sábado, 21 out 2017
Administração

Morrer na sarjeta

S.C foi um paciente de início muito difícil, acostumado na vida a ganhar as coisas literalmente no grito era dono de um temperamento explosivo que não tolerava contrariedades, além disso sua primeira queixa foi das mais estranhas, ele chegou me dizendo que tinha tudo o que buscou na vida: sucesso profissional e financeiro, família estável, bons filhos e tudo mais o que poderia almejar um homem de 70 e poucos anos como ele, mas nada disso lhe bastava, pois não se sentia verdadeiramente feliz. Acostumado a ouvir lamentações, queixumes, lamúrias e outras coisas relacionadas ao sofrimento humano recebi aquilo com surpresa; ficou claro que, para S.C, não ter porque ser infeliz não era sinônimo de ser feliz, mas como o bom soldado não foge a luta resolvi ir em frente e ver o que seu inconsciente nos traria com o tempo.

Notei com o tempo que S.C além daquelas características que citei tinha outras também muito negativas, era muito arrogante, extremamente prepotente, homofóbico e preconceituoso, principalmente com os negros, não se preocupando nunca em cultivar simpatias, com quem quer que fosse. Obviamente isso iria se revelar alguns conflitos ou problemas que ele mesmo não percebia em sua vida. Fizemos sua primeira regressão dentro em breve, e as surpresas continuaram, como vocês verão a seguir:

Na primeira regressão, pós uma resistência inicial, perguntei-lhe do que ele não gostaria de lembrar de ter sido, ele me respondeu: “Não gostaria de ter sido homossexual”;  a partir daí começou seu emocionante relato:

“Era um rapaz de mais ou menos 30 anos, de cabelos loiros e olhos azuis; estava sozinho sentado num bando de jardim pensando na vida, pensava se a vida valia a pena, sobre o que deveria fazer, para onde ir, me sentia muito solitário…tinha um desvio de padrão… era homossexual” — Sua voz transmitia toda a angústia e solidão que sentia, ao mesmo tempo que me tomou de surpresa, como nós poderíamos imaginar que seu inconsciente lhe mandaria logo um papel do qual meu cliente mais tinha preconceito? — “Me dava apenas vontade de morrer e uma grande tristeza” — Continuou.

Procurei entender como ele havia chegado naquele ponto, sozinho e triste, e, ao perguntar-lhe, me trouxe os motivos que o levaram até ali:

“Estou sendo oprimido por meu pai, ele é muito violento…me agride física e verbalmente…sinto muito medo, mas gosto dele…” — Dizia isso em voz baixa, se encolhendo na poltrona do consultório —  “Fui abandonado pela minha família…eles não me compreendiam…fui embora, sobrou só a insegurança e o abandono”. A vida que S.C revivia era intensa, ele transmitia as informações completamente imerso em seu personagem, seu ego atual fora deixado para trás, lhe fazendo recobrar do fundo do ser todas aquelas dores: “Naquela época vivia de orgias, com muitas pessoas, mas isso não diminuía minha sensação de estar só, tenho medo desta solidão…Ao fugir para as ruas caí de padrão de moralidade, minha vida era só de vícios, orgias e drogas, virei um lixo…”.

Quando lhe perguntei quanto tempo passou assim, nas ruas, vivendo como ele mesmo disse, como um “lixo”, ele me respondeu que ficou por lá até ter mais ou menos 40 anos. Pelo que via estava um trapo, jogado na sarjeta, muito magro e barbudo, vestido apenas de farrapos: “Muito só…me sinto mal, com uma dor no peito” — Sua voz era toda dor e sofrimento — “Peço a Deus que me leve, não quero mais ficar aqui…por favor me leve meu Deus…me leve..” — S.C murmurava, dirigindo-se diretamente a Deus, com a voz embargada pela dor e pelo choro, que nesse momento também pobrezame contagiava, pediu mais algumas vezes que Deus o levasse e chorando muito continuou: “Vou morrer…estou me sentindo fraco…vou morrer…” — Nesse momento agradeci que ele estivesse de venda, para que não me visse chorando também, afinal eu nunca vira ninguém implorar pela morte daquele jeito.

O alívio que sentiu depois da morte foi muito grande, mas as lições ainda não haviam terminado, com a voz rouca de raiva falou: “Sinto um desejo muito grande de vingança, contra todos os que me jogaram aqui, inclusive meu pai…todos vão pagar…todos os que não me ajudaram. Sinto muito ódio e tristeza, joguei uma vida fora…fui muito humilhado, fui mau, mas quero voltar para resgatar a vida e ter uma família como deveria ter tido”. Paramos ali.

O bonito de toda essa história não foi o que se passou no consultório, mas fora dele, S.C. saiu chocado e mudo da sessão, nunca havia passado por algo parecido nos seus mais de 70 anos de vida. Como estava de viagem marcada passei 20 dias sem ve-lo, mas quando retornou estava cheio de novidades: Me disse que viajou próximo de uma família de negros com os quais travou amizade e sem preconceitos, dividindo ótimos momentos; outra coisa mais importante que eu não sabia, ele tinha um sobrinho gay e agora, depois de tudo o que lembrou, está ajudando o irmão a entender melhor o filho e a superar seus próprios preconceitos. Valeu a pena demais todas as lágrimas que derramou aquele dia, nunca mais sua vida seria a mesma.

 


 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

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