quinta-feira, 18 jul 2019
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O amor, a paixão, a carne e o espírito

Vou continuar aqui um assunto que iniciei alguns meses atrás no post Pulsões e paixões. O que me animou a continuar o assunto é a nova paixão de uma amiga, que já na maturidade dos anos parece ter encontrado a alegria da adolescência num novo relacionamento. Isso me fez pensar o quanto estamos abertos, em qualquer momento da vida, a nos entregarmos a esse tipo de sentimento que, por mais que já nos tenha trazido algum265 tipo de sofrimento, ainda é o máximo que podemos sentir de êxtase e felicidade, ainda que por vezes fugaz.

É muito difícil separarmos que é o amor e a paixão, o assunto normalmente causa muita confusão e leva as pessoas a pensar que um é consequência do outro. Em relação à nossa espiritualidade as coisas ficam mais confusas ainda, quando se fala no amor por Deus, “desposei Jesus”, “amar incondicionalmente”, “almas gêmeas”, fica muito difícil entender que tipo de amor é esse, se podem ser vividos ao mesmo tempo, ou qual é o tipo que pode nos satisfazer realmente.

Como já mencionei no post anterior as paixões são a mola propulsora de uma grande parte das conquistas humanas e quem já esteve apaixonado sabe o quanto esse emoção mexe conosco, já o amor, esse sentimento sublime, pode nos fazer transcender nossa condição humana e nos conectar com toda  humanidade e com Deus. O problema está em quando não sabemos lidar com esses sentimentos e transformamos amor em apego e paixão em obsessão; quando deixamos nosso coração de carne nos fazer esquecer que temos um “coração de espírito”, com necessidades mais nobres,  sem o qual não podemos nos tornar felizes por completo. Outra complicação é quando não aprendemos a amadurecer nosso amor, fazendo com que ele se torne um amor adulto e pleno, ficando numa fantasia irrealista e fantasiosa que pode desabar a qualquer momento como um castelo de cartas, e isto acontece muitas vezes, quando achamos que basta estarmos amando ou apaixonados para nos considerarmos felizes e nos vem uma desilusão acompanhada de muito sofrimento que nos surpreende e faz cair na real.

O amor e a paixão são frutos de relacionamentos de almas afins, mais ou menos idealizados, mas apesar das fantasias eles sempre serão apenas isso: a união de dois seres que por mútua atração resolveram dividir a vida juntos. Só que no seu romantismo ou projeções as pessoas acham que esses amores ou paixões serão passagens para o paraíso, com o poder de lhes deixar eufóricos por um período sem fim, ou lhes dar a felicidade definitiva. Só que como todos temos mil e uma diferenças  com o tempo estas se impõe como preço da realidade ao casal que se uniu e as ilusões se desvanecem.

Às  vezes as pessoas na ilusão de manter-se naquele estado de êxtase proporcionado pela paixão  pulam de relacionamento em relacionamento, esgotando o sentimento que nutre naquele momento pelo parceiro e indo imediatamente atrás de outro, coisa que no final se mostra sempre insatisfatória, pois a paixão não se complementou com os componentes da realidade que acontecem no convívio de qualquer casal, quando a paixão chega ao final os parceiros se descobrem dois estranhos que na verdade se projetaram em expectativas irrealistas que desmoronaram frente aos desafios do cotidiano, que ao se impor faz com que o enlevo e o êxtase desapareçam.

Nos escritos de Lou Andreas-Salomé, grande escritora do início do século XX, podemos perceber como ela captou bem o espírito do que seriam as paixões, são delas essas palavras  : “Pois, nos seio mesmo da paixão, nunca se deve tratar de “conhecer perfeitamente o outro”. Por mais que progridam neste conhecimento, a paixão restabelece constantemente entre os dois este contato fecundo que não pode se comparar a nenhuma relação de simpatia e os coloca de novo em sua relação original: a violência do espanto que cada um deles produz sobre o outro e que põe limites a toda tentativa de apreender objetivamente este parceiro. É terrível de dizer, mas , no fundo, o amante não está querendo saber “quem é” em realidade seu parceiro. Estouvado em seu egoísmo, ele se contenta de saber que o outro lhe faz um bem incompreensível, e os amantes permanecem um para o outro, em última análise, um mistério.”

Com isso podemos perceber que quando na realidade estamos apaixonados o foco de nossa satisfação somos nós mesmos, sendo o ser amado o objeto que viabiliza a nossa demanda interna por amor, afeto e atenção, não sendo necessariamente uma troca justa. Talvez por isso a paixão finde sucumbindo a si mesma, pois o amor exige cuidado e atenção ao outro e o apaixonado só quer satisfazer a si mesmo. Uma citação do poeta alemão Rainer Reike, amigo e contemporâneo de Lou-Andreas Salomé, pode nos ajudar a compreender o amor quando acontece e nos envolve: “ (…) O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo por si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser: é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe”. Podemos perceber aí as diferenças entre amor e paixão; enquanto a paixão é um sentimento mais egoísta o amor permite um crescimento pessoal e espiritual bem mais avançado. Em nossa longa existência espiritual percebemos o quanto o amor transforma e constrói enquanto a paixão ao mesmo tempo que impele, nos isola num pequeno mundo a dois.

Tive uma paciente, C.S., que em uma regressão à alguns anos passou por uma experiência que demonstra a força que pode ter o amor ou a paixão. Aconteceu o seguinte, durante uma de suas regressões ela percebeu ao seu lado um homem, ele estava ali, no consultório, em uma forma que podemos chamar de energética ou espiritual, a isso chamamos de “presença” no contexto terapêutico ( está esclarecido no menu “dúvidas”), esse homem que se fez presente ali e era percebido e visto por ela claramente, apesar de seus olhos estarem vendados, queria algum tipo de reparação ou vingança por um sofrimento muito grande que ela lhe havia causado no passado quando ele foi apaixonado por ela e após um rápido romance findou sendo rejeitado. Essa história havia se passado a mais ou menos 400 anos e ele estava ali, com todas as suas dores, ainda sentindo a mesma paixão por ela e sem ter podido esquece-la durante todos esses anos. Após ela admitir seus erros e inconsequências naquela vida, pedindo-lhe perdão, ele aceitou desligar-se dela, desistindo daquela ideia de vingança, e continuar sua caminhada rumo a evolução espiritual, mas antes de ir fez uma despedida tocante, segundo ela descrevia no momento: ele se aproximou e a abraçou, ela, colocando  braços em volta de seu próprio, corpo disse-me: “Sinto o calor do corpo dele me abraçando, ele me diz: “ Vou embora, mas nunca vou lhe esquecer…”

Esse é o poder da paixão, do amor, do apego ou como se quiser chama-lo, o importante é que pode tanto nos impulsionar à frente como nos atrapalhar em nossas existências, chegando ao ponto de ultrapassar a morte. O outro lado da moeda também existe, aqueles que descreem nos relacionamentos baseados no amor verdadeiro, que acreditam que, com o tempo, todos os relacionamentos estão fadados ao fracasso, bem como aqueles com dificuldades afetivas que não chegaram nunca a se apaixonar. Esses casos acho que são mais tristes, pois essas pessoas não aprenderam a amar verdadeiramente, tiveram no máximo lampejos de paixão ou apegos momentâneos, despropositados de qualquer intenção mais interessante do que apenas a satisfação de um desejo imediato.

Talvez para esse tipo de pessoa a experiência dolorosa de um amor não correspondido seja a lição necessária para que elas tenham um contato inicial com o verdadeiro amor, aquele que deveria ser incondicional, verdadeiro e sem nenhuma dose de egoísmo. A partir daí, sabendo que o amor existe pode ser que elas se decidam a aprimora-lo, aperfeiçoando-o no convívio humano.

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4 Comentários

  1. Tenho aquela sensação da guerra,dos amores perdidos,dos sonhos desperdiçados,do sofrimento alheio. Claro que naquela vida passada e a pessoa que eu fui não seria poupada dessa realidade,perde o meu amado soldado,vê nos olhos dele uma promessa que talvez nunca se tornasse verdadeira.
    Quase 6 anos atras tive um sonho,uma pessoa veio até mim e sentou-se na minha frente,me contou que era tempo de guerra fria e eu sofria mto,nesse momento me via com um vestido branco sujo, cabelos pretos e longos,andando pela rua também suja,estava triste. Ela continuava narrando,e dizia que eu tinha amado mto uma pessoa,via imagens de um soldado caído pelos efeitos da guerra.Nunca vou esquecer este sonho,e nunca vou esquecer meu soldado,tenha ele reencarnado ou não.Meu coração sera para sempre teu.

    1. Sensações e sentimentos de origem indefinida, sem causa aparente, podem ter a ver com com vidas que se passaram e deixaram marcas profundas. Mas cada vida é um novo recomeço e uma nova oportunidade de aprender coisas novas. Deixe o passado a quem a ele pertence, seu soldado e outros amores que você de certeza viveu vão se reencontrar consigo nesta e em outras vidas no futuro, não se apegue a nenhum e viva todos, pois o amor não pode, nem deve ser exclusivo. Como dizia o ditado romano: “Carpe Diem”, aproveite o dia.

  2. Preciso de uma reposta para esse sentimento que sinto.
    Namorei há 4 anos um rapaz, mas não deu certo ele bebia muito e se drogava, acabei terminando.
    Logo depois, fui seguir minha vida e conheci um rapaz, que no inicio não me interessava e ficamos amigos e conversando todos os dias pelo msn, nos viamos sempre, mas nunca tinhamos ficado. Porém, um dia chegamos a ficar e assim que nos beijamos senti uma coisa difernte e disse esse é o homem que quero para minha vida. Depois, ele conversou comigo e disse que gostava de outra pessoa, fiquei arrasada, comecei a ir para as festas direto, conheci vários rapazes, paqueras, e nada desse sentimento acabar.
    Mesmo com isso, continuamos conversando pelo msn como amigos, mas chegou um dia que ele me disse que gostaria de me ver, ficamos, e assim foi…
    Brigas de ciumes, eu saindo tbm, mas sempre voltamos a ficar e nos ver.
    Eu sinto quando estou com ele uma coisa fora do normal como conehcesse ele há anos, e ele corresponde isso, nos olhos, eu nunca senti isso por homem algum.
    Hoje, estamos nos falando, mas não namoramos e ttudo que queria na minha vida era namorar sério e me casar com ele, pq não há homem que faça substituir esse amor.
    Será que eu fiz mal a ele na vida passada?
    Sinto que existe uma coisa forte que nos impede de sermos felizes, ele demosntra que quer, mas não decide.
    Me ajude !!

    1. Olá Juliane. O amor e a paixão às vezes nos pegam de forma que é difícil escapar ou compreender, mas além do coração lembre que você também tem sua razão e pode escolher as pessoas que vão partilhar sua vida no futuro, assim como as outras pessoas também podem e isso nem sempre é coincidente. Pode ser que você não seja a escolha dele e isso apesar de doloroso é um direito que todos nós temos, já imaginou se não fosse assim?
      Muitas vezes reencontramos amores de outras vidas nesta, e o sentimento parece renascer, mas nem sempre isso é aquilo que nos propusemos para esta vida, por mais que não lembremos. Não pense que nunca mais vai encontrar alguém que você ame com tal intensidade, todos nós quando estamos muito apaixonados achamos o mesmo, mas graças a Deus o amor sempre pode aparecer e tomar conta de nosso coração novamente, é apenas uma questão de tempo. Agora um conselho que lhe dou é que, se esse rapaz demonstra que realmente não quer nada mais sério com você que você, então se afaste definitivamente dele pois essa relação só está lhe trazendo dor e tristeza, coisas que um amor saudável não deveria trazer. É como diz o velho ditado “antes só que mal acompanhado”. Abraços, Ney.

 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS