terça-feira, 17 set 2019
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Amor imperfeito

Na revista brasileira IstoÉ de Abril/2014 saiu uma matéria intitulada “O amor pode ter cura” cujo título me interessou desde o início por tratar um sentimento que nunca sai de moda e ainda mais nesse caso, sendo tratado como se fosse uma doença qualquer, passível de ser “curada”ou tratada. O artigo foi baseado num estudo feito por pesquisadores e neurocientistas da Universidade de Oxford, na Inglaterra que buscam aplacar o sofrimento causado pelo amor, pelo que entendi, relacionado aos casais com algum tipo de problema nessa área. A partir desse ponto inicial da-se partido à uma falácia que confunde amor, paixão, ética, biologia e neurociências que, como sempre nesse tipo de assunto, procura dar um ar científico à assunto tão controverso, como se isso bastasse para satisfazer as angústias humanas.

A partir dessa pretensa base “científica” o artigo procura inicialmente transformar sentimento em patologia, como diz uma pesquisadora italiana: “Os apaixonados e os pacientes que sofrem de Transtorno Obsessivo compulsivo dividem o mesmo tipo de pensamento”. Outra teoria levantada pelo artigo, também embasada nos estudos de Oxford, relaciona dependência de dragas e álcool à mesma bioquímica cerebral que nos dá o prazer, explicando que o amor proporcionado por uma pessoa por  alguém pode chegar a se tornar uma forma de vício.

Até aí o artigo mostra que sentimentos como o amor ou a paixão, de alguma forma são sempre patológicos, podendo levar a sofrimento psíquico e por esse motivo deveriam ser tratados, inclusive listando uma série de medicamentos clip_image001que já podem ser usados nesse sentido. O sentimento, como descrito no artigo, tem  servido a humanidade apenas humanidade como pano de fundo à uma pretensa serventia evolucionária, de preservação da espécie, nos colocando nos mesmo nível dos animais irracionais, apenas diferindo destes na área sentimental, pelo que pude perceber, por parcas nuances sentimentais doentias, de pouca valia real, no fim deixando-nos apenas a herança da doença e como fonte de dor e dependência psíquicas; devo dizer que isso foram as impressões que o artigo me transmitiu, não é exagero meu. Mas o que me preocupou mais foi quando o artigo cita um neurocientista americano, estudioso da neurofisiologia do amor, que busca em seus projetos medicalizar o sentimento com vistas a abolir o formação de vínculos e de laços afetivos, bem como da fidelidade, com a justificativa de que “drogas semelhantes poderão ser dadas às pessoas para manipular seu amor por seus companheiros”.

O inglês Brian Earp, citado no artigo, vai mais longe, dizendo-se otimista quanto à criação de mais recursos anti-amor (o grifo é meu), para se apagar lembranças ruins que levaram ao trauma, “Pode-se imaginar terapia similar sendo usada para apagar a memória do amor” afirma outra antropóloga. Meu queixo caiu. Em todos os casos se justifica o arsenal de recursos e pesquisas na área para os casos em que a relação á claramente prejudicial e precisa ter um ponto final, só não diz quem é que vai decidir isto. O artigo ao final tenta ouvir o outro lado da moeda, ainda que de forma inequivocamente inferior, quando menciona a opinião de uma professora e um filósofo, dos perigos de se medicalizar sentimentos. O problema é a clara desvantagem acadêmica destes frente aos cientistas com vários títulos e formação acadêmica impecável, que deram sustentação ao artigo, assim se tem a nítida impressão de que o escopo do artigo tende facilmente a apoiar a ideia de “patologizar” o nobre sentimento que creio tem uma importância muito maior que apenas ajudar a nos procriarmos.

Nunca foi ético se buscar medicalizar sentimentos naturais, mas com a justificativa de aliviar o sofrimento humano tudo vale, até buscar a anulação de um sentimento tão belo quanto o amor, que apesar de conhecermos de forma imperfeita, ainda é o sentimento mais bonito que conhecemos. Quando digo imperfeito me refiro a quando buscamos no amor pelo outro completarmos aquilo que nos falta, e que muitas vezes não buscamos por puro comodismo, aguardando aquela pessoa que “vai nos fazer felizes”; ou ainda quando o amor se torna um sentimento mesquinho que transformamos em posse, dando vazão ao mais extremado ciúme, este sim doentio.

Amar sem buscar antes evoluirmos como pessoa e aprendermos que precisamos amar de forma sadia e completa nós mesmos, para depois aprendermos a amar alguém, é necessário se quisermos amar sem  sofrer, até porque estas duas palavras não se encaixam sob o mesmo sentido; ninguém deveria amar sofrendo, pois o amor enleva, realiza e faz bem, enquanto o sofrimento é incompletude, falta de sentido e dor. Se ainda não aprendemos a amar de forma sadia isso se deve ao nosso próprio atraso evolucional e de nossas falhas psicológicas que serão corrigidas e melhoradas, como tudo na evolução, à medida que o tempo passe e experimentemos todas as formas de amar; anular isso é de uma ignorância tremenda, pois é muito fácil de ver como as oscilações sentimentais humanas podem trazer grandes benefícios em termos de produção e beleza em todos os campos, principalmente das artes e das letras, transformando experiências muitas vezes fracassadas em versos, pinturas, textos e peças de teatro belíssimas que enriquecem a humanidade, muito mais que quaisquer drogas.  

Ao invés de se tentar o caminho mais fácil, que é drogar os apaixonados ou aqueles que sofrem por um pretenso amor, deveriam aqueles cientistas buscar sanar os problemas realmente doentios do homem como o ciúme, a raiva, a inveja, o ódio, a mágoa e outros que causam um sofrimento muito maior que o amor, em qualquer forma que seja. Analisando toda esta situação fiquei preocupado com o futuro da humanidade; será que isto que chamamos de progresso está nos levando à um desfecho sombrio aonde ao invés de homens mais nos assemelharemos à máquinas pensantes, sem o necessário desenvolvimento emocional que afinal é o que dá sentido à vida? E o que chamamos afinal de amor será que poderá ser manipulado a tal ponto que não mais veremos a sua expressão na face da Terra? Juro que esse tipo de sentimento me causa arrepios. Espero que nossa ignorância não seja tamanha que torne o planeta simples casa de um sem número de robôs que não terão outra pretensão na vida que não seja a mera sobrevivência para procriar sem outras ambições maiores, pois a mola que sempre moveu o homem em direção ao futuro e ao progresso foi a paixão, seja ela por uma ideia, uma família, um trabalho ou até, por um pessoa.

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS