segunda-feira, 22 out 2018
Administração

Insegurança cármica, ou o menino das ruínas.

Estou tratando uma cliente a algumas semanas que apresenta um problema relativamente comum, mas que me trouxe ontem uma regressão incomum, por isso vou comenta-la aqui. É bem possível que outras pessoas se enxerguem com problemas do mesmo tipo e isso poderá ajuda-las de alguma forma.

A.C tem trinta e poucos anos e é professora, vive um relacionamento marital com outra moça a alguns anos e que está desmoronando; o motivo é uma depressão severa pela qual ela está passando e que na realidade já a acompanha a alguns anos. Sem conseguir solucionar seu estado depressivo sua companheira não suporta mais conviver com sua doença, e, apesar de demonstrar que ainda lhe tem muito afeto, quer encerrar a relação. Muito abatida a sem perspectivas de melhoras ou de como sair da situação A.C chegou ao consultório, tentando encontrar uma saída de tudo isto. A simples idéia de ficar só lhe dava uma sensação de desespero e insegurança intensas que lhe fazia piorar da depressão, aumentando suas dores; pois não conseguia se ver enfrentando a vida sem apoio, sozinha. Além disso também é dada a crises profundas de melancolia onde a sensação de um enorme vazio lhe toma todo o ser e faz perder o sentido da vida. Não preciso dizer que isto estava desorganizando todo o seu mundo afetivo.

Pesquisando suas características mais doentias em busca de algum padrão de vida inadequado notei que o medo, a insegurança e a sensação de abandono, sem explicação real, eram características muito arraigadas no seu íntimo, lhe forçando a atitudes na vida muitas vezes inadequadas que lhe atrapalhavam a vida afetiva e profissional. Nesta vida a única coisa a justificar isto é que não havia conhecido o pai e a mãe morreu relativamente cedo, depois de lhe criar sozinha, lhe deixando uma grande culpa por não aprovar seu relacionamento homoafetivo.   Assim a única família que tinha, afora seus parentes colaterais, era a companheira.

Depois das sessões iniciais com alguma melhora e reconforto fomos em busca da causa pregressa destes problemas;  quando chegou a hora de fazermos as regressões teve que superar o medo de entrar em contato com seus fantasmas mais íntimos, mas o sofrimento era grande demais e a motivou a ir em frente. Ontem sua segunda regressão revelou coisas muito interessantes. Logo no início viu uma criança, um menino de oito para nove anos, perto de uma pequena casa de madeira, à noite, sozinho, andando no escuro, numa rua estreita e escura, chamou sua atenção a impressão de que havia algo queimado por ali e de que tudo parecia estar coberto de fuligem; próximo a ela uma menina a observava no escuro. Após esta cena inicial voltou um pouco no tempo e se viu de dia, sendo levada pelo pai para um abrigo, ou orfanato, teve a impressão que a mãe não vivia com eles e estava muito triste por estar sendo levada para lá contra a vontade, tinha um irmão “maior” que não localizou de início.

No abrigo evitava interagir com as outras crianças, tinha a impressão de que logo iria sair dali e voltar para casa e um grande tristeza era sua única companheira. Seu pai veio lhe visitar um dia e lhe disse que iria para “a guerra”, depois disso nunca mais retornou. Enquanto me contava esta estória A.C demonstrava uma certa confusão, própria de sua pouca idade naquela vida, com dificuldades de entender o mundo que lhe cercava e o abandono a que foi relegada. Pouco tempo depois de estar naquele abrigo houve um bombardeio e ela se viu novamente naquela cena inicial; só aí entendemos o que havia acontecido. Ao lhe perguntar que ano era aquele o ano de 1941 surgiu à sua mente e a Segunda Grande Guerra parece que atingiu sua pequena cidade levando dor e destruição aquele lugar arrasando completamente o abrigo, no qual ela ouviu muitos choros dolorosos, fugiu logo de lá desejando reencontrar sua casa, seu pai e seu irmão.  O momento em que ela reencontrou sua casa e meio à fuligem foi aquela cena que viu de início, mas não havia mais ninguém lá.

Contou-me que ainda ali, em meio àquele caos, um jovem soldado a recolheu e a encaminhou ao que parecia ser um campo de concentração. Ao chegar lá reconheceu seu irmão mais velho, que estava fardado e parecia estar trabalhando lá, mas nada fez para defende-la ou acolhe-la, por medo de ser executado também caso fosse reconhecido; findou sendoimages (2) executada pouco depois numa câmara de gás. Ao lhe perguntar sobre este momento doloroso A.C. me disse que pela sua mente infantil não passava nenhuma emoção, sentia-se letárgica, seus pensamentos eram de que nada mais importava porque não tinha mais ninguém, uma enorme sensação de abandono se apoderara de seu ser, nem tanto por seu pai, mãe ou casa, mas por ter sido abandonada por seu irmão que fingiu não lhe reconhecer. Isso marcou profundamente seu espírito.

Após a execução viu seu pequeno cadáver ser retirado do meio dos outros corpos por seu irmão, e ser levado nos braços dele para ser enterrado longe dali, fora das valas comuns onde eram depositados todos aqueles que perdiam a vida nas câmaras de gás. Sentiu uma paz muito grande depois de morto e viu, perto de si,  aquela menina que havia lhe observado na primeira cena, parece que ela viveu uma situação parecida com a dele e isso criou um vínculo entre eles. Ambos se deram as mãos e foram acompanhados por dois “seres de luz” para longe daquele lugar. No seu espírito ainda ressoava a vontade de fazer algo por seu irmão. Teve a impressão de que ele se suicidara, cheio de culpa; decidiu fazer algo por ele. Ao abrir os olhos para conversarmos sobre tudo o que havia lembrado A.C encontrou muitas respostas sobre as dores que a atormentavam, principalmente a sensação de abandono e a impressão de que seria deixada só na vida. descobriu assim um dos motivos de suas inseguranças e medos tão intensos quanto inexplicáveis, e se sentiu melhor. Disse -me ainda que sempre teve um fobia enorme a fogos de artifício, que não sabia de onde vinha, mas que agora tinha explicação, assim como a melancolia e enorme vazio que tinha no peito, que eram exatamente os mesmos que sentira ao entrar na câmara de gás, sentindo-se abandonada por tudo e todos.

Tenho certeza que a partir daqui muitas de suas inseguranças serão amenizadas, bem como as crises de melancolia, e ela vai aprender a enfrentar melhor as dificuldades. Como podemos ver essas marcas dolorosas que certas vidas deixam em nosso espírito podem se perpetuar por muito tempo, até encontrarem um forma de se expressar, ensinando a pessoa a se transformar perante seus próprios obstáculos internos, e passando a viver melhor sua vida e relacionamentos.

 

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

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