domingo, 25 ago 2019
Administração

Inconsciente de quem?

Estava hoje a lembrar de meu pai. Lembrava das histórias que ele me contou durante toda a vida, de sua infância na fazenda, das suas dificuldades depois da morte de meu avô, das histórias deste, dos seus namoros e amizades, também de brigas e superações. Muitas vezes ele repetia essas histórias, vezes sem conta, sempre com a alegria de quem as contava pela primeira vez. Na minha mente adolescente isso muitas vezes me impacientava e aborrecia, não conseguia entender o porque daquela repetição, só hoje na maturidade, tendo meus próprios filhos posso compreender que ele não tinha muitos amigos com quem dividir aqueles relatos. Sendo eu seu ouvinte predileto, no que ele aproveitava também para me ensinar algumas lições com suas experiências de vida. Ainda ontem meu filho mais velho  contou que ao lhe dar uma carona,  ele passou toda a viagem relembrando fatos de minha infância.

Interessante que hoje, aquelas que foram suas memórias, também se tornaram minhas, e me lembro de cada detalhe delas como se estivesse estado lá, como um espectador privilegiado. Assim pude observar como evoluiu meu pai desde a sua infância, passando pela adolescência até a idade adulta, seus próprios aprendizados e dores, suas alegrias e amores. Já notei também, que após 14 anos utilizando a Terapia de Vidas Passadas e partilhando de centenas de memórias de vidas de meus pacientes, às vezes me confundo e chego a me perguntar se minhas próprias memórias não seriam as deles. Talvez isso se deva à minha participação com eles durante o processo regressivo, quando junto com meus pacientes fico imagino os cenários, as pessoas, e tudo mais o que existe naquelas estórias que eles me contam para ajudar a guia-los dentro de suas lembranças. Caso eu não usasse desse instrumento talvez fosse impossível ajuda-los, pois as recordações  findam trazendo informações importantes de seu inconsciente que só podem ser  utilizadas quando as partilhamos juntos e entendemos seu significado. Fazendo isso praticamente todo dia nos últimos anos entendi com mais clareza o conceito de inconsciente coletivo e inconsciente pessoal de Jung. Descobri então que em todo ser humano os frutos desses conceitos tem implicações bem mais profundas em nossas vidas cotidianas do que imaginamos.

Normalmente não notamos quanto nossos conteúdos inconscientes guiam nossa vida e de como a partilha que fazemos entre nossos inconscientes e nossas memórias são tanto importantes como impressionantes. Se por exemplo eu tiver um conteúdo fóbico ou com algum tipo de trauma arraigado em minha memória inconsciente, quem garante que isto não irá influenciar toda a humanidade que afinal partilha de um inconsciente comum, o chamado inconsciente coletivo? E que influência desse que chamamos de inconsciente atua de tal força que muitas vezes somos lavados a realização de atos de forma pré-determinada sem saber o por que de o fazermos.

É isso que tenho verificado ao longo das vidas que meus pacientes me trazem ao consultório. Pensando nisso posso assegurar que em todos nós dormitam memórias e outros conteúdos psíquicos que poderiam muito bem se psicologia-562f3868d7a49manifestar como sendo próprios e realmente não o são, pelos menos não com exclusividade. Até que ponto podemos dizer que somos, ou fomos portadores de apenas um inconsciente pessoal, intransferível e incomunicável com os outros tantos existentes?

Quando assisto meus pacientes contando estórias de heróis e personagens eventualmente conhecidos me impressiona a veracidade de seu relato e, principalmente, a revelação de suas emoções durante os fatos narrados, coisa que sei ser impossível de se criar usando apenas os artifícios da imaginação. Quem quiser experimentar é só tentar recriar uma emoção imaginando-a, tente pro exemplo, sentir medo ou amor apenas imaginando isso, logo você verá que é impossível. Assim estou chegando à espantosa conclusão de que podemos sim, sentir o que qualquer personagem da história passou, e dentro de nossas memórias e relembrar coisas de sua vida. Não porque estivemos lá realmente, mas por que podemos acessar essas memórias comuns e partilhar de qualquer sentimento, ou pensamento, que estas pessoas tenham tido. Isso se comprova mais quando checo as informações e o conhecimento dos pacientes sobre determinados fatos e pessoas históricos e vejo que eles, ou não são relevantes, ou sozinhos não justificariam a expressão de tudo o que eles me contaram sentindo na pele suas dores e demais emoções envolvidas.

Assim quando ouço falar de pacientes que, alucinados em patologias psíquicas, se imaginam como um Napoleão ou um Jesus, não posso ficar completamente descrente de que eles não estão tendo um contado doentio com o conteúdo de seu inconsciente e se sentindo realmente essas personagens. Já com meus pacientes isso não acontece da mesma forma, eles não estão alucinando nem tendo delírios, são na maioria pessoas que poderíamos rotular de “normais” com problemas comuns do dia a dia, só que tendo um acesso privilegiado a uma área de suas memórias que normalmente não teriam. Outros, pelo contrário, os ditos normais, chegam a duvidar de seus próprios relatos, seja por que acham absurdo ou por que conheciam antecipadamente a história daquela personagem da qual se relembraram como tendo sido eles mesmos. Assim muitos acham que estão fantasiando, mas aí volto à observação anterior, se fosse assim como fantasiar todas as emoções e sensações que suas personagens sofrem ao longo de suas lembranças? No final das contas o antigo aforismo de que “Somos todos um” se prova real, pelo menos a nível de inconsciente e isso nos mostra que existe mais de uma forma de ser imortal, pois nossas memórias assim jamais se extinguirão.

 

 

 

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS