quarta-feira, 19 jun 2019
Administração

Quem cativas?

Não tem jeito, sempre que nos vemos frente à morte nos questionamos sobre a vida, e foi isso o que aconteceu hoje comigo, no velório de um antigo e querido professor de faculdade; homem culto, mas sem vaidades efêmeras, sempre procurando dar o melhor de si, como homem e profissional. E me peguei  chorando, logo eu, que já me acostumei a ouvir o relato de dezenas de mortes nas regressões em meu consultório, quando frente ao fato real ainda sinto e sofro como qualquer um que ignora o destino dos homens em sua existência terrena. Talvez isto tenha acontecido nesta situação em especial porque este velho professor havia cativado meu coração, inicialmente por suaformatura dedicação e desvelo ao me ensinar, ainda na adolescência, a importância da profissão médica e posteriormente, já muitos anos depois de formado, quando me pediu para tratar sua esposa tornando-se meu amigo em gostosas visitas ao meu consultório para tomar um cafezinho.

Sem querer parecer piegas isso me lembra aquela frase do pequeno príncipe: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. E realmente me senti assim, cativado pelo carinho e confiança do velho mestre que tanto me ensinou. Ao assistir sua despedida deste mundo, vendo aquele corpo onde sabia que não habitava mais o seu espírito me surpreendi por ainda me emocionar e chorar, pensando que não iria ve-lo por algum tempo. A surpresa veio porque afinal, após todos esses anos, eu esperava de mim uma atitude mais lúcida, ou de um entendimento que me deixasse mais tranquilo, mas não. Não havia como não relembrar das suas gargalhadas quando soltava um de seus comentários cheios do mais fino humor, ou de como parava às vezes reflexivo, pensando na solução de algum problema filosófico; do dia em que fiz meu juramento apenas em sua respeitosa presença. Como não me emocionar também vendo a dor de sua esposa, fragilizada, e de seus filhos e netos, que iriam deixar de ter a companhia de pessoa tão especial?

Esta dor me fez pensar em quantas pessoas nós cativamos ao longo de nossa vida? Quem teremos a lamentar ou sofrer por nosso desencarne? E qual a importância disto para a nossa vida?

Pelo que já percebi as pessoas que tem nos seus relacionamentos sociais  um fonte inesgotável de aprendizado e prazer fazem de sua vida algo de muito produtivo, apesar de eventuais decepções. Com isso conseguem ter ao longo de sua existência um caminho de progresso pessoal realmente muito bom, principalmente a nível das suas realizações  interiores e espirituais. Meu professor além de todas as suas conquistas profissionais, nutriu um amor muito belo, de mais de 50 anos, pela esposa, por quem tinha enorme carinho, e cuidou dos filhos como pai dedicado até o fim de seus dias, assim como honrou sua profissão. Descobri dessa maneira que mesmo na morte meu antigo mestre me ensinou muitas coisas, tão inesquecíveis quanto profundas, sobre a nossa verdadeira missão e do respeito que temos que ter ao próximo, espero que quando chegar a hora de minha despedida de mais esta vida eu deixe tão boas lembranças e afetos como você deixou. Obrigado professor Joaquim Melo.

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS