quinta-feira, 20 jun 2019
Administração

Todos os cachorros da minha vida

Tive a grata oportunidade de, em 2014, tirar das ruas, e da morte certa, um belo cãozinho, que hoje se chama Guerreiro, depois vocês entenderão o porque do nome; esse animalzinho entrou em minha vida literalmente por acidente. Estava saindo da casa de um amigo quando vi, no meio de uma avenida movimentada, Guerreiro, caído e sem  sentidos, os carros passavam velozmente a poucos centímetros de seu corpo magro e vi que a qualquer momento algum iria acerta-lo e deixa-lo em frangalhos como tantos outros que vemos pelas ruas todos os dias. Achando que já estava morto apenas lamentei e já ia seguir meu caminho quando ao olhar para ele de novo o vi, tentando levantar nas patas dianteiras, as patas traseiras paralisadas por um quadril visivelmente quebrado, a boca ensanguentada, os imensos olhos castanhos refletindo10687089_886502261373498_5874173528429744929_n os faróis dos carros que passavam velozes, mas que me chamaram a atenção pela dignidade de que estavam carregados, não transmitiam medo, nem dor, apenas resignação.

Num ímpeto, manobrei meu carro velozmente e o coloquei na via, impedindo que os veículos que se aproximavam se chocassem com o bravo animalzinho. Neste momento outros carros também pararam com curiosos e deles saltaram pessoas que vi estarem solidárias com o sofrimento do cão, pedi que um deles, um rapaz, me ajudasse a coloca-lo no meu porta-malas para leva-lo a um pronto-socorro, nesse momento ouvi algo inesperado, um “muito obrigado” como se aquele jovem fosse tocado por algo que o sensibilizou. Corri ao pronto-socorro e lá Guerreiro continuou sem dar nenhum reclame, não chorava, não gania, nem ameaçava morder, continuava digno em seu sofrimento. Foi medicado e feito um raio-X, que mostrou que seu quadril estava fraturado em três lugares.

Após alguns dias e algumas avaliações o prognóstico dos veterinários foi dos piores, Guerreiro possivelmente não iria recuperar o movimento das pernas e iria ter incontinência fecal e urinária permanentemente, o que lhe traria um grande sofrimento e seria muito trabalhoso para nós, a orientação deles era que seria melhor para todos sacrifica-lo. Saí da clínica arrasado, fiquei de dar-lhes a resposta no dia seguinte, e em minha mente vieram à memória todos os cachorros da minha vida; principalmente os dois que mais me marcaram.

O primeiro de que lembrei foi um pequeno vira-latas malhado que encontrei na rua e quis criar, meu pai não concordou e findei deixando-o em um mercado de minha cidade. Pouco tempo depois em visita ao mercado o cachorrinho me viu e reconheceu quando estava saindo de carro, saí correndo e ele corria atrás velozmente, mas não me alcançou, nunca me perdoei por ter feito isso, abandonando-o. O segundo foi Jack, outro vira-latas que deixaram em frente à uma casa de minha propriedade que visitava eventualmente, deixei-o com o caseiro para cria-lo, cresceu forte e bonito. Muito feroz, sempre me reconhecia e me recebia com uma enorme alegria toda vez que me via. Um dia o envenenaram, e ele morreu só, não me dei tempo de ir visita-lo, isso também me trouxe uma culpa irreparável, porque não cuidei melhor dele que me amava tanto?

Pensando nisso orei por Guerreiro, olhando em seus olhos e pensando no seu sacrifício antes de sair da clínica, tive a certeza de que vi ali compreensão, ele parecia dizer que me entendia e aos meus motivos. Mas eu mesmo não aceitava isso. E orei mais, nunca havia orado por um animal antes, e pedi um milagre por ele. Não tinha coragem de mata-lo, já havia errado antes e não iria errar mais, nem que para isso tivesse que cuidar dele até enquanto Deus quisesse. E Deus quis.

Na dia seguinte voltei à clínica, seguro da minha resposta, disse ao veterinário que iria leva-lo para cuidar dele, o sacrifício não seria uma opção. E assim foi feito, depois de uma semana fui buscar-lo, Guerreiro estava atento e disposto, ainda de fralda. Comprei mais algumas fraldas e outros apetrechos para seu cuidado e o coloquei no carro com auxílio de minha esposa. Para minha surpresa ele já queria ficar de pé dentro do carro mesmo. Nas semanas seguintes guerreiro se recuperou com uma velocidade impressionante, deixou de precisar de fraldas, ficou sem nenhum tipo de incontinência e apenas mancava de uma pata traseira quebrada em recuperação. Após aproximadamente três meses estava completamente recuperado e hoje é o cachorro mais feliz e hiperativo que eu já vi na vida. Agradeço a Deus a oportunidade de me redimir pelos cães com quem falhei, afinal eles também são seus filhos, dando uma nova chance à Guerreiro de ter uma vida feliz.

 

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS