sábado, 21 set 2019
Administração

Quando a amor envelhece

amor 3a idadeEsta semana tive dois bons exemplos de relacionamentos longos que depois de mais de 30 anos de união estão em diferentes estados de vivência; com ambos temos muito a aprender, sobre união, companheirismo e felicidade.

O primeiro caso é de uma paciente, I. , 65 anos, assistente social, casada a 34 anos, com muitas queixas do parceiro que tem 70 anos e é professor universitário. Dentre suas queixas a mais frequente é a de que ele “viaja” muito em seus sonhos, chegando a agir de maneira irresponsável, comprometendo os recursos financeiros de que dispõe em projetos mirabolantes que nunca dão certo. Além disso só faz as coisas da sua maneira sem ouvir ninguém, sendo muito teimoso e, quando é confrontado, pela esposa ou filha que lhe barram os projetos fantasiosos ele faz “chantagem emocional” ficando com aparência abatida, depressivo, reclamando de doenças e insinuando problemas cardíacos, pois já teve que implantar um marca-passo anos atrás.

Essa situação já perdura à muitos anos com a paciente por muitas vezes tendo expressado a vontade de se divorciar, mas sempre desistindo na última hora por remorso, pois afinal sua união já tem muito tempo. Isso tem custado o preço de muita angústia e sofrimento a I., ela sente-se fracassada perante a vida pois não conseguiu realizar seus sonhos e culpa o marido por isto, acha que se ele fosse outro tipo de companheiro já teria outro tipo de vida, indo para uma aposentadoria em paz, com recursos suficientes para desfrutar o tempo que lhe resta. Investigando as causas de seu problema, no início de sua história identifiquei no discurso de I., coisas que podem ter influenciado de forma marcante sua vida e seus problemas, a principal é quando ela diz que escolheu muito com quem ia se casar e as amigas diziam que ela estava procurando alguém igual ela própria para isso, outra menção é a de que fantasiou muito um parceiro, sonhava com alguém que fosse faze-la feliz e descobriu depois que isso não aconteceu. Reclama que sempre foi muito batalhadora na vida, mas na área afetiva se frustrou muito.

O outro caso que quero citar é de um casal amigo, que mora fora, e esteve a pouco tempo em visita em minha cidade. Também tem mais de 30 anos de casamento, já com filhos e netos, mas ainda com muita saúde e vontade de viver. Como já os conheço a mais de 10 anos posso testemunhar como é apaixonada  e harmoniosa sua união, sem cobranças desmedidas, com compreensão e apoio mútuo. Ambos, principalmente o marido, fazem questão de frisar como prezam o amor que sentem e como se querem bem.Em todo o período que os conheço nunca soube de nenhum episódio que ameaçasse sua união, mesmo frente a problemas financeiros e familiares. Parece que frente às dificuldade eles sempre conseguiram encontrar apoio um no outro para superar as dificuldades da hora.

Mas o que diferenciou os dois casos, porque num as coisas funcionaram tão bem e no outro só aconteceram frustrações e desencantos? A resposta pode estar na forma como cada um procurou a felicidade em sua vida, em como escolheu seu parceiro e no próprio temperamento das pessoas envolvidas.

É um grande erro procurarmos a felicidade noutra pessoa, infelizmente é um erro recorrente. Normalmente as pessoas tem enormes dificuldades em encontrar sua própria felicidade quanto mais serem responsáveis pela felicidade de alguém, e é isso a que muitas pessoas se apegam, entregam a responsabilidade de seu sucesso na vida a alguém que deveria lhe fornecer todas as condições emocionais para isso, esquecendo-se elas mesmas de sua parte no processo; por um equívoco acham que entregar-se emocionalmente ao outro basta para que este assuma a função de encarregado de sua felicidade.

Outro entrave é nossa forma de ser, nosso caráter e temperamento. Quanto mais difícil de lidarmos nós formos, logicamente mais difícil vai ser alguém conviver conosco, e se achamos que o outro tem que nos suportar de qualquer jeito, porque afinal nós vamos lhe dar nosso amor, estaremos no caminho mais curto para destruir esse mesmo amor. A maturidade dos relacionamentos amorosos funciona de forma semelhante à de nossa própria maturidade; nascem, crescem, se desenvolvem frente às forças  e obstáculos da vida, e ao final envelhecem com mais ou menos saúde, dependendo de como cuidamos deles. Uma ex-paciente minha, Z., era muito descrente na continuidade de relacionamentos longos e me dizia que todos os relacionamentos estavam fadados ao fracasso e à monotonia após uns 10 anos de união, argumentava-lhe o contrário, mas acho que não consegui convence-la, até porque sua própria experiência pessoal era muito negativa o que a fazia ter uma visão muito pessimista da coisa.

Mas ao contrário do que ela pensava existem casos que desmentem suas crenças, o casal a que me referi, de minhas relações de amizade estava aí para provar justamente o contrário, afora outros exemplos que conheço, Quando o amor e o afeto são cuidados com atenção não definham nem desanimam. As escolhas que fazemos lá no início dos nosso relacionamentos românticos também vão definir o sucesso de nossas uniões. Se, como nos casos acima, forem feitas com base em sonhos e fantasias, desmoronarão frente à realidade da vida, ficando somente a sensação, errônea,  de que fomos injustiçados pelo parceiro ingrato, ou pela própria vida. Já se essas escolhas forem feitas com base na afinidade e calcadas na realidade e desejos de se encontrar alguém para dividir uma existência feliz, sem delegar a essa pessoa a responsabilidade absoluta pela nossa felicidade, as chances de sucesso desse relacionamento aumentarão muito.

Depois de tantos anos de união não é possível voltar no tempo e refazer as escolhas erradas que fizemos, mas no momento atual podemos mudar muitas das coisas que nos frustram e nos fazem infelizes. No caso de I., minha paciente infeliz, após algumas sessões ela chegou à última dizendo se sentir mais resignada com a vida e menos preocupada com os outros ou o que vão pensar dela, está nesse momento menos focada na sensação de frustração que sentia e em culpar o parceiro pela sua infelicidade e mais preocupada em achar o caminho para ser feliz com o que lhe resta de vida. Notei que isto está elevando seu humor, e como ela mesmo disse: estar se sentindo mais resignada está lhe fazendo muito bem. Tomemos cuidado com nossas escolhas e cuidemos de nossos amores, nunca é tarde para ser feliz.

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS