sábado, 21 set 2019
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Para entender o Cristo: As bodas de Caná

Em se chegando a Páscoa cristã quero aproveitar para falar um pouco sobre seu principal personagem, Jesus, e seu relacionamento com alguém muito especial, sua mãe, Maria. Essa talvez a única pessoa que entendeu a natureza da missão de seu filho e pôde, como ninguém mais, aprender com ele, num papel extremamente difícil, pois teve que ensinar, como filho, alguém que tinha um intelecto muito acima da média, e uma capacidade de realizar coisas que afrontavam as leis do mundo. Vou partir do que os cristãos conhecem como seu primeiro feito ou “milagre” e que contou com a interferência direta de Maria, e do qual temos uma visão geral do que seria o relacionamento entre essas duas pessoas tão especiais.

“E, ao terceiro dia, fizeram-se umas bodas em Caná da Galiléia; e estava ali a mãe de Jesus.bodas
E foi também convidado Jesus e os seus discípulos para as bodas.
E, faltando vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Não têm vinho.
Disse-lhe Jesus: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora”. João 2:1-4

Depois disso Jesus mandou encher alguns vasos de água, e esta se transformou em vinho de ótima qualidade para ser servido aos convidados. Mas o que menos me impressiona no fato narrado foi o “milagre” em si, que pode ser discutido ou explicado de muitas formas, o que me chama a atenção até hoje foi a admoestação que Jesus fez ao dirigir-se à sua mãe: “Mulher, que tenho eu contigo?”. Somente para esclarecer, entendemos aqui por  milagre qualquer ato cujo resultado não possa ser explicado pelas leis naturais do mundo em que vivemos, que transgrida o que se conhece de efeito causal das coisas. Na reprimenda de Jesus à sua mãe, incompreensível na forma de alguém se dirigir a sua progenitora, notamos que Jesus refere-se a Maria pelo seu gênero: mulher, e não mãe, aquela a quem, em teoria, deveria ver com o respeito a quem deve a vida e a educação. E mais, a vê como alguém a quem não deve favores ou explicações sobre seus atos, pondo dúvidas sobre que tipo de acordo ou obediência deveria ter para com ela. Conhecendo a história de Jesus, e sua misericórdia com as pessoas que encontrava, a maioria estranhos, seria incompreensível que a sua própria mãe pudesse agir de forma desrespeitosa, ou mesmo com acinte. Assim para que ela tivesse aquele tratamento que ele lhe deu é porque estava a infringir um acordo tácito que parecia haver entre eles, o que se confirma no restante de sua colocação: “Ainda não é chegada a minha hora”.

Foi como se ele dissesse que ela deveria saber que naqueles dias ele ainda não tinha se preparado adequadamente à algo que estava por vir e que iria lhe exigir grandes doses dedicação; o que supomos ser seu apostolado. E quando ela lhe pediu o favor de ajudar a resolver a falta de vinho com a absoluta convicção de que ele teria meios de solucionar o problema, antecipou um fato que iria mostrar que aquele não era um homem comum à toda a sua comunidade e Jesus, não tendo como recusar o pedido, o fez, para espanto e admiração de todos os que estavam ali aquele dia.

Entender o que Jesus desejava transmitir, por palavras e atos, em sua breve passagem por nosso mundo é uma tarefa deveras difícil, e que deu ensejo a várias discussões e conflitos, muitas vezes violentos, nos últimos 20 séculos e não sou eu que irei, neste pequeno espaço, resolver as complexas dúvidas que nenhum teólogo ou filósofo anteriormente não tenha discutido ou explicado amplamente. Mas posso, como qualquer um, fazer minhas próprias interpretações a respeito dos ensinamentos do grande mestre.

Inicialmente não vou entrar no mérito da natureza de Jesus, se ele era divino ou humano, vou me ater simplesmente a tentar entender as motivações e angústias de um ser que sofreu como homem, mas agiu como alguém dotado de reações e características supra-humanas. Sua inteligência era indiscutível, assim como sua sensibilidade ao sofrimento humano, o que por si só já o diferenciava do resto da humanidade. Isso ficou muito bem demonstrado pela sua capacidade de argumentar  com quem quer que fosse, desde autoridades judaicas a líderes romanos. Assim como demonstrou ser capaz de acolher os indivíduos , principalmente os mais simples e ignorantes, tanto individualmente como em grandes multidões de milhares de pessoas, como podemos encontrar em outras passagens do Novo Testamento.

Era também admirável a capacidade que ele tinha de antecipar-se aos fatos, como em vários exemplos contados no evangelho, neste caso em especial, o das bodas, fica a impressão de que ele já tinha a exata noção do que iria ter que enfrentar nos anos seguintes. Ninguém diz que é chegada a sua hora, para se referir a um fato banal qualquer, do dia a dia. Normalmente usa-se este termo para acontecimentos que irão ter o poder de mudar grandemente a vida, ou nos encaminhar para a morte, o que foi exatamente o que aconteceu com Jesus, e sua consciência disso nos faz pensar em como alguém pode saber que vai enfrentar grandes sofrimentos, e não se estressar com isso, ou mesmo ficar preocupado. Ele poderia ter outro tipo de reação mais humana tipo: “Não me revele ainda, pois não estou preparado!” ou “Deixe isso para depois, pois ainda não tenho estrutura para enfrentar o que vem aí”. Mas não, a sua preocupação foi com algo que parecia maior que eles mesmos. A tal chegada da hora, como ele a disse, parecia referir-se a algo que iria trazer grandes mudanças. Só que ninguém, talvez apenas ele e Maria, sabiam que isto iria mudar o mundo dali para a frente.

Por esta e outras é que Jesus causou tanta confusão por onde passou, como é que alguém seria capaz de feitos tão transcendentes e ao mesmo tempo se entregar aos seus verdugos para sofrer as piores humilhações e sofrimentos? Talvez aí esteja a maior prova de sua divindade, a de ser capaz de superar a si mesmo, em meio a tudo o que sofreu, e ainda ser capaz de transmitir uma mensagem de amor, tolerância e perdão inigualáveis. Algo que realmente ninguém seria capaz naquele tempo, como ainda não o somos hoje.

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS