domingo, 25 ago 2019
Administração

Arquétipos

Esta semana tive a oportunidade de me ver frente a uma regressão muito interessante onde um novo paciente, um jovem de 20 anos com alguns problemas familiares, relembrou uma vida aonde acreditou ter sido Aquiles, o herói grego da Guerra de Tróia. Independente disso ter sido um fato histórico ou não, se a personagem for apenas um ser mitológico ou alguém de carne e osso que lutou naquela guerra realmente, o fato é que quando isso acontece durante uma regressão o regredido acredita, e se sente realmente, como a personagem. Este fato me fez pensar o quanto isto está relacionado ao conceito de Arquétipos criado por Carl Jung, no início do século 20. O grande psicólogo usou o termo para se referir a estruturas inatas que serviriam de matriz para a expressão e desenvolvimento da psique. Jung deduziu que os arquétipos se originaram de uma constante repetição de uma mesma experiência, durante muitas gerações, e assim se fixariam de forma indelével no inconsciente humano. Mas seriam elas apenas isto?

Por este conceito em nosso inconsciente coletivo essas estruturas psíquicas, os arquétipos, seriam formas sem conteúdo próprio, e serviriam para organizar ou canalizar o material psicológico. Seriam assim como moldes, ou formas, por onde fluiria a matéria psíquica.  Em: A natureza da psique, Jung escreveu: “Os arquétipos são formas típicas dearquetipos comportamento que, ao se tornarem conscientes, assumem o aspecto de representações, como tudo o que se torna conteúdo da consciência“. Eles seriam assim uma tendência, uma forma instintiva que nossa psiquê tem para organizar os conteúdos de suas experiências externas.

Os arquétipos correspondem freqüentemente a temas e formas mitológicas que aparecem com frequência em contos e lendas populares de épocas e culturas diferentes, por isso Jung imaginou os arquétipos como imagens primordiais, formados ao longo da evolução humana pela sua própria forma de assimilar suas experiências e, com o tempo, se firmariam no inconsciente, fornecendo a estrutura tanto para as fantasias individuais quanto às mitologias dos povos. Estes mesmos temas, ao mesmo tempo, podem ser encontrados em sonhos e fantasias por todas as comunidades humanas. Os mitos seriam assim expressões dos arquétipos. Estes poderiam também dar origem a fantasias individuais como, por exemplo, a da alma gêmea, a que muitos sucumbem, em busca daquele ser especial que corresponda ao que esperamos, o mais próximo do que achamos que seria nosso par perfeito.

O que posso supor, e apenas isso, é que em nosso inconsciente todas essas memórias sejam realmente comuns, como teorizou Jung, e que, sob determinadas circunstâncias, como a regressão, nossa psiquê pessoal se conectaria este conteúdo ancestral coletivo, e traria de lá essas vivências que poderiam ser partilhadas por qualquer ser humano. Em linguagem junguiana seria como se nosso inconsciente pessoal se conetasse ao inconsciente coletivo e de lá resgatasse esse material único e impressionante, comum a todas as pessoas. Isso quer dizer que meu paciente pode até não ter sido Aquiles, mas isso não quer dizer que ele não pudesse se sentir como o verdadeiro personagem, tendo inclusive suas memórias. Porque não?

Assim pensando poderíamos ampliar muito aquilo que entendemos hoje sobre o que seria nossa psiquê, e seus problemas. Se realmente fosse possível a qualquer um de nós acessar as memórias de toda a humanidade isso explicaria uma série de psicopatologias e de outras alterações que podem ocorrer durante nossas existências psíquicas. Meu paciente, por exemplo, assim como todos os que passam pela terapia, encontrou inúmeros aspectos coincidentes entre ele e aquele personagem. Por exemplo, uma enorme sede de poder e conquista, que não encontrava explicação apenas nessa existência, mas que foi tranquilamente explicada pela vida daquele herói, um arquétipo bastante conhecido.

O ponto de encontro, ou de discórdia, entre a teoria dos arquétipos com o que descobri nas regressões de meus pacientes é que, se Jung estiver certo, os arquétipos seriam parte do chamado inconsciente coletivo e este seria herdado por todo ser humano de sua ancestralidade, originados através das impressões superpostas de vivências da raça humana em incontáveis vezes no transcorrer da sua evolução e história. Mas e se não for bem assim? Que tipo de impressões são essas e como elas podem ser gravadas? De que maneira conteúdos imateriais como memórias poderiam ser transmitidos sem outra base física? Não seria mais natural que nós como espécie vivêssemos nossas memórias cada uma de acordo com sua época? Sem maiores interferências ou mudanças anteriores, pois que a maioria das memórias só podem ser criadas a partir de fatos. Os arquétipos mais  comumente encontrados como o herói, o guerreiro, o velho sábio, a grande mãe, o do fora da lei, da morte, o governante, a bruxa, o mago, entre os mais conhecidos, não poderiam ser também reminiscências de outras vivências, outras lembranças, de épocas em que vivemos realmente como aquelas pessoas? Eu creio que sim.

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS