domingo, 21 jul 2019
Administração

Vaidade que enlouquece

Costumamos muito falar de vaidade,  em como ela está presente nas nossas vidas, de como tira muitas  vezes as pessoas do senso do ridículo, e observamos como serve de mola propulsora à vários defeitos humanos. Atualmente ainda existe o mercado da vaidade onde cirurgiões plásticos, médicos, vendedores e empresas faturam bilhões movendo a roda da economia de muitos países. Muito mais do que apenas uma expressão da auto-estima a vaidade se tornou um grande mercado e fonte de uma busca humana incansável, onde homens e mulheres, desejosos de corpos perfeitos e belos, se dedicam a gastar cada vez mais tempo e dinheiro para alcançar um status de perfeição física ou de conquistas pessoais, algo que as faça se destacar da multidão e serem reconhecidas por seus feitos, títulos ou aparência física.

mirrorO problema é que isso se tornou no mundo civilizado uma fonte de estresse e angústia para quem não consegue alcançar suas próprias metas e alimentar sua nunca saciável sede de elogios e admiração alheia. Mais do que isso, a vaidade tem levado a muitos adoecerem mentalmente, transformando pessoas que poderiam ter uma vida boa e produtiva em seres disformes por tantas intervenções cirúrgicas, ou pior, disformes em sua alma, pelo tanto que se maculam por esse sentimento vão. Muitos prostituem seu corpo e vilipendiam seu espírito em busca apenas do prazer efêmero que a vaidade traz. Orgulhosos, não percebem a armadilha em que estão caindo e terminam por adoecer, e até morrer, como já tive oportunidade de conhecer, por uma busca tão cansativa quanto inútil.

É o que estou vendo atualmente na gênese de um transtorno muito sério, que é a esquizofrenia, em uma paciente que tinha tudo para ser feliz. Esta doença, como se sabe hoje, depende de uma predisposição interna que dependendo de certos “gatilhos” externos vai fazer com que a pessoa acometida tenha um comprometimento tamanho de sua capacidade de entender o mundo e nele sobreviver, que vai inabilita-la para a vida. Acompanhada de sintomas sérios como delírios e alucinações transforma a vida dos acometidos em um verdadeiro pesadelo vivo. Tem tratamento apenas conservador, sem cura, e leva a surtos onde a loucura, como popularmente se entende, é lugar comum. E foi assim que a vida de G. se transformou de algo bom num tormento permanente.

Ela teve uma vida aparentemente normal até a maturidade quando, por pressões ligadas a um novo trabalho, começou a apresentar sintomas e disfunções que a impediram de seguir como sua vida. Me disse que seus problemas na realidade começaram  desde cedo, quando ela ainda adolescente. Começou com um grande complexo de inferioridade e a impressão de ser perseguida e rejeitada pelos amigos, isso com o tempo tem se agravado cada vez mais de forma que hoje acha, em seus delírios, que existe uma conspiração contra ela por todos que lhe conhecem. Uma coisa que noto e que vale a pena registrar é algo que agravou em muito seu quadro: a frequência com que usa as redes sociais para ficar comparando a felicidade dos amigos à sua própria infelicidade, isto tem mantido acesa todas as suas impressões e delírios negativos, amplificando-os.

Uma frase sua dita na última sessão me deixou com a certeza de que a vaidade é uma das grandes culpadas do seu estado atual, que inclusive é extremamente grave, até porque pensamentos suicidas tem sido frequente nos últimos tempos, pelo que tem me dito. A frase que me deu esta impressão foi a seguinte: ” Minha vaidade foi quem me fez chegar aos extremos da humilhação”. No momento em que ouvi isso percebi que toda a sensação de humilhação e inferioridade que sente, mais os os delírios que tem assumido, tem estreita relação com essa sua característica de personalidade. O que me faz entender que a vaidade não é tão inócua como parece ser, e nem tem poucas repercussões em nosso adoecer psíquico e espiritual, ao ponto de literalmente podermos enlouquecer por ela. Não é uma simples questão de amor próprio, nem de se sentir com mais ou menos auto estima, é sim uma questão de assumir uma postura onde o mundo e as pessoas teriam que giram em torno do vaidoso, alimentando sua carência de elogios e necessidade de reconhecimento de forma contínua e estressante.

O estresse associado à estas comparações e a sensação de fracasso perante o mundo, além da inveja pela condição de aparente felicidade alheia, é o que fez emergir em G. sua doença atual. Deixando-a incapaz de exercer quaisquer atividades laborais, nem de ter relacionamentos saudáveis. Os seu delírios se tornaram tão graves que ela não percebe mais a realidade como ela é, vendo inimigos em toda parte, transformando sua vida num inferno sem sentido, onde só impera a infelicidade. É um preço afinal muito caro, apenas para se tentar ter o reconhecimento e a atenção alheias.  Por isso é importante que notemos que a vaidade não é apenas uma necessidade de nos cuidar ou manter nosso bem estar,  nem apenas cultivar a amor próprio, ela extrapola nossa condição de nos amar e cuidar de nosso corpo de carne e meios de vida, para penetrar nos domínios da luxúria, egoísmo, inveja e ciúmes. A sensação de humilhação e injustiça do mundo são ilusões de quem não aceita se ver como mais um e busca uma superioridade orgulhosa, que a vaidade sustenta e confirma.

Vale a pena? Será que somos tão especiais assim? Ou é apenas nosso orgulho, nos fazendo cair num ciclo patológico d’aonde vai ser difícil sair e até sobreviver. É bom nos vigiarmos para que nós mesmos não nos coloquemos numa situação  de dor e sofrimento, por uma ou mais vidas, inutilmente.

Related Posts with Thumbnails

 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS