sábado, 21 set 2019
Administração

O derradeiro abraço

Esta semana  perdi uma pessoa muito especial: meu sogro, S. Antônio, uma pessoa que deixou este mundo após 96 anos bem vividos prenhes de sabedoria e amor. Amor principalmente pela família, de quem cuidou com muito esmero e trabalho após ficar viúvo a mais de 40 anos atrás. Pai de 15 filhos (vivos), dá pra imaginar o tamanho da responsabilidade que o acorreu ao se ver frente ao mundo, sozinho, com 8 meninas e 7 meninos para criar, mas o fez com sucesso absoluto. Terminou sua vida de forma muito dolorosa, vítima de um câncer de próstata, que após ficar muitos anos sob controle finalmente cobrou seu preço; seus últimos dias foram praticamente inconsciente, dopado pela morfina e outrosabraço1 medicamentos, não saia mais de sua rede e foi-se ali, dormindo, numa noite em que estava acompanhado como sempre de algumas de suas filhas, que vinham se revezando no seu velar e em deixa-lo mais confortável em suas últimas horas.

Mas em seu desencarne lento e sofrido houve uma coisa boa, ele teve um momento de despedida com cada um dos que amava: filhos, genros, noras, netos e bisnetos, que se revezaram em seu pequeno quarto para dar-lhe seu último adeus. Nessas despedidas uma das coisas que mais me tocou foi ve-lo pedindo o que seria seu “derradeiro abraço”, e aninhava-se ao colo de seus filhos num abraço caloroso e sentido, de quem tinha absoluta consciência de que tão cedo não voltaria a sentir o prazer daquele toque. Isso era deveras emocionante e, mais do que tudo, mostrava o quanto ele ainda tinha de amor para dar mesmo naqueles últimos momentos.

Tudo naquela figura única era especial, de alguém extremamente generoso, mas o que mais impressionou foi a lucidez e sabedoria que manteve até poucos dias antes de morrer, e a cada um que chegava ele sempre tirava algo de sábio para dividir; uma das coisas que ouvi dele foi que: “a vida é boa para quem sabe viver” e ‘’o amor é melhor que dinheiro’’; coisas simples, meio óbvias, mas difíceis de se aplicar quando temos sempre dado prioridade ao nosso sucesso material, e ao que o dinheiro pode comprar de melhor, e que frequentemente nos provamos ao nos irritarmos e deprimirmos aos menores revezes da vida. Essas foram algumas de muitas das pérolas que soltou nos seus últimos dias, sempre querendo ajudar quem ainda não tinha descoberto, como ele, o sentido da vida. Apesar de ser avesso a qualquer religião vou me dar a liberdade de compara-lo aqui a uma figura bíblica, Abraão, o grande patriarca, que como ele, tinha tudo e deixou esse tudo, suas posses, seu status, a vida confortável onde vivia, a fim de buscar um novo destino, principalmente por generosidade à seus filhos, sua descendência. 

Todas as lições que ele nos deixou talvez estivessem reunidas naqueles “derradeiros abraços”, o amor, o desejo de partilhar, a vontade de mostrar o quanto a vida era preciosa e deveria ser vivida com sabedoria e prazer, e principalmente, sua generosidade. Coisas que nunca mais vou esquecer, assim como todos os que partilharam com ele de seus últimos dias. Aqueles derradeiros abraços foram muito mais do que simples demonstração de carinho, foram talvez, o mais belo presente que ele poderia dar à quem amava, pois não havia mais nada que ele já não houvesse lhes dado de forma completa e abnegada por toda a vida.

Morreu como viveu, cheio de amor e sabedoria, sorvendo do presente divino que é a vida até sua última gota, sofreu pelas dores do corpo, mas estava com a alma leve como uma brisa, rindo e brincando a cada pequenina melhora, sabendo que cumpriu todos os seus deveres como pai, marido, amigo e homem. Foi-se sem arrependimentos, nem amarguras, orando, quem diria.. e agradecendo por tudo o que pode fazer e criar. Boa viagem S. Antônio, vá em paz e desfrute do descanso que tanto mereceu, saiba que sua vida, mais do que qualquer outra coisa, nos alegrou pelo que pudemos aprender com você e isso não será esquecido jamais; até breve, pois a jornada de nosso espírito fatalmente nos levará para estarmos juntos de novo aprendendo cada vez mais sob o olhar do Maior pai de todos, Deus.

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1 Comentário

  1. Linda homenagem, Ney. Ao ler seu texto lembrei muito do meu pai que se despediu da vida, da mesma forma, abraçando cada um dos filhos e netos e sempre agradecendo. É até triste admitirmos essa realidade, mas a verdade é que estamos ainda presos à necessidade de aprender pela dor. Escapamos da morte quantas vezes for preciso, mas da vida nunca nos livraremos dela. Saudade é uma dor
    que fere nos dois mundos. O corpo quase sempre sofre mais durante a vida do que no momento da morte; a Alma nenhuma parte toma nisso. Os sofrimentos que algumas vezes se experimentam no instante da morte são um gozo para o Espírito que se vê chegar o termo do seu exílio. A morte é apenas a destruição do corpo e não do períspirito, que se separa do corpo quando nele cessa a vida orgânica. Muita Paz e Luz do Grande e Divino Mestre Jesus! Para o nosso amado Seu Antônio.

 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS