sábado, 19 ago 2017
Administração

Christian

Essa é a estória de Christian, um jovem europeu que viveu no que parece ser o século 18 ou 19; ingênuo, imaturo e de classe alta, era um burguês, que estava de casamento marcado com uma jovem de  sua classe social, mas que teve uma decepção tão grande que repercute até hoje dois ou três séculos depois do ocorrido. Vou lhes contar como soube de sua existência desde o início de sua saga.

Chegou ao meu consultório a alguns anos uma paciente que tinha uma queixa recorrente de solidão, não que se fosse realmente solitária, mas que se sentia assim, irremediavelmente, de nada adiantavam a companhia de amigos e o carinho dos familiares, sua sensação de solidão era permanente e completa; para piorar seus relacionamentos foram sempre frutos de fantasia, platônicos e na realidade nunca se concretizaram. Inteligente e bem formada, conseguia entender bem seu sofrimento, mas não conseguia resolve-lo sozinha, por isso me procurou. Após dois anos de tratamento logrou algumas melhoras significativas, como por exemplo de sua fibromialgia, mas continuava a se queixar da solidão inexplicável que sentia; já parecia estar conformada à isso e chegava a dizer que tinha consciência de que não conseguiria resolver essa solidão nesta vida. Esta atitude não me convencia, se ela estava conformada, eu não, propus-lhe investigar a fundo seu inconsciente até descobrirmos a origem dessa solidão tão renitente como inexplicável, que parecia não ter saída, até conhecermos Christian.

No começo de sua décima regressão ela viu seu personagem, como se fosse pela lente amarelada de um filme de época, era um rapaz passeando num parque ao final da tarde, com uma jovem. Percebeu que se sentia muito satisfeito e orgulhoso. Suas roupas e das outras pessoas naquela cena bucólica se assemelhavam às roupas ocidentais dos séculos que sucederam o renascimento europeu, ternos, cartolas e vestidos longos; a partir dali começamos a saber de sua história,  que me impressionou pelas impressões e traumas que deixou atrás de si.foto antiga

Pedi-lhe para voltar no tempo, no que fui prontamente atendido, e lá estava nossa personagem, aos 18 anos, conhecendo aquela que viria a ser sua noiva depois, o encontro se deu em meio à confraternizações familiares e ele logo se apaixonou, ela lhe parecia como uma musa ou um sonho materializado na forma graciosa daquela jovem de 16 anos. Recatada e pudica como mandava a etiqueta da época ainda assim lhe dedicava uma atenção especial e que viria a ser uma proposta dele corteja-la assumindo um namoro dali para a frente. Namorado dedicado sempre lhe levava mimos e presentes, procurando deixa-la o mais feliz possível. Quando ele completou 22 anos noivaram estava tudo perfeito em sua opinião, até que surgiu na sua comunidade um outro jovem, chamado Sebastian, homem de negócios que passava por ali eventualmente e conhecia a todos.

Christian necessitou fazer uma viagem e quando retornou foi em busca da noiva num lugar reservado e discreto onde sempre se encontravam, como havia chegado antes do previsto planejava-lhe fazer uma surpresa, mas quem se surpreendeu foi ele. Lá estavam sua noiva e Sebastian, beijando-se e trocando carinhos, que deveriam ser só seus, a decepção foi enorme, assim como o ódio e raiva que sentiu daquele homem, confuso, não entendia por que a noiva havia feito aquilo com ele, mas não conseguiu ter nenhuma reação na hora, simplesmente fugiu. Ao chegar em casa contou o ocorrido ao seu pai que foi, indignado, com ele até a família da noiva para desfazer o noivado, fez isso friamente, sem maiores explicações, talvez esperando que as pedissem, mas nada disso aconteceu; a família dela simplesmente parecia já saber de algo, ou simplesmente não quiseram sair de cima do seu orgulho, deixando Christian ainda mais humilhado.

Após a volta para o lar o jovem rapaz passou alguns dias entre a lembrança da noiva a perseguir-lhe a atormentar-lhe, desejava reve-la, mas seu orgulho o impedia. Lembrou que seu pai tinha no porão de sua casa um laboratório que usava em seu trabalho, cheio de substâncias químicas estranhas e perigosas, as quais conhecia algumas e, desesperado,  decidiu dar cabo da própria vida usando-as. Fez a escolha pela que julgava mais eficaz e ao ingerir-la  sentiu o coração parar e congelar, caiu ali mesmo e por sorte seu pai logo o encontrou e socorreu.

Os efeitos daquela droga foram terríveis: ficou inválido, em estado vegetativo, não conseguia falar, nem se mexer, uma morte em vida, sentia-se limitado e preso em seu próprio corpo, parecia estar dentro de um pesadelo-lo terrível, uma alucinação, tudo era muito confuso e a cabeça fervilhava, sem lhe ser possível expressar-se. A noiva ainda tentou visita-lo, mas o pai não o permitiu e Christian, apesar de desejar muito ve-la não sabia se iria suportar a emoção desse encontro. Após quase um ano morreu, sem melhoras, em meio a um sofrimento que teve que suportar calado; demorou um tempo para se a perceber isso, devido à confusão que reinava em sua mente. Quando recobrou a lucidez no plano espiritual, compreendeu várias coisas que vou transcrever a seguir: “Abreviei minha vida muito cedo, não tive tempo de construir minha história. Obcecado por aquela moça não fiz nada de útil; senti um vazio muito grande, sei que um dia vou precisar aprender a valorizar  a vida, a respeitar o corpo, a ser independente e não condicionar minha existência a uma pessoa. Preciso viver sozinho para não cometer os mesmos erros, e de um corpo doente para valorizar a vida que desperdicei, NÃO QUERO CONFIAR MINHA VIDA A NINGUÉM. Tenho que sofrer as consequências do que fiz por muito tempo.”

Após ouvir tudo isso esperei alguns momentos para que minha paciente se recobrasse de todas aquelas emoções e fomos conversar sobre  tudo o que descobrimos ali. Ambos ficamos impressionados pelas  coincidências entre sua vida hoje e os traumas que havia tido naquela encarnação, a começar pelo seu problema de solidão que desde a primeira sessão havia sido o que mais lhe incomodava hoje. Minha paciente percebia que suas dificuldades, hoje, em se relacionar com os homens vinha de se sentir receosa e insegura em relação a isto, suas crises de fibromialgia também se relacionavam às decepções que sentia quando os eventuais amores platônicos a decepcionavam, somava-se a isso uma dor no peito muito forte e uma sensação de sufocamento; na hora relacionei às suas decisões espirituais: de ter um corpo doente para valorizar a vida, da sensação de que seu coração parava quando tomou o veneno. Outra sensação muito frequente que essa paciente tinha me era muito estranha quando a ouvia, mas que ganhou todo um grande sentido quando conheci sua história: a impressão de que se arrastava dentro do próprio corpo, como se fosse dentro de uma prisão. Quer dizer, ele realmente ficou com a consciência, ou seu espírito como queiram, presa num corpo físico que estava completamente impossibilitado de se expressar; vendo por esse ângulo fica bem claro a relação entre os sintomas de minha paciente e seus traumas e dores ancestrais.

O que mais me impressionou foi que na sessão seguinte vários insights lhe ocorreram, principalmente em relação às suas dificuldades sexuais; chegou mostrando um alívio que saltava aos olhos e disse que entendeu que precisava deixar de ter pena de si mesmo e agir. Como está se sentindo disposta e energizada, depois de ter destravado vários bloqueios e padrões que limitavam sua vida e felicidade, tem a certeza de que vai conseguir recolocar sua vida em uma direção melhor e mais saudável; eu também.

 


 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

VÍDEOS

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