domingo, 23 abr 2017
Administração

Virar um mendigo

R.T era um jovem de trinta e poucos anos, que estava em sua 13a. sessão indo muito bem no tratamento. Corria o ano de 2002 e seu inconsciente nos trouxe a interessante história que lhes transcrevo a seguir. É um relato de dor e sofrimento de alguém que vemos com frequência em nossas vidas, mas não damos a devida atenção, os mendigos. Começou seu relato com a voz tranquila a foi me falando pausadamente, hesitando algumas vezes:

“Tenho a mesma cor que hoje, moreno jambo, mais ou menos 16 anos, magro, bonito, cabelos pretos, visto uma camisa branca e calça jeans. Tenho tido o que preciso, só não tenho namorada… não me sinto bonito, era pobre, queria melhorar de vida, sentia frustração por não ter a mulher que quisesse , tinha inveja de quem tinha mulheres bonitas, sentia um pesar…raiva de não ser rico…não ter tudo o que quisesse.

Com 21 anos comecei a beber, andar em más companhias, fui me revoltando cada vez mais, me viciando mais em álcool e drogas; acabei louco por causa das drogas, fui ficando pelas ruas perambulando, comendo o que encontrava. Fiquei assim o resto da vida…envelhecido, a barba maior, enfraquecido, completamente louco. Ficava transitando pela rua, com o cabelo grande, cheio de tranças, com uma roupa preta, toda rasgada, estava magro. Um dia estava sentado numa praça pensando em como seria bom estar fazendo o que os outros fazem…se não estivesse tão lascado…mas ninguém me dá a mão, não tenho oportunidade de melhorar…frustrado por ser um mendigo. Morri todo engilhado, na mesma praça, parecia velho demais, mas só tinha 54 anos”.

Sua voz se tornou mais triste e pesarosa a partir desse momento, parece que pouco antes de morrer se fez mais lúcido e pode entender certas coisas dizendo: “Sinto uma tristeza e um pesar muito grande…uma  revolta por não ter conseguido sair desse problema. Deveria ter sido mais tolerante e paciente para melhorar de vida quando era jovem, sinto muito arrependimento de ter sido fraco”. Esse arrependimento aindadiario-de-um-mendigo o acompanhou mesmo depois da morte, ficou fazendo parte do que levou daquela vida, com outros significados, que percebi transmitidos no seu modo de falar: “Muito arrependimento, por ter dado tantas tristezas para meus pais, por não ter sido bom e simpático, por ter sido fraco, e não ter dado felicidade para muita gente, fui medíocre. Sinto tristeza e medo, medo de ir para o inferno”.

Aí tivemos uma parte interessante de seu relato, muito de acordo com suas crenças. Seu espírito foi para um plano muito similar ao “inferno” de algumas religiões ou mitológico. Vale a pena o relato: “Fui pro inferno…tem muita gente gritando, é escuro…me sinto agoniado, com muita perturbação, vou ficar aqui até conseguir me purgar completamente. Penso que um dia vou conseguir ser íntegro, digno, respeitável, de coração puro e feliz, amado e querido; fui muito egoísta”.


2 Comentários

  1. Como assim ?
    A pessoa vira um farrapo humano e ainda assim vai padecer no “inferno” por conta de não ter atingido aos anseios dos outros ?
    O que é isto ?
    Sinceramente…

    1. Bom dia Francisco,
      Inicialmente agradeço o prestígio de sua leitura e seu tempo em refletir sobre o assunto, e tenho algumas considerações a dar somente para esclarecimento.
      Não sou eu, nem o cliente em regressão, que vai fazer nenhum julgamento ou definir algum tipo de castigo. Se situações de sofrimento vêem à memória dele sobre as consequências de seu ato, isso não é de nossa responsabilidade.
      Padecer no “inferno” de que se lembra qualquer um é antes de mais nada uma associação que nosso consciente faz a partir de conceitos e crenças que temos sobre o que nos lembramos, e isso eu deixo claro quando relato essas estórias. Não fazer parte das suas ou você discordar disso é justo, mas não sou eu que escrevo nem revivo as estórias, só as conto.
      Sobre atingir o anseio dos outros acho que vc se equivoca. Os anseios de que R.T fala são dele mesmo, assim como seu arrependimento. E a decisão de mudar também foi dele, e é de cada um. Tando vc quanto as outras pessoas podem viver da maneira que quiserem, independente da opinião alheia e ninguém obriga ao contrário, mas também temos que repensar muitos de nossas atitudes, ou arriscar nosso próprio julgamento no devido tempo.
      Abraços, Ney

 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

VÍDEOS

YouTube responded to TubePress with an HTTP 410 - No longer available

CONSULTAS EM MANAUS