terça-feira, 23 mai 2017
Administração

Um executor sagrado

R. um jovem então de 36 anos cheio de problemas psicológicos, já diagnosticado como esquizofrênico, veio trazido à terapia por sua mãe em meados de 2003, após algumas sessões nos truxe essa bela estória, este é o relato de sua sétima regressão. De início com a voz tranquila, como quem conta um fato distante, ele começou assim seu relato:  “Vejo um estádio asteca, meio antigo, ao redor tem um império Inca… ruínas17 Nov 1995, Chichen-Itza, Mexico --- Chichen-Itza's Pyramid of Kukulkan, seen from the Temple of the Warriors. The pyramid is often called El Castillo ("The Castle"). --- Image by © Danny Lehman/CORBIS antigas. As poucas pessoas que vivem lá se vestem tipo índio, com penachos e tangas, estão trabalhando com pintura e esculpem”. Com esse relato meio confuso pensei comigo mesmo que ele poderia estar se confundindo com seus conhecimentos de história, e talvez até misturando lugares que tinha estudado anteriormente em sua imaginação, embaralhando as recordações. Somente mais tarde ao pesquisar e rever meus conhecimentos sobre as civilizações astecas e incas fui descobrir que realmente a primeira floresceu sobre as ruínas da segunda, muito mais antiga, nas mesmas condições geográficas; então seria bem possível sim, que nossa personagem se visse naquelas condições.

“Sou um índio, de uns 30 e poucos anos, cor de jambo, cabelos pretos e longos presos num rabo de cavalo, uso uma tanga e penacho. Meu trabalho naquele lugar era fazer rituais de matança, participava de sacrifícios para um Deus; tinha que fazer aquilo, para meu povo trabalhar era uma obrigação que tinha que ser feita com prazer, o ócio era contra a lei. Mas aquela tarefa me fazia sentir mal, sentia um certo pesar. Primeiro eu espetava os homens, fazia-os sofrer bastante, depois os matava e esquartejava em louvor ao Deus.  Me sentia bem por ter realizado minhas obrigações com o Deus, mas comigo mesmo sentia um certo fardo, um ódio e uma tristeza. Tinha medo também, de que talvez fizessem aquilo comigo um dia… e realmente esse dia chegou.

apocalypto2013

Estava com 56 anos, tive que ser sacrificado para servir ao povo e a Deus, fui escolhido por uma votação da tribo, afinal tinha chegado minha hora. Na hora do sacrifício fui posto numa cama de pedra, era noite, o lugar estava iluminado fracamente por tochas, toda a tribo estava lá para assistir o meu sacrifício, gritavam muito, aqueles que celebravam o ato me fizeram beber algo. Senti muito medo, não queria morrer” – A respiração de R. estava acelerada, demostrando toda a tensão e nervosismo que lhe tomavam o ser – “Ficava na dúvida se aquilo era errado, mas ao mesmo tempo pensava que minha alma iria ter descanso se morresse daquele jeito. Comecei a sentir uma formigação por todo o corpo, acho que foi daquela beberagem, me deu muito calor e náuseas, sentia o corpo todo doer, me enfiaram espetos, me esquartejaram e beberam meu sangue. No final ficaram apenas os restos do meu corpo em pedaços, pálido, seco, sem sangue…a cabeça degolada.

Meu espírito vendo tudo aquilo sentiu uma grande revolta, por não poder discordar e ter de aceitar tudo, de ter que ser duro e não poder reivindicar nada, ser só um escravo e trabalhar, fiquei muito frustrado e cheio de ódio” – Disse com a voz raivosa – “O medo e a tristeza continuavam em mim; não gostava daquela vida. Queria um dia pedir perdão a Deus por tudo o que fiz, ajudar as pessoas, procurar ter uma vida saudável, sem rancor, ódio ou mágoa, só queria ser feliz”.

Como sabemos pelos relatos históricos o povo asteca tinha enraizada em sua cultura o sacrifício humano como parte de sua religião e mitologia, sendo o sacrificado a personificação da própria divindade por algum tempo e muito venerado pelo povo, o que constituía na maioria das vezes um verdadeira honra ser escolhido para tal. Mas pelo que podemos ver não isentava as vítimas do horror da tortura e da morte que se aproximava, nem aplacava sua consciência culpada, mesmo naquelas época de atraso e mistificações  bárbaras. Impressiona saber assim, em primeira pessoa, como era esse sentimento e o que na verdade ocorria lá.


 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

VÍDEOS

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CONSULTAS EM MANAUS