quinta-feira, 20 jun 2019
Administração

Mais forte que a vida

Estou tratando a algumas semanas de um jovem rapaz de 20 anos, C.N, que tem entre suas maiores queixas uma série de conflitos com o pai. Estas desavenças se iniciaram quando os pais se separaram, após vários anos de um casamento turbulento e, pelo que pude perceber, afetaram em muito C.N, que alternou a moradia com a mãe e o pai, mas sempre preferindo este último por se identificar mais com ele, apesar disso os conflitos foram se intensificando. C. N considera o pai uma pessoa mentirosa e agressiva, em quem não pode confiar e que eventualmente seja capaz de qualquer coisa por puro egoísmo. De uma sessão onde conversei com o pai pude verificar que ele tem uma série de queixas também sobre o jovem, e reclama que ele não consegue conviver civilizadamente com sua nova companheira, assim praticamente o expulsou de casa para que voltasse a conviver com a mãe, coisa que magoou muito C.N; de forma que o entendimento entre os dois está péssimo.

Numa de nossas últimas sessões C.N estava a falar do modo duro do pai trata-lo, inclusive no trabalho, onde ele é o dono da empresa. Ao ouvir isso lembrei de um fato que aconteceu comigo e com meu filho mais velho, e de como nós, os pais, muitas vezes podemos errar querendo acertar. Como em minha sessão com o pai percebi que ele tem um interesse real na estado de C.N e em suas melhoras comecei a achar que na realidade entre os dois existe um amor inacabado que, principalmente por parte do pai, ainda não aprendeu como se expressar adequadamente. O fato que aconteceu comigo e me ensinou muito sobre meu papel foi o seguinte: Meu filho contava com 12 anos aproximadamente e estávamos fazendo aulas de arte marcial juntos, pois achei que fazer algo com ele nos aproximaria como pai e filho,e isso aconteceu realmente, e tivemos grandes aprendizados. Num dia em que o professor fez uma aula mais forte, meu filho se machucou e começou a chorar, e eu, na minha ignorância, insisti que ele voltasse para a aula não respeitando seus sentimentos e sua dor, com o argumento de que ele deveria ser “forte”.

Mas isso não funcionou, ele ficou muito sentido e só aí percebi que havia exagerado na dose e estava sendo insensível, chamei-o e expliquei, pedindo-lhe desculpas, que estava simplesmente querendo que ele ficasse forte para enfrentar a vida, que tinha muitas dificuldades, e era muito dura. Só aí notei que eu mesmo estava sendo mais forte do que a vida, infringindo a ele uma dor desnecessária, e de isso mesmo havia acontecido comigo quando tive um grande problema com meu pai e ele me deixou só para enfrentar o  mundo durante algum tempo. Eu senti que aquilo foi pior do que qualquer coisa que a vida me fez até então, e inclusive até da maioria depois.

Aproveitando esta lembrança argumentei com C.N, logicamente sem lhe contar minha história,  se ele também não percebia que eventualmente seu pai não estava querendo fazer algo parecido, talvez sendo muito duro com ele por preocupar-se em que ele não fraquejasse perante a vida quando fosse necessário ser forte. Neste momento C.N teve um insight e assentiu que isso realmente parecia acontecer. Inclusive o pai muitas vezes o havia prevenido com palavras duras sobre o trabalho em sua loja e de como isso seria difícil. Só que quando C. N chegou lá me falou que não encontrou nenhuma dificuldade em exercer seu trabalho e o fez com prazer; percebendo que o pai havia exagerado no quadro.

Entendeu assim que outras passagens e algumas situações que o pai lhe criou não eram atos de desamor, mas de uma forma errônea de expressar seu amor de pai, e  isso lhe tranquilizou a alma, pois até então estava a considerar o pai praticamente um inimigo, que pelo que pude perceber de nossa conversa não o era. Simplesmente ele estava se paisexcedendo em seu papel e no seu esforço para mostrar ao filho como era a vida estava sendo pior do que ela, mais ou menos como eu fiz no episódio que contei acima. Obviamente os problemas familiares e entre os dois não se resumem a isto, mas é um bom começo, e C.N me falou que mudou de postura em relação ao pai depois desta sessão e descobriu que isso melhorou a relação entre ambos.

Infelizmente nós ainda somos muito imperfeitos, até em nossa forma de amar, assim iremos evoluir como espécie ainda muito lentamente, em meio a grandes e pequenos conflitos, entre amores e mágoas, muitas vezes sem a real intenção de ferir, mas com igual resultado. Temos que nos esforçar para aprender sempre, entendendo que  existem várias formas de amar , todas diferentes entre si; como é o caso de C.N, onde ele até duvida que o pai o ame. Se fizermos esse esforço procurando entender o outro lado e respeitando a sensibilidade das pessoas poderemos, enfim, conseguirmos nos realizar numa forma de amor adequada e feliz.

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS