quarta-feira, 24 abr 2019
Administração

Ser autêntico

Sempre notei nas pessoas uma necessidade muito grande de parecerem para os outros, e elas mesmas, serem muito autênticas; tanto que uma das ofensas mais comuns que ouço é justamente seu oposto: o de se chamar alguém de “falso”, quer dizer não autêntico. Isso me levou a escrever sobre esse assunto que muitas vezes nos confunde e pode ser motivo de angústias internas sérias.

Como ponto de partida posso dizer que todo ser humano é múltiplo, formado por dezenas ou centenas de egos de vidas pelas quais passou e experiências que viveu, até mesmo numa única vida, se quisermos usar esta como exemplo. Quem é  que ao envelhecer não acumula modificações em seus valores e crenças a partir das dores, traumas e decepções que sofreu ao longo de sua história pessoal? Sendo assim não podemos nunca dizer que somos totalmente “autênticos”, como se donos de uma personalidade imutável ou pétrea. Quando encontro alguém assim tenho certeza que estou na presença de alguém doente ou prestes a adoecer, pois a mudança é inerente à vida dentro da dinâmica do existir.

Doentio neste caso é se apegar a conceitos pré-concebidos ou inatos nos quais se acreditam piamente, e em quais se apoiam personalidades que tendem a se colocar no mundo sem estar preparados para as mudanças que estes vai lhes proporcionar, até como provas. Ser autêntico pode ser uma boa escolha, desde que não se apresente como uma base imutável que engesse as nossas potencialidades de evolução. Dentro disso podemos, inclusive, escolher quem podemos e queremos ser, sem perder nossa autenticidade. Se nosso caráter é negativo ou cheio de más tendências, podemos muito bem tentar ser de outra maneira, até “menos autêntica”, mas de alguma forma melhor como seres humanos, para nosso próprio bem e dos que estão à nossa volta. Acredito que muitos irão relutar em fazer isto por acreditar que agindo assim estarão vivendo como uma personagem sem “autenticidade”, mas o que é melhor? Viver deespelho forma criminosamente autêntica ou como uma personagem autenticamente do bem, e até quando essa personagem não vai se tornar em nós mesmos se insistirmos nela?

É bom sempre nos reavaliarmos sobre esse assunto, pode ser muito bem que sob a desculpa de sermos nós mesmos simplesmente estejamos dando vazão à tudo o que temos de pior, assim como podemos disfarçar de qualidades defeitos grotescos. Basta ver o efeito de nossas atitudes nos outros; se eles levam a sofrimento e dor é porque de certeza não compensam ser mantidos, por mais que sejam “autênticos”. Entre esses defeitos podemos ir desde os leves como as pequenas neuroses até os grandes como as piores psicopatias, todos muito autênticos em sua gênese. Mas nada nos impede de os melhorarmos, a não ser nossos próprios pré-conceitos.

Sendo assim podemos observar que não é nada saudável mantermos em nossa personalidade características autenticamente más, ou doentias ou ainda simplesmente defeituosas, mais cedo ou mais tarde pagaremos o preço por tal atitude, e de nada vai adiantar brandirmos argumentos de que fomos apenas sinceros ou nós  mesmos, enfim autênticos; pois os outros podem nos ignorar, nos rejeitar e nos fazer sofrer com os mesmos argumentos, que na verdade não passam de conceitos egoístas baseados em verdades que o ego traz em seu bojo, carregadas de ignorância. Os verdadeiros sábios são aqueles que sabem reconhecer a necessidade que tem de se abrir e se modificar em função de novas verdades, a partir de sua percepção e inteligência. Somente assim poderemos um dia ser autenticamente felizes.

 

 

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS