domingo, 28 mai 2017
Administração

Meninas mimadas

No decorrer do tratamento com duas novas pacientes notei que ambas tem uma coisa em comum: foram na sua infância meninas mimadas, tratadas como seres mais do que especiais pelo pai, mãe ou os dois, disso resultaram vários problemas de sociabilização e temperamento pelos quais elas passam hoje. A começar pelo seu desmedido orgulho, que as leva a se achar diferentes e merecedoras de algum tratamento especial, além do que estas lhes devem atender as demandas, de outro, também pelo mesmo motivo, se tornaram prepotentes, controladoras e agem muitas vezes com uma arrogância que as torna antipatizadas pelas pessoas, as quais sentem notar nelas tais defeitos, apesar de insistirem em dar-lhes outros nomes como auto-estima e amor-próprio.

Coisa muito comum, ninguém imagina o mal que faz mimar em demasia uma criança. Esta atitude que normalmente se acompanha de outra, a superproteção, ambos geram adultos imaturos e despreparados para enfrentar a vida e suas dificuldades, levando a sofrimentos desnecessários. O que vejo nas minhas pacientes é o  resultado desse tipo de criação, a confirmar aquelas colocações. Hoje, já adultas, elas sofrem por não saberem dar um sentido positivo e real à sua existência, nem como se relacionar com seus pares sem conflitos. Para piorar sentem-se impotentes frente às demandas da vida, como o casamento, a vida profissional, a criação dos filhos, etc, o que descambou, nos casos que estou atendendo, em depressão, isolamento social e uma absoluta incapacidade de se encontrar na vida, em suma, numa bruta sensação de frustração.

Uma coisa comum às duas pacientes é um casamento razoavelmente recente e infeliz, apesar do parceiro ter sido escolhido por amor e afinidade, esta união se tornou a coisa mais incômoda em suas vidas e as motivou a vir a terapia. Mas o que findamos descobrindo que isso era apenas a ponta do iceberg. As dificuldades que tem com os maridos são uma pequena amostra do restante dos relacionamentos de sua vida, e apontou também para outros desencontros tanto interiores como exteriores. Como, por exemplo, as duas não se sentem satisfeitas em suas carreirasmimo profissionais, apesar de formadas e inteligentes, e assim ambas se desagradam do mundo, por que ele não lhes atende às expectativas. Também se acham deslocadas até do lugar que escolheram para viver, pois ambas não são naturais de nossa cidade.

A única coisa boa no atual momento conflituoso dessas pacientes é que elas se aperceberam de sua situação e de que isso se origina nelas mesmas, assim tomaram a decisão de buscar auxílio na terapia. Logo nas sessões iniciais ficou bem claro, dito por elas mesmas, que ambas foram muito mimadas na infância, e percebiam que algo de ruim isso lhes deixou, pois inteligentes que são, estão sabendo diferenciar mimo de amor, o que muitos pais não sabem. Mimar ensina a pessoa a ser egoísta, afinal ela é o centro de todas as atenções e tudo lhe é devido, e que ela é mais especial que o resto de seus pares, além de que deve receber toda atenção e afeto disponíveis das pessoas à sua volta, principalmente familiares. Só que a vida não faz isso a ninguém, e quando aquelas crianças mimadas se tornam adultas ressentem-se da falta dessas coisas e muitas vezes, como minhas pacientes, caem em situações de depressão e infelicidade, afinal a vida não as poupa e lhes mostra que elas não são tão poderosas assim. Para piorar a esses problemas se junta outro: a falta e noção de limites, quer dizer, o indivíduo fica sem saber até onde ir ou extrapola suas capacidades, o que pode terminar por uma invasão do direito e das sensibilidades alheias.

Uma das minhas pacientes chega a um nível de egoísmo tão profundo que se recusa até a ser mãe, com argumentos que me parecem muito frágeis, sobrando apenas o que me parece ser uma situação de alguém que tem extrema dificuldade em dividir e dar afeto. Assim temos que aprender a não mimar, e se o fomos, aprender a viver sem que nos achemos no direito de sufocar os outros com nossos desejos e caprichos, tomando consciência disso de certeza nossa vida, de todos que nos cercam e principalmente, de nossos filhos, será melhor.

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

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