sábado, 21 set 2019
Administração

Fazer por amor

Em consulta recente com uma paciente que trato a pouco mais de dois anos, S.B., de quarenta e poucos anos. Tivemos uma conversa que me fez pensar em como é fácil nos perdermos na vida, passando por ela apenas a cumprir obrigações, sem na realidade nunca descobrirmos seu sentido, deixando de vive-la em sua plenitude e de cumprir o único dever que realmente temos, que é o de procurar sermos melhores a cada dia, não melhores para ninguém, e talvez seja aí que muitos se perdem, mas melhores para nós mesmos. Fazendo aquilo que for possível no sentido de nos tornar realizados e felizes.

Além de S.B já estar na meia idade é professora, nunca casou nem teve filhos, logo muita gente já vai dar o veredito de que vivendo desta forma ela estaria fadada a ser infeliz. Vou discordar frontalmente, pois ao pensarmos desta forma seremos obrigados a dizer que todos os que tenham uma profissão de destaque e/ou uma família constituída seriam sempre felizes, o que não é em absoluto verdade. Estar sozinha como ela está para muitos é uma opção e ela me diz, textualmente, que se sente muito bem assim, e quando tem que estar com sua família é apenas para cumprir os ritos sociais que tão bem conhecemos, ela ainda sente-se incomodada e com a sensação de que aquilo é apenas mais uma obrigação. Logo, podemos perceber porque S.B não sofre, e aparentemente nunca se queixou de solidão, em todo o tempo que está se tratando comigo. Qual o seu problema então? O de muitas pessoas no mundo: Funcionar de acordo com alguns preconceitos e crenças sobre o que é certo e errado, ou sobre o que deve ou não fazer para ser uma boa profissional, filha, amiga, crente, etc. Só que isso não a faz feliz, e ela se sente cada vez mais perdida no mundo e com seu destino,  sobre o qual tem muito pouca influência.

Durante seu tratamento avançamos muito  em várias áreas de seus problemas psíquicos e sociais, mas agora que caminhamos rumo ao mais profundo de seu inconsciente, problemas e carências antigas começam a vir à tona, e ela sente que já não lhe basta apenas viver e cumprir determinados papéis como o fez até hoje. Em nossa última conversa estivemos tratando de como viver esses papéis não tem lhe sido suficiente para faze-la sentir-se realizada, na maior parte das vezes, na realidade, sente-se obrigada apenas a cumpri-los sem nenhuma satisfação.

Ao chegar  neste momento da terapia perguntei-lhe o que, dentre  todas as coisas que fazia na vida  pessoal e profissional,  realmente executava por amor, sem que fosse apenas para atender esta ou aquela expectativa; ela ficou calada por alguns instantes hesitando para responder. Na realidade, disse ela, eram bem poucas, a partir daí discorremos sobre as necessidades que  ela teria de fazer algo que realmente amasse, ou que pelo menos quisesse fazer algo quanto ao rumo que estava dando à sua vida e ao seu destino, pois se não estava tendo prazer nenhum em nada do que  fazia era porque justamente ela  não procurava nada que lhe atendesse ao coração, lhe fazendo sentir bem e feliz nas suas atividades, sentir-bempor mais corriqueiras que fossem.

Reparei assim em como somos tolos em nossas buscas pela vida. Queremos ser felizes trabalhando ou vivendo em atividades que não nos fazem sentir assim, desejamos a realização  profissional apenas num melhor status financeiro, buscamos o amor da família somente por estar com eles e almejamos a paz espiritual simplesmente frequentando algum templo ou fazendo um trabalho filantrópico que nos pareça belo, sem que analisemos se essas coisas são realmente aquelas que nós amamos fazer. Percorremos assim atalhos como caminhos e distanciamo-nos cada vez mais da real estrada da felicidade e realização final, que não é apenas cumprir deveres, mas fazer aquilo que é necessário para nossa evolução com alegria e prazer no coração.

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS