sábado, 24 jun 2017
Administração

O judeu

Ricardo começou o tratamento comigo em 2002, jovem de trinta e poucos anos desde a adolescência apresentava um quadro de esquizofrenia que estava estabilizado com o uso de antipsicóticos e antidepressivos, mas ainda assim seus delírios e despersonalizações eram frequentes, o que levou sua mãe a me procurar em busca de algum tipo de alívio de seus sintomas. Em sua segunda regressão colhemos a história que lhes passo a seguir e ajuda a entender os carmas que o rapaz carregava consigo. Como normalmente acontece, ao imergir no personagem, Ricardo mudou o ritmo de sua respiração e o tom de voz, que acompanhava seu estado de espírito, no caso o de um homem autoritário e prepotente que me relatou o seguinte:

“Estava num lugar medieval, em meio a um campo com muito verde, onde havia uma casa de alvenaria grande, minha casa, eu era um judeu muito rico. Havia nascido fidalgo e no começo da minha vida era diferente, era calmo, tranquilo, feliz. Mudei quando fiquei adulto e fui para minha própria casa.Tinha em torno derigidez3 cinquenta anos agora, branco e forte, mediano, de cabelos bem grisalhos que deixavam minha cabeça branca, usava uma calça preta e camisa listrada. Me sentia como alguém muito ruim, muito mau, era intolerante demais, tinha tudo e não dava valor ao que tinha, era muito frio, metódico e perfeccionista, queria tudo do meu jeito, não aceitava a opinião dos outros, eles não valiam nada, só os da minha família.

Estava voltando para casa irritado, as pessoas ‘lá fora’ não faziam o que eu queria…estava zangado” — Falou coma voz raivosa — “Queria acabar com tudo, mas não encontrei mais ninguém e tive que me controlar. Vivia ali com minha mulher e dois filhos, um de sete e outro de cinco anos.  Conforme o tempo passou fui ficando velho e doente, sozinho, estava para morrer de velhice — Contava resignado — Morri com 75 anos, tinha uma aparência acabada, pele flácida, me sentia angustiado por saber que ia deixar minha família”.

A personagem de Ricardo, apesar de lamentar a perda da família disse se sentir só na velhice, possivelmente pelo distanciamento a que se deu deles pelo seu gênio irascível e controlador. somente depois da morte soube valorizar o que havia perdido na vida: 

“Mas me senti aliviado depois que deixei o corpo, mesmo me sentindo triste por deixa-los, queria ficar aqui com minha família, que eles me perdoassem por ter agido como Deus, …senti medo de não ir para o paraíso por não ter sido uma pessoa boa , por não ter mudado minha vida enquanto era novo, me bateu um arrependimento muito grande. Eu não tinha direito a um lugar no paraíso por ter sido tão seco e tão ruim. A partir de agora eu vou procurar mudar, ser uma pessoa boa, pedir perdão por tudo o que fiz, vou ser uma pessoa diferente. a gente só consegue ir pro paraíso se for bom”.


 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

VÍDEOS

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