sábado, 21 out 2017
Administração

O ferreiro

Minha paciente A.F recebeu esta visita do passado em março de 2013, não foi a sua primeira experiência desse tipo, mas de certeza foi a mais impactante. Normalmente estas “visitas” ocorrem durante a regressão, as chamamos de “presenças”, esta, no caso dela, veio ao final, como que para lhe dar sentido à seus problemas de hoje; principalmente sua dificuldade de perdoar; que como sabemos realmente é uma das tarefas mais difíceis para nosso espírito.

Sua regressão a levou de volta ao ano de 1800 no século passado e começou com uma sensação de medo e um aviso que lhe veio intuitivamente de que eu não devia mexer com suas memórias, pois ela não iria suportar; como já conheço um pouco de como as “presenças” agem, e de como elas realmente se incomodam com o fato de eu tentar ajudar o paciente a se livrar de sua influência, não liguei e fui em frente; sabedor de que o objetivo daquela mensagem era me impedir de terminar o auxílio à A.F. Quando lhe perguntei quem era que estava lhe causando aquela sensação de medo ela me descreveu assim: “ Ele tem um coração gelado, é muito alto, não tem pele, parece uma máquina, muito impassível e insensível”; foi fácil perceber que esse tipo de autômato não poderia ser humano, pois se não não estaria ali, querendo algo,principalmente vingança, lhe perguntei de chofre: como ele seria na realidade? Aí foi como se descortinasse aos seus olhos sua verdadeira aparência e ela o descreveu como um ser humano normal  “Branco, alto, forte, cabelos ruivos, olhos azuis, mais ou menos 34 anos”. Ao mesmo tempo que via o personagem com mais clareza também viu onde ele estava: era um lugar cheio de armaduras e moldes, como se fosse uma oficina, ele trabalhava em máquinas de polir cuidando de tudo aquilo, de ferreiroforma muito detalhista; imediatamente me veio na mente uma oficina medieval, onde se forjavam armas e ferraduras, possivelmente em algum lugar da Europa de hoje, por fim veio-lhe o nome do homem: Humberto.

Ao perguntar por ela a descrição que me deu de sua personagem foi a seguinte: “Sou uma moça branca, estou com ele, tinha os cabelos loiros, longos, cacheados, olhos cor de mel, um corpo perfeito, era casada com um homem muito rico e moro num castelo onde tinha tudo o que queria, aquele ferreiro era mais um capricho, apenas mais um  amante,  alguém para me satisfazer, mas era um tolo, achava que eu iria deixar meu marido para ficar com ele…pobre coitado.

Eu não queria abrir mão de ficar com os dois, meu marido me dava status já ele, bem com ele as coisas eram diferentes, eu não conseguia larga-lo; cheguei a engravidar dele, sabia disso pois meu marido não me procurava à muito tempo, fiquei desesperada, sumi um tempo até ter a criança e dei-a, meu amante não me perdoou por isso e começou a me pedir joias e me humilhar, para se vingar de mim; por fim ele começou a cultivar ódio de meu marido e quis mata-lo para ficar comigo” – Enquanto dizia isso seu tom de voz e respiração mudavam, à medida que ia se exasperando –  “Brigávamos muito, até que um dia meu marido viu uma de nossas brigas e descobriu tudo, agrediu o ferreiro, mas não o matou; voltou sua raiva contra mim e me expulsou do castelo me chamando de prostituta, estava com 25 anos nessa época. Sem ter para onde ir fui parar no prostíbulo da cidade e lá fiquei vivendo em meio aquele lugar que mais parecia um chiqueiro. O ferreiro ainda me procurou algumas vezes ainda naquele lugar, mas ele havia destruído minha vida e eu sentia muita raiva dele, eu tinha tudo  e perdi, agora vivia naquele lugar me sujeitando a tudo”.

“Quando contava 35 anos consegui sair dali e montar minha própria casa de prostituição, fiquei independente e com algum respeito na cidade,quando soube que meu marido se casou com uma mulher exemplar e senti mais ódio ainda dele e do ferreiro, de tudo. Na vida que passei a ter tudo era fútil, fazíamos a alegria de uns, mas para nós não havia diversão, os dias eram todos iguais, a única coisa boa era ser independente se, precisar me sujeitar a ninguém. Vivi assim até os 60 anos e morri lá, junto com algumas meninas que pagava para cuidarem de mim, nunca mais tive ninguém e achava que a vida era assim mesmo, com todos se aproximando só por interesse; ainda pensava no ferreiro, mas cheguei à conclusão  de que se tivesse ido com ele seria subjugada como eram todas as mulheres e que isso eu não iria suportar”.

Nesse momento da regressão foi quando as coisas realmente começara a ficar interessantes, ela disse bem alto: “Tem algo apertando minha mão forte, quase machucando… é Humberto, ele está aqui, me acusando!” – A.F começou a chorar – “Diz que nunca vai me perdoar!! Estou com vergonha, quero pedir seu perdão, quero continuar a vida sem sofrer assim!”– Continuou dirigindo-se diretamente em tom de súplica: “A quanto tempo nós estamos presos assim? Você precisa ter coragem de me largar!!” – Continuava a chorar muito, juntou as mãos e reclamou: “Ele está apertando minha mão com força”, nesse momento me surpreendeu com uma declaração feita quase aos gritos: “Eu não tenho vontade de me separar dele também, sinto saudade!!” . A partir dali, com muita dificuldade, conseguimos fazer com que os dois personagens se entendessem e perdoassem mutuamente, foi preciso usar de muito convencimento, pois apesar de todo o sofrimento que passaram houve entre eles uma paixão intensa e real, que perdurava até hoje, no íntimo de sua memória, mesmo com todo o ódio que cultivavam um pelo outro, só que essa paixão foi desvirtuada pelo egoísmo e orgulho de ambos que só viam suas necessidades e desejos naquele momento, deixando de lado a oportunidade de serem felizes se houvessem feito as escolhas certas. A regressão terminou com o afastamento dos dois, pelo menos por um bom tempo.

Na sessão que se seguiu A.F. relatou que ainda sentiu muito fortemente a presença daquela “visita do passado” durante alguns dias e que teve que se trabalhar bastante para conseguir se liberar daquela paixão, afinal conseguiu. Agora está se sentindo mais feminina, com mais motivação e energia para seguir sua vida, achando-se útil e integrada às pessoas e à vida.


 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

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