segunda-feira, 24 abr 2017
Administração

Ramsés

Ricardo era um jovem de boa família, inteligente, que desde a adolescência começou a apresentar sintomas de esquizofrenia. Foi trazido ao consultório por sua mãe que me contou que ninguém mais suportava te-lo por perto, nem ela, devido aos seus surtos psicóticos e delírios. Se tratava a 12 anos com um psiquiatra com quem fazia um tratamento medicamentoso satisfatório mas, como normalmente ocorre nesses casos, não apresentava melhoras no longo prazo. Sua mãe queria fazer mais uma tentativa de tratamento para ver se ele ainda teria algum tipo de evolução. Concordei em aceita-lo na terapia, apesar das dificuldades que iria representar.

Numa das primeiras vezes em que entrou no meu consultório, olhou a paisagem pela janela, e disse: “Que mundo horrível, as pessoas são péssimas, nada presta, tudo está fadado ao fracasso”. Estava francamente depressivo, cheio de pensamentos e intuições negativas, como suicidar-de, parecia irritado e raivoso. Logo me falou que sua auto-estima estava a zero, se sentindo um inválido, incapaz de enfrentar a vida. Depois de várias regressões e muitas melhoras, até surpreendentes visto a gravidade de seu caso, me defrontei com uma regressão em especial que me chamou à atenção por se tratar de uma personagem muito conhecida da história, o que pode ter sido muito bem imaginado por Ricardo, pois tinha cultura e conhecimento para tal, mas que ainda assim trouxe em seu bojo um grau e uma intensidade de sofrimento tão verdadeiros que tanto fazia se ele foi ou não a personagem, sentiu verdadeiramente a dor daquela existência como se fora a sua. Eis seu relato:

“Estou num palácio antigo, grande , suntuoso, tipo o dos faraós. Tudo transmite uma sensação de majestade e importância. Sou muito majestoso também, tenho uns 34 anos, moreno, de cabelos lisos, nos ombros, tenho olhos castanhos. Uso um adorno na cabeça, sandálias e um saiote. Ao meu lado estão minha mulher e meu filho, são egípcios e se vestem como faraós também. Eu era Ramsés III. Me sentia duro, mau, violento e bruto; além disso era intolerante e cruel, chegando a ser estúpido, e muito vingativo. Tinha medo da minha própria crueldade, pensava que ela poderia me levar ao inferno. Me vi mandando os capatazes chicotearem o povo,eles não trabalhavam bem, eram moles, queriam comer”.

“Mas o tempo fez tudo dar errado pra mim, primeiro foram as pragas…fiquei arrasado de tanto ódio, sofri demais” – Nesse momento sua fisionomia e voz transmitiam um misto do dor e raiva – “Fiquei prostrado na minha liteira com dores pelo corpo de tanta raiva, entregue ao ódio”.

Me impressionava sua expressão corporal e modo de falar, tudo nele era dor, ódio e sofrimento, arfava e se contorcia. Continuou: “Perdi meu filho…é como se tivessem tomado minha alma eAs_Dez_Pragas_do_Egito_001 meu coração; perdi tudo o que tinha…meu exército. Depois disso minha vida ficou como se tivessem arrancado um pedaço de mim; senti um misto de tristeza, pesar e ódio; tudo o que pensava que era , não era. Pensei que não era mais o mesmo, me senti um fracassado; meu Deus tinha me traído! eu tinha que morrer! – Seu relato correspondia ao relato bíblico do Êxodo, quando os judeus fugiram do Egito após o profeta Moisés ter feito cair sobre o país várias pragas; entre as últimas o faraó perdeu seu primogênito e, ao perseguir os fugitivos, perdeu também seu exército. Não se sabe na realidade qual foi o faraó na história a que se refere o relato, mas na regressão Ricardo disse que foi Ramsés III.

Mas não morri… e o tempo foi passando… fui ficando mais conformado e até feliz, superando a perda, mas em meus pensando pairava a ideia de que um dia ia morrer e ia ter de prestar contas. Será que tudo o que fiz valeu a pena? De que valeu tanta crueldade, ódio eRamses matança? Só sentia vontade de me vingar e rancor, durante toda a vida. Com 95 anos estava fraco, débil e indolente, com um vazio muito grande, imenso, parecia que não tinha nada dentro de mim. Continuava com medo do que poderia acontecer comigo depois da morte. Morri com 100 anos ainda me sentindo vazio e com medo. Vou pagar caro pelo que fiz. Fui para um vale muito grande, escuro, cheio de lama; tinham pessoas magras, esquálidas, iguais a mim lá, mas ninguém parecia me entender nem trocava uma palavra; todos nós sofríamos muito, eu só tinha vontade de chorar. Sentia medo e pensava como ia sair daquela situação?

Após alguns anos finalmente consegui sair dali, renasci em outro lugar. Mas no meu íntimo ficaram guardadas lições inesquecíveis; eu nunca mais seria o mesmo e teria que passar por muitas tribulações para pagar o que fiz. Teria que aprender a ser generoso, dócil e humilde e viver para ajudar o próximo, tinha que ser feliz”. 

Depois de algumas regressões a mais, e outras sessões de apoio, Ricardo apresentou melhoras consideráveis. Um dia chegou à mesma janela que me referi no início deste post e olhando para fora disse: “Como o mundo é belo, as pessoas são boas e existe muita coisa de bom que podemos viver aqui”. O oposto completo das impressões que me falou quando chegou para se tratar, estava se libertando.


 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

VÍDEOS

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CONSULTAS EM MANAUS