domingo, 28 mai 2017
Administração

O apagão da alma

Estou iniciando o tratamento de um jovem de trinta e poucos anos a quem vou chamar de L. Este rapaz chegou com uma questão sem maiores dificuldades a serem enfrentadas, basicamente se sentindo perdido na vida e com dificuldade para escolher que caminho seguir. Estas dúvidas vão do casamento à carreira profissional (atualmente ele é militar de carreira).

Mas o que me chamou a atenção foi um problema que descobrimos nas sessões iniciais de anamnese: Ele tem crises de melancolia aparentemente sem motivo nenhum, e nele, assim como em muitas pessoas esse é um problema que se diferencia de outros, pois não apresenta as habituais características da depressão ( alteração do sono e do apetite, perda do prazer, desânimo, pessimismo, isolamento, etc), nem de outras psicopatologias, e isso sempre induz a buscar causas e sintomas que diferenciem os dois casos, depressão e melancolia, o que nem sempre é fácil, tanto é
que ainda hoje, depois de mais de um século de estudo da mente, os conceitos se confundem. Vou dar uma rápida explanação de como as teorias foram evoluindo.

Para Freud (1917) o que se perdeu na melancolia foi o ego, o melancólico não faz o luto da perda objetal. Ele se identifica ao objeto perdido. O ego perdido refere-se, na melancolia, à identificação ao nada. Nessa condição, o objeto não se constitui como perdido. Se, no surto melancólico, “o que se perdeu foi o ego”, é porque – Freud o diz – a sombra do objeto o consumiu, tomou seu lugar – que era, precisamente, uma referência no nada.

Já para a psicanálise existem diferenças entre as duas entidades patológicas, sendo a melancolia um estágio mais grave da depressão, mas o embasamento teórico desta tese é tão complexo e confuso que fica difícil chegarmos a alguma conclusão sobre até onde isso é real. Por exemplo, um artigo publicado no site Scielo diz:  “Nas depressões agudas não-melancólicas, o discurso é de uma perda de si. Mas, ao contrário da melancolia, é o discurso sobre a perda de uma imagem perfeita subjugada pelo assombro de sua própria transitoriedade. Não se encontra a ambivalência, a clivagem do eu; tampouco o conflito que sinaliza a fragilidade do ego melancólico e a identificação com o objeto. Nessas depressões não-melancólicas, portanto, o sujeito pranteia o que foi, numa reivindicação fixa de seu próprio modelo narcísico ideal”.

Como se vê muitas das escolas da psiquê humana atualmente enquadram a melancolia como nada mais do que um aspecto ou uma sindrome derivada da depressão. Na CID-10 o que chamamos de Melancolia é considerado Transtorno depressivo recorrente com sintomas psicóticos, e de Depressão ao que é considerado Transtorno depressivo recorrente sem sintomas psicóticos, com ou sem sintomas somáticos. foram-se criado termos para a melancolia com o tempo bastante criativos, como por exemplo o autismo psicótico. Dando-se a ilusão com isso de uma contextualização do problema, para esconder na realidade a grande ignorância que ainda temos do assunto. De qualquer maneira a melancolia foi perdendo seu status de uma doença única com definições claras de seus sintomas. O que é muito ruim por que passou a ser desconsiderada e a ter sua exploração abandonada, o que não é pouco visto sua prevalência e o grau de sofrimento que ela causa.

Como vemos buscasse o origem da melancolia através de explicações complexas e não convincentes, talvez por que explicar a melancolia seja realmente complexo. Noto que ao explicar de forma simples e objetiva a origem dos sintomas e do mal-estar aos meus pacientes melancólicos já percebo de imediato um certo alívio e uma esperança de melhoras e que seu caso tem tratamento. Creio que isso acontece por que a melancolia é extremamente difícil de ser explicada com palavras, a única coisa que o paciente sabe expressar é que sofre, profundamente, do fundo do seu ser.melancolia O próprio L. diz assim da sua dor : “É um vazio no ser”. Agora imagina alguém tentando explicar em termos psicanalíticos isso a um leigo que sofre, e muitas vezes não está nem conseguindo raciocinar direito.

Ao tentar explicar o seu problema busquei dar a L. uma referência conhecida, e que se assemelhasse ao que eu já
conhecia de outras experiências e me veio a idéia de que a melancolia seria semelhante a um “apagão da alma”, quando tudo parece que perde o sentido: a vida, o mundo e as pessoas; ele concordou na hora. Tentando faze-lo entender as origens de seu problema quero também esclarecer aos meus leitores do que se trata esse grande mal.

A melancolia, é sim, um problema da alma, seja lá como se interprete isso, é algo que afeta o nível de existência do indivíduo mais profundo e íntimo, aonde as coisas do inconsciente prevalessem, no lugar aonde os religiosos poderiam chamar de sede do nosso espírito, inascecível a abordagens mais convencionais e fora do alcance do consciente, por isso talvez a dificuldade tanto do entender como do tratar desse problema, afinal, como já ouvi uma vez, a consciência não pode compreender aquilo que a transcende.

A terapia de vidas passadas me deu  a oportunidade de poder entender e tratar desse problema complexo, com um alto grau de sucesso, não por meus méritos, mas por que nos permite acessar níveis muito profundos do inconsciente aonde identificamos as necessidades e desarranjos do espírito, e a partir daí iniciamos uma lenta convalescença até chagarmos a um ponto aonde a melancolia já não seja um problema. As outras psicoterapias também poderiam conseguir isso, caso se despissem de seus preconceitos e aceitassem que nossa consciência existe num nível mais elevado que apenas a nossa mente material, e nem está limitada pelo cérebro físico. Enquanto isso não acontecer vão ficar se debatendo entre conceitos tão complexos quanto inúteis, deixando de lado meios mais simples de se resolver alguns tipos de problemas.

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AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

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