosDepois disso me vi caminhando e ajudando as pessoas, as alimentava, mostrava o que sofri também, amenizando seus sofrimentos. Me senti bem, que estava fazendo o bem, senti amor. Os anos se passaram até que chegou a minha hora, ainda estava lá no asilo, numa cama, com um enfermeiro e várias pessoas, sinto muitas dores por todo o corpo, suo muito. Penso que tenho que ajudar o próximo, melhorar, tenho que ajudar…senti muito amor de poder ajudar as pessoas…morri. Essa era minha missão: tinha que dar amor, ajudar, dar mais valor. Isso me deu alívio e um sentimento de gratidão pelo bem que tenho que cumprir e ao meu próprio espírito por estar agindo. Não dá mais pra esperar, tem muitas pessoas esperando por mim”.

No fim da sessão pensei no que estamos fazendo aqui, por menor que seja nosso aprendizado, aonde quer que estejamos. Quantas pessoas também estão esperando por nós? Depois disso Dona R. mudou, espero que nós também.

 


 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

VÍDEOS

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CONSULTAS EM MANAUS