sábado, 19 ago 2017
Administração

Deixem os mortos …

Neste início de 2014 tive mais uma prova de como Jesus pôde, à sua época e com tão pouca idade, ser terapêutico. Recebi e meu consultório uma nova cliente, encaminhada por uma conhecida que ouviu uma palestra que proferi; essa cliente tinha 68 anos, era professora e me chamou à atenção pelo aspecto cadavérico que apresentava, ao ponto de se tornar indistinguível seu sexo. Com as faces encovadas, cabelos ralos e pele pálida, aparentava ter menos de 40 quilos em aproximadamente 1,60 m. Ao começar a anamnese ela me relatou que perdeu completamente o apetite e pouca água bebe, mas aparentemente não tem problema físico nenhum, sendo sua única queixa uma gastrite crônica, isso me levou a suspeitar apenas de um quadro de depressão profunda e anorexia, mas como ela foi levada lá meio contrariada e não estava muito disposta a se abrir e expor seus problemas não tive condições de chegar à um diagnóstico mais conclusivo, depois de alguma insistência de minha parte cheguei num ponto que mexeu com sua sensibilidade e aí veio o assunto que me levou a publicar esse post.

Esse ponto foi a morte de sua mãe, quando falou disso seus olhos encheram-se  de lágrimas e e ela ficou sem palavras; quis saber à quanto tempo isso tinha acontecido e soube que já havia três anos, desde então ela ficou triste e sem ânimo, achei estanho, ainda mais quando ela me disse a idade que ela tinha quando faleceu, 100 anos, no que seria de certa forma esperado por sua idade avançada, pensei comigo mesmo que era um luto longo demais. Continuei a perguntar-lhe mais algumas coisas sobre sua família e a cada menção da mãe, mais lágrimas e uma confirmação de que cada vez que pensava nela se emocionava muito; tentei identificar o que ela sentia para deixa-la tão emotiva em relação à mãe, se talvez fosse saudade ou melancolia, mas ela me repetiu várias vezes que não sabia porque chorava ou o que sentia; fui mais fundo na exploração de seus sentimentos e notei que ela já estava ficando incomodada com isso, parecendo não querer ou não poder mexer com esses sentimentos, mas mesmo assim me deu algumas respostas interessantes.

Disse que a mãe não era “uma pessoa tão boa assim” e que  “não gostava muito dela”,  nem sentia tanta saudade. Deixou transparecer que não sentia muita coisa por ela por ter sido muito dura e rígida com a família e me relatou algumas situações do cotidiano onde a mãe interferiu duramente nos acontecimentos, inclusive uma pessoal com um namorado que teve ( talvez por isso nunca tenha casado ou tido filhos..). Mesmo assim parecia falar de como nutria aquele sofrimento de perda da mãe com um orgulho  mórbido, e não era só ela na família, um irmão, segundo suas palavras: “Ia toda semana levar flores e acender velas no túmulo da mãe”.

Ouvindo sua história, e pensando em seu luto mal resolvido, não tive como não relembrar das palavras de Jesus em uma de suas muitas peregrinações, quando encontrou pelo caminho um moço, que era já seu discípulo e pediu-lhe que o seguisse, o moço respondeu que iria, mas que primeiro precisava sepultar seu pai, que havia morrido ( Mateus 8:21, Lucas 9:59) Jesus retruca ao moço: “Segue- me e deixe que os mortos sepultem seus próprios mortos”, e recomendou-lhe que ao invés disso fosse anunciar o Reino de Deus. Ao entrevistar minha paciente lembrei da sabedoria dessa pequena frase e do tempo que levei para entender o seu significado; percebi então que a origem de seus problemas não estava apenas no luto prolongado, mas também nela não se desapegar da imagem daquela mãe, por quem nem tinha tanto afeto, mas que lhe completava poderosamente e na qual havia depositado seu bem-estar e sua felicidade de forma doentiadeixem os mortos. Ela travou e se perdeu no que chamamos de luto patológico, não deixou que sua mãe metaforicamente fosse enterrada, e se tornou ela mesmo uma “morta”, deixando de viver sua vida.

Creio fortemente que ela não se desligou até hoje daquela imagem, e que no seu coração é como se recusasse ainda a fazer o enterro dela, e aceitasse a separação que isso ensejaria. Em vez de deixar para trás as lembranças da mãe e do que ela representava, cultua até hoje sua morte e sofre por isso, sofre sem necessidade para sofrer e por tempo demasiado, visto que o afeto que as unia parecia ser por demais fraco, pelo que pude perceber. É uma morta que se recusa a enterrar a outra. Não a vi tecer nenhum elogio à finada, nem nenhuma palavra de carinho, não pareceu ter saudade nenhuma dela, tinha apenas lágrimas carentes de sentido e significação, que pareciam ser apenas para que os outros a vissem chorar dores que não sentia de verdade, pois as escondeu no fundo da alma, sem desejar elabora-las.

Por fim podemos aprender muito com a sabedoria de Jesus: ele nos ensinou que temos que viver o hoje, sem nos apegarmos à ele, posto que tudo é transitório, e que se vivermos apenas para o que passou e para o que temos no mundo estaremos mortos para o espírito e sem perspectivas para viver o futuro com todas as suas possibilidades. E estaremos “mortos” internamente, vivendo mecanicamente, sem nutrir bons sentimentos ou afetos, vivendo vidas incompletas e infelizes, daí   só poderemos enterrar uns aos outros, pois os vivos seguirão seus caminhos em direção à verdadeira felicidade.


1 Comentário

  1. Achei muito interessante o seu relato, como essa há tantas outras histórias. Creio que o problema dessa paciente é carência emocional, como foi citado que não casou-se nem teve filhos deve ser uma pessoa bastante solitária e encontrava na mãe um depósito de sua afetividade, mesmo não nutrindo boas recordações, talvez se sentisse amparada emocional e psicologicamente na figura materna. Segundo a sabedoria popular nordestina, permita-me citar, esse é o ” mal da solteirona”. Deus seja Louvado. Felicidades!

 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

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