sexta-feira, 23 ago 2019
Administração

“Vim só para lhe dizer que vou parar”

Essa foi a primeira frase e assim começou a sessão de L.C, paciente de meia idade a quase 05 meses em tratamento. Não tive como deixar de sentir uma certa frustração, afinal é a segunda desistência que tenho em duas semanas e, apesar de saber que essa é uma escolha do paciente e tem a ver com seu posicionamento perante a vida, o fato é que isso sempre é algo que me desanima, afinal minha função é ajudar a aliviar o sofrimento alheio e possibilitar novas escolhas na vida das pessoas, quando o paciente decide parar vejo todos os meus esforços serem tolhidos.desistir

Quando fizemos sua primeira e única regressão ele apresentou uma resistência enorme e não conseguiu terminar, isso foi o prenúncio de que ele talvez não quisesse mudar seus valores e reprogramar-se adequadamente, mas seguimos em frente e, aproveitando o fato, fiz uma sessão de apoio para reavaliarmos juntos suas crenças e valores.

Sua personalidade, segundo ele mesmo, é caracterizada pela rigidez, inflexibilidade e intolerância, além disso detectei ao longo do tratamento que ele é muito controlador. Todas essas coisas juntas vão ser sempre fatores a dificultar a evolução de qualquer tratamento psicoterápico, o que findei comprovando novamente.

Logo que ele me disse que iria parar a terapia explicou-se dizendo que talvez não estivesse preparado para fazer, na vida, o que precisa, de forma diferente. Perguntei-lhe se isso não seria uma forma diferente de dizer que, na realidade, não quer mudar o que é preciso, ele findou concordando. A partir daí relembrei-lhe algumas lições que vieram na sua regressão e lhe estimulei a continuar as mudanças que já percebeu serem necessárias, encerrei a sessão após isso e nos despedimos fraternalmente, mas fiquei com uma sensação de pesar, pensando que ele ainda poderia ter conseguido tanto…

Mas o tratamento não foi em vão, e nunca o é, por mais que haja desistências, mesmo que o tempo de terapia seja rápido ou não haja a alta, o paciente sempre é beneficiado, quando o tratamento é sério, e o terapeuta bem preparado, ele vai saber mexer naquelas coisas que farão o paciente a partir dali reavaliar sua vida e para isso às vezes não é necessário nem que a terapia continue. Inclusive falei isso para L.C., em sua última sessão, as lições de sua regressão iriam continuar, se ele quisesse, pela vida afora, independente dele estar frequentando uma terapia ou não, bastava que ele se esforçasse para se melhorar naquelas coisas que sabe ser falho ou deficiente.

Expliquei-lhe também que nem todo momento de vida é momento para se terapeutizar, é necessário que o paciente sinta-se preparado para enfrentar seus fantasmas e mudar o que é preciso, só espero que no caso de L.C isso não aconteça tarde demais.

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS