quinta-feira, 19 out 2017
Administração

Medo

Em sessão ontem me deparei com uma situação nova que quero contar a vocês. Estou com uma paciente que chegou a mais ou menos dois meses muito deprimida. Obesa e infeliz, estava numa situação de depressão realmente profunda que lhe tirou a graça e o sentido da vida. L. apesar dos trinta e poucos anos não vê expectativas para sua vida e os pensamentos suicidas e negativos são frequentes. Para além dessas coisas notei que ela tinha, e ainda tem, uma resistência extrema à mudança e é extremamente pessimista, me fazendo prever um tratamento difícil.

Em sua primeira regressão relembrou uma história incompleta que basicamente se situou num suicídio se jogando de um alto penhasco no mar. Não conseguiu saber o que havia lhe levado aquilo e só lembrava de estar sendo perseguida por pessoas que não soube identificar. A regressão transcorreu assim muito em função dela não ter conseguido entrar em contato com as dores daquela vida e evitou lembrar disso ao máximo. Pois bem, seu inconsciente não deixou a estória passar e apesar do seus temores na segunda regressão que realizamos, dali a duas semanas, lhe trouxe o restante da estória. Vale lembrar que nesse intervalo trabalhei com elas suas resistências e seus motivos, encontrando como pano de fundo disso um medo muito grande, como se fosse acontecer uma desgraça.

Logo que iniciou-se esta segunda regressão ela reconheceu a história, e após alguns bloqueios conseguiu lembrar de tudo. Era uma jovem de menos de 20 anos que vivia na Europa em torno do século 17 ou 18 em um período de guerras. Vivia só com o pai numa casa simples num pequeno vilarejo. Um dia sua aldeia foi invadida por soldados de uniforme branco e  azul; ao perguntar de onde eles eram ela me respondeu “Inglaterra”. Daí descobrimos a origem de seus medos tão profundos.

Ela foi estrupada por vários deles e enquanto isso acontecia, seu pai, ouvindo o barulho, veio ver o que estava ocorrendo e findou sendo baleado e morto pelos soldados que, ao terminarem seu ato criminoso simplesmente se retiraram a deixando lá com o cadáver do pai, mas ainda não havia acabado as dores daquela que foi L. um dia. Logo depois descobriu-se grávida e fez um aborto traumático com agulhas de crochê que tinha em casa, sozinha. Após isso foi segregada pelos vizinhos e nunca mais teve condições de casar, pois para aquela sociedade ela estava maculada; além disso sentia-se acusada e perseguida por eles passando o resto de sas existência solitária e infeliz, até que uns dois ou três anos depois sentiu-se tão desesperada que resolveu dar cabo de sua própria vida. Somente aí entendi seu sentimento de perseguição, mesmo que não visualizasse ninguém atrás dela. Depois da morte ficaram gravadas em seu espírito a raiva, a depressão, a revolta e o sentimento de vingança em relação aos homens que haviam feito aquilo com ela.

Interessante que estes mesmos sentimentos ela tem hoje, principalmente a revolta para com a vida e com Deus, além de um medo profundo e inexplicável que inclusive já lhe levou a ter crises de pânico. Mas o mais interessante veio quando ela saiu da regressão e começamos a falar de tudo aquilo.

Ao mencionar seu medo disse-lhe que estava relacionado aquele antigo trauma, mas que já era hora de abandona-lo, pois lhe prejudicava intensamente, e pior, não conseguiríamos acessar seus outros medoproblemas se ela estivesse com medo e não se permitisse aprofundar nesses problemas. Ela pareceu hesitar então lhe perguntei qual o problema de deixar o medo de lado e ela me deu uma resposta surpreendente: “Eu não posso fazer isso, esse medo é única coisa que tenho, não vou conseguir ficar sem ele”. Essa confissão me tocou, somente aí vi o quanto ela estava doente. Como alguém poderia escorar sua personalidade num sentimento tão doloroso?

Tive que argumentar muito com ele sobre a necessidade dela ter que aprender a deixar esse medo de lado e substitui-lo por emoções mais saudáveis, nesses momentos suas resistências se tornavam mais intensas, ela não se sentia realmente segura em ficar sem aquele sentimento. Mas ao fim da sessão consegui lhe fazer ver a necessidade disso e ela se foi pensativa. A partir daí pude compreeender como alguém que não tem mais nada, nem esperança , pode se apegar ao que lhe faz mais mal, nem que seja para sentir que pode continuar a existir.

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

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