quarta-feira, 26 jul 2017
Administração

Num campo nazista

A.O. era um senhor perto dos sessenta anos, prestes a se aposentar como funcionário público, que me chegou para tratamento em no finalzinho de 2014. Estava muito ansioso por fazer as regressões, pois, como muitos, acham que elas são a cura para tudo. Sua queixa principal era a de que sofria de uma timidez exagerada e tinha muitas dificuldades de falar em público; explorando um pouco mais descobrimos que na origem disso existia um enorme medo do fracasso e uma sensação de impotência que lhe travava as iniciativas.

Na sua segunda regressão descobrimos algo que tinha muito a ver com isto e que ao mesmo tempo nos levou de volta a uma das épocas mais tenebrosas da humanidade, a Segunda Grande Guerra. Abaixo vai o relato de A.O. que logo que iniciou a regressão já se viu como a personagem:

“O dia está amanhecendo, estou numa fila… caminhando com outras pessoas, homens, mulheres, crianças, de roupas rasgadas, maltratados, o lugar tem arame farpado e galpões de madeira com muita gente dentro, acho que estamos num20120722074013101783i campo de concentração alemão, é em 1941, na Alemanha, estamos todos presos, os guardas usam fardas nazistas. Eu estou muito magro, subnutrido, tenho bigodes, sou branco de olhos bem azuis e cabelos castanhos claros, uso apenas farrapos, como todos os outros. Tenho por volta de 40 anos. Sinto muito medo, medo do que vai acontecer…vão nos matar a qualquer momento…toda manhã saem filas de pessoas para isso”  — Mas naquele momento seu inconsciente lhe trouxe outra cena anterior àquela— “Vão nos levar para uma sala fechada onde tem nazistas sentados; eles nos olham como se fôssemos animais” — Sua voz baixa o tom e a respiração diminui, como se esperando o pior — “Eles escrevem, preenchendo formulários que nos fazem preencher também, com armas apontadas para nós o tempo todo. O olhar deles, e de todos os que nos prenderam, era de desdém, como se nada significássemos, a todo tempo éramos espancados, com total falta de respeito, sentia medo e pavor o tempo todo”.

Depois desse impressionante relato inicial pedi-lhe que voltasse no tempo, para antes daquela época trágica aonde poderíamos descobrir em que circunstâncias ele havia sido levado para aquele lugar. Após alguns segundos buscando em suas memórias mais antigas contou: “Sou um médico judeu, vivemos felizes numa cidade pequena da Alemanha, eu com minha mulher e meus dois filhos, temos uma casa agradável num bom bairro, estamos  em 1938 para 39, estava à mesa comendo e ouvindo pelo rádio sobre a guerra e as perseguições que os judeus estavam sofrendo. Nossa vida era completa até que um dia os nazistas invadiram a nossa casa e nos tiraram à força de lá, levaram nossas coisas…me sinto impotente, derrotado”  — Falou em tom angustiado — “Depois nos jogaram, todos juntos, num trem, com outros em igual situação, para os campos de concentração; éramos só medo e pavor, ninguém sabia o que iria acontecer, mas todos esperavam o pior. Depois que chegamos no campo fomos deixados num galpão, passamos fome…muitos morriam de fome, meus filhos morreram assim; minha mulher foi levada e nunca mais a vi….acho que foi executada. Nós éramos como animais, alguns submetidos à experiências médicas”.

Após esta cena suas memórias o levaram de novo ao campo de concentração, onde estava prestes a ser executado, naquela mesma manhã em que iniciou a regressão. E assim terminou sua história, que me contou em tom triste: “Vamos todos ser fuzilados, homens, mulheres evala de corpos crianças, depois somos lançados numa vala comum, com outros milhares de corpos, o meu fica lá, só osso e pele, cadavérico”.

Depois de todas essas lembranças A.O. pôde finalmente entender de onde vinha seu medo sem justificativa e sensação de fracasso perante a vida. Segundo suas palavras: “Aquelas experiências e como fui tratado, me deixaram com medo e complexo de inferioridade, como se sempre fôssemos inferiores, animais acuados, amedrontados, sempre”.

Vale lembrar que as vítimas do que passou a se chamar Holocausto contam que naqueles campos de horror as pessoas mais pareciam esqueletos vivos do que homens. Gente de toda a classe: médicos, empresários, professores, funcionários públicos, passavam do dia para a noite a não serem mais que simples números, que eram tatuados em seus braços. De tão fracos mal podiam ficar de pé e, por qualquer motivo, eram executados tal como animais. Usavam apenas blusões listrados que nunca eram lavados, apenas trocavam de corpos para a próxima vítima, insuficientes para protege-los do rigoroso inverno nórdico. Transformados em zumbis paralisados e comandados pelo terror apenas aguardavam pela morte, que chegaria sem muita demora.

 


 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

VÍDEOS

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CONSULTAS EM MANAUS