quinta-feira, 20 jun 2019
Administração

Ainda que falasse a língua dos anjos…

Assisti esta semana a um filme de ficção chamado “Lucy”, com a atriz americana Scarlett Johansson, o filme tem muita ação e é divertido, mas o que gostaria de apresentar aqui não é um comentário sobre as qualidades cinematográficas do filme e sim as mensagens subliminares que percebi nele. A protagonista do filme, Lucy, vivida por Scarlett Johansson, tem sua inteligência aumentada artificialmente até o seu máximo limite e no decorrer do filme este aumento vai gerando dúvidas e angústias psíquicas. A primeira de suas inquietações é que ao mesmo tempo que sente sua inteligência se expandir vai deixando de sentir medo, dor, desejo, a medida que isso acontece ela não sabe o que fazerleadlucy.

Absorvendo todo o conhecimento humano em breve nada mais há no mundo para Lucy conhecer, ela entende então que existe apenas um ponto em comum a tudo o que existe: o tempo. Ao explicar a um grupo de cientistas suas descobertas sobre o conhecimento humano ela diz: “ Na verdade não existem números nem letras, codificamos nossa existência para reduzi-la ao tamanho do homem, para deixa-la compreensível, e assim termos uma medida para podermos esquecer sua insondável escala”. Dizendo isso ela mostra àqueles homens de aparente grande saber o tamanho de nossa ignorância e do quanto somos insignificantes perante a grandeza do cosmos. Não deixa de se perceber que a personagem vai se tornando cada vez mais fria e distante à medida em que penetra mais fundo nos mistérios de tudo, se tornando ao fim quase um robô. Isso tudo me fez pensar sobre o que o homem sabe ou pensa saber sobre o universo e sobre si mesmo, e o que faria se tivesse condições de chegar a tal ponto, sem descobrir a importância do amor.

Ao compararmos a grandeza do universo com o que sabemos dele podemos facilmente perceber o quanto o saber e a compreensão humana são pobres e incompletas, mas isso de forma alguma inibe a soberba de nossa nata intelectual e científica, e continuamos, achando que muito sabemos, continuando a procurar a compreensão de tudo, como se isso bastasse para aplacar nossas dúvidas e angústias. Como diz Lucy, procuramos reduzir a escala do universo ao nosso pequeniníssimo tamanho e assim podermos esquecer o quão longe estamos da compressão do todo, algo que possivelmente nunca vai ser completamente desvendado por nossa ciência e nosso  pobre intelecto, devido às nossas próprias limitações neuronais. A começar por nossa capacidade de perceber o universo em apenas três dimensões; nascemos com o cérebro programado para isto, quando sabemos, por comprovação científica, que existem muito mais dimensões do que estas três. Só isto bastaria para tornar incompreensível a quase totalidade do que existe.

Quase ao fim do filme Lucy ainda não sabe o que fazer com tanto conhecimento, quando um cientista que se tornou se amigo lhe aconselha como melhor alternativa as suas dúvidas sobre o que fazer com tudo aquilo, passar a frente tudo o que ela aprendeu como forma de dar sentido à sua existência. Nesse momento lembrei da Carta de Paulo, o apóstolo de Jesus, aos coríntios, onde diz: “ Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine.
E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse amor, nada seria.
E ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.(…) O amor jamais acaba; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos;
mas, quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado.(…) Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido.”

Entendi então que a única coisa que faltou a Lucy foi o amor, ou a sua compreensão, ainda que seu último gesto tenha sido altruísta, ela o fez mais por continuidade da espécie e manutenção da vida do que por amor, talvez justamente por não ter chegado ao ponto de compreender que sem ele nada vale a pena. Infelizmente muitos de nós ainda agimos como Lucy, e, sem entendermos a importância do amor, privilegiamos as conquistas da razão, buscando o sentido da vida sem saber onde encontra-lo. Se soubéssemos logo que o sentido dela não está no que se sabe, nem no que se usufrui, apenas no que se ama, já teríamos encontrado a felicidade.

 

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS