domingo, 23 abr 2017
Administração

Loucura e dor na Idade Média

Ontem experimentou a primeira regressão um paciente que me chegou a pouco, L.F, 23 anos, inteligente e articulado, mas com muitos problemas de relacionamento, principalmente por não confiar nas pessoas, seu lema é: “Todas as pessoas não prestam”. Essa ideia fixa, associada à uma desconfiança quase patológica em todos, lhe impede de ter amizades, ter romances e cultivar relacionamentos familiares de bom nível, o que tem lhe deixado muito insatisfeito.

Inicialmente ele conseguia lidar com isso se isolando quase que totalmente das pessoas e procurando não aprofundar nenhum relacionamento, mas com o tempo esse medida passou a se tornar ineficaz, foi aí que ele me procurou, localizando-me pelo meu blog.

O interessante nessa história é que além dele ter se lembrado a época em que viveu com clareza, localizando-se por volta da primeira metade do século 13, lembrou também que a vida se passou num país europeu, que não soube precisar qual. Além disso tive uma aula de história dos tratamentos mentais daquela época e de como era a vida dos chamados “loucos” em internação.

Para esclarecimentos, lá pelos anos 1000 os mosteiros e conventos se disseminaram pela Europa, oferecendo abrigo aos viajantes, alimentação aos pobres e eventualmente, como vimos, servindo como os primeiros manicômios numa época onde os alienados não tinham para onde ir, nessa época os loucos não eram sistematicamente internados, podia-se viver no meio deles, eles só eram separados se seu caso tomasse formas extremas ou perigosas. As prescrições dadas pelos médicos eram de preferência a viagem, o repouso, o passeio, o retiro, o afastamento do mundo vão e artificial da cidade.

Bem, vamos à história. L.F  começou a regressão dizendo: “Ouço vozes…parece alguém empurrando um carrinho num corredor de pedras… ouço o barulho de correntes também”. Ao pedir para que ele me descrevesse o local de onde provinham loucura na idade mediaesses sons ele contou: “Tem um religiosa, uma mulher velha, que empurra um carrinho num corredor de pedra cheio de portas, são portas pesadas com uma pequena abertura para ver quem está lá dentro”, ao perguntar que local era este ele respondeu: “é um manicômio, e os “loucos” internados no local eram mantidos acorrentados nessas celas”.

Continuei curioso e quis saber com ele foi parar lá, aí veio o resto da história:

“O ano era por volta de 1200 e pouco, na época eu era um jovem filho de família nobre, não de reis ou príncipes, mas tinham títulos de nobreza”. Nessa época, me esclareceu, eventualmente, sua família fazia excursões para caçar animais silvestres e numa dessas caçadas acidentalmente matou seu pai, com uma arma de fogo.

Interessei-me em saber como era a tal arma, até para verificar a veracidade da história, procurando detalhes ao que ele me respondeu: “Era uma arma comprida, mas não era uma espingarda, com um mecanismo de disparo por gatilho que quando era acionado fazia muita fumaça… mosquete, era um mosquete”.

Após a morte do pai o que a família fez então foi de uma grande covardia e extremo egoísmo. O taxaram como louco “eles queriam se livrar de mim, me afastar” e o enviaram para um manicômio da época, que nada mais era do que um grande convento de pedra no campo onde os “loucos” eram cuidados por religiosas da igreja católica e homens do povo. Aí entendi o que aconteceu, como ele era o primogênito da família tinha mais direitos que seus irmãos, e era, por direito herdeiro direto do título do pai, aqueles viram nesse acidente fatídico a oportunidade de tira-lo daquele posto, e o conseguiram.

Ao lembrar dali seu relato ficou carregado com a grande revolta e sentimento de injustiça que sentiu na época, pois não era louco, e desejava muito se vingar, mas sair dali era impossível, pois passavam o dia acorrentados, saindo apenas para fazer um tipo de tratamento com água fria; ele me deu mais detalhes de como era sua vida :

“Éramos imersos numa tina de água bem fria e ficávamos muito tempo ali, sofrendo, isso era muito frequente”. Fiquei lá até morrer, por volta dos sessenta anos, sozinho, abandonado, nunca recebi nenhuma visita, sentia muita raiva e vontade de me vingar, depois da morte fiquei jogado na cela, muito envelhecido, coberto apenas com trapos e muito magro”.

Assim terminou aquela vida, trágica e cruelmente, por conta do egoísmo e ambição de uma família, que deu cabo de um filho e um irmão inutilmente, apenas para auferir benefícios. Sua vingança não se concretizou e agora ele pôde renascer novamente, só que ficaram gravadas lições no seu espírito que lhe fazem mal até hoje, que é não confiar em ninguém, principalmente sua família, e uma grande aversão à igreja.


 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

VÍDEOS

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CONSULTAS EM MANAUS