domingo, 25 ago 2019
Administração

Parceiros, escolhas e coragem

Conversando estes dias com uma paciente, nosso assunto era sobre como ela escolhe seus parceiros na vida. Descobrimos então coisas muito interessantes que gostaria de compartilhar, até por serem fonte de problemas comuns na vida das pessoas, principalmente das mulheres. Para entender melhor  quem é ela devo informar rapidamente sobre seu perfil: K. está por volta  dos cinquenta anos, mas ainda é uma mulher bem conservada e de agradável trato, educada e culta, formada em odontologia, trabalhou como funcionária pública a vida inteira e nunca conseguiu formar uma família. Considera-se romântica e sofre por inseguranças muito profundas sobre sua própria capacidade de tocar a vida e os relacionamentos. Foi por isso que me procurou.

Já avançamos muito em sua terapia e por isso mesmo ela já entende alguns de seus padrões e fraquezas, tendo melhorado de suas angústias, mas isso só não é suficiente. Buscando entender mais a origem de seus problemas adentramos o pantanoso plano de seus relacionamentos, e o porquê de seus sucessivos fracassos nesta área,  descobrimos então vários equívocos que ela cometeu.

O primeiro deles foi que sempre foi uma pessoa extremamente analítica buscando escolher seus parceiros mais pelo que pareciam ser do que por alguma afinidade maior de personalidade ou sentimentos, estes inclusive eram deixados mais para segundo plano, o que importava para K. sempre foi o que ela achava e julgava ser o melhor para si nestes relacionamentos. Sabedor disso a primeira coisa que lhe fiz ver é que, diferente do que pensava a respeito de si mesma, ela não era tão romântica assim, vou explicar. O romantismo implica em passionalidade, entrega aos sentimentos560e0238ddf546011f5b23bedc6817ac e fantasia a respeitos destes e dos parceiros, leva as pessoas a abrirem mão de seu controle e da razoabilidade de suas escolhas para privilegiar apenas o que sentem e desejam, normalmente levando à escolhas por  impulso e baseadas apenas nos sentimentos. Exatamente o contrário que K. fez a vida inteira.

Essa distorção a respeito do que achamos de nós mesmos e o que somos na realidade é extremante comum, chego a dizer que quase 100% das pessoas não se enxergam como realmente são, e o pior é normalmente tendemos a nos ver melhores do que parecemos ser. Assim somos levados a escolhas erradas, pelos motivos errados. No caso de K., para piorar, suas inseguranças sempre lhe impediram de ao menos tentar fazer escolhas diferentes, caindo sempre nos mesmos erros.

Após muita conversa K. admitiu que realmente errava sempre em suas escolhas por não ouvir o seu coração, sempre dando preferência ao que seu intelecto considerava o melhor para si, o que redundou em frequentes decepções. Lhe contei então que já aprendi que em nossas várias vidas o que chamamos de inteligência tem limites e poder muito mais limitados do que imaginamos e vejo frequentemente as pessoas errando como ela errou, baseando-se apenas no que sua razão para fazer suas escolhas. O problema é que quem vai nos fazer feliz ao fim das contas é nosso “coração”, ou como nos sentimos na vida em relação à tudo o que nos cerca. Assim de nada vale escolher apenas pelo intelecto abdicando-se de ouvir o que nosso coração quer, pois assim estamos escolhendo um caminho que ao final poderá nos contrariar muito, provando que de nada adiantaram nossos esforços se não estivermos em harmonia com os nossos sentimentos, em resumo, de nada vão adiantar nossas conquistas se no fim não ficarmos felizes com elas; coisas com que K. concordou, descobrindo-se mais analítica e racional do que imaginava.

Agora, é a hora sim, de ela usar de sua razão e fazer que for necessário para ser feliz, buscando coragem para levar suas escolhas à frente, o que não será fácil frente às suas velhas inseguranças e incertezas, mas o preço a pagar por não fazer isso vai ser muito caro. Vai ser preciso escolher: viver a vida apenas como espectadora passiva, sofrendo por ver os outros indo em frente com mais ou menos sucesso, enquanto ela se acovarda e se fecha no seu mundinho,  ou interferir para que seu futuro seja diferente, afinal ela já sabe muito bem onde vai parar se permanecer fazendo tudo como sempre fez. Expliquei-lhe que seria muito melhor não permanecer o resto da vida como está, e termina-la covardemente cheia de sentimentos de culpa por não ter mudado seu destino enquanto havia tempo e meios para isto; mas para isso é preciso querer fazer tudo diferente, agora, mesmo com o risco de errar. As dores e eventuais decepções que poderá passar sempre serão meios de crescimento interior, já a solidão será apenas o que sempre foi: um enorme sofrimento sem sentido e aparentemente sem fim.

Ao final de nossa conversa K. respirou fundo, concordando com  nossas conclusões, digerindo suas novas descobertas. Agora a escolha está nas mãos dela, como sempre esteve afinal, e cabe só a ela fazer o que é preciso, e afinal ouvir seu coração, que foi tão esquecido nos seus últimos cinquenta anos. É aguardar para ver.

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS