domingo, 25 ago 2019
Administração

Padrões

Dentre as várias coisas que tenho aprendido nos últimos anos de trabalho com a TVP é a de que vivemos, e muitas vezes morremos, por padrões de comportamento adquiridos em muitas vidas atrás; seja por traumas, sofrimentos ou simples opção, o espírito vive hoje das escolhas e dores que ficaram marcadas no seu íntimo e que continuam a guia-lo em suas novas vidas, de forma inconsciente. Isso serviu para fundamentar em grande parte a crença que carrego comigo de que realmente já atuamos em muitas vidas com outros nomes e corpos, ou de que a morte não existe, apenas trocamos de corpo e épocas, mas sempre carregando dentro de nós a consciência maior que podemos chamar de espírito.

Observei que o resultado alcançado na terapia está intimamente relacionado ao grau de sucesso que temos nas respostas que obtemos do inconsciente dos pacientes, e este tem características que impressionam qualquer estudioso da mente humana; a começar pela sua capacidade aparentemente infinita de armazenamento de informações e ordenamento delas, exemplo: cada sessão que fazemos de regressão nos traz uma vida revivida, se forem 10,30,100 ou mais vidas, todas serão diferentes em situações, épocas e personagens que são independentes entre si, apesar de partilharem da mesma consciência, além disso em TODAS, a ordem cronológica dos fatos como acontecimentos importantes, nascimentos e mortes, casamentos, mudanças, etc. seguem uma ordem que o paciente não teria como construir conscientemente, a não ser com um trabalho muito bem elaborado e árduo, com bastante tempo disponível, e não nos poucos minutos que dispõe numa regressão. Outra coisa que impressiona é a sapiência dessa mente por trás da mente: a sua sabedoria, que se manifesta nas escolhas que faz ao resgatar do esquecimento, de décadas ou séculos atrás, para o mundo consciente lembranças que em sua totalidade trazem alívio, conforto, e não poucas vezes, a cura.

Esse tipo de comprovação aconteceu com minha paciente A.F neste ano. Ela já vem fazendo o tratamento com TVP à alguns meses com um sucesso muito relevante, mas uma coisa ainda a incomoda: a sensação de que sempre terá de conviver com a solidão e que está fadada a não encontrar ninguém para dividir a vida; isso a faz infeliz e incompleta, sem conseguir ter nenhum romance ou namorado na vida. Ao elaborar a ficha que uso para guiar as regressões dos pacientes me deparei com padrões e intuições negativas que sempre lhe assombram a mente, dentre elas algumas eram mais frequentes: “Eu não mereço ser feliz”, “Estou fadada a morrer só” e “Não mereço um bom parceiro”. Além dessas intuições sente também uma tristeza constante como se não tivesse mais esperanças de ser feliz. Em sua décima segunda regressão alguns desses padrões se explicaram, vou contar o que aconteceu para que vocês possam entender o que é isso.Mulher passeando em campo florido_

Na regressão seu personagem era uma moça muito bonita que vivia na área rural de um país latino, no que parecia ser o século XIX. Aos 19 anos ela se casou num casamento arranjado por sua família, mas que lhe satisfez, pois se sentiu com um status elevado ao se unir a um rapaz educado e rico que conhecia desde a infância. Após o casamento sua vida transcorreu bem, ele era carinhoso e trabalhador; o problema é que era ocupado demais e não lhe dava atenção, isso com o tempo foi piorando, com ele cada vez mais ocupado e distante, lhe deixando só muitas vezes e com toda a responsabilidade do lar, em meio a mulheres fúteis que só pensavam em etiqueta e nos vestidos que iriam comprar, importunando-a o tempo todo querendo saber se não ia ter filhos. “Me sentia presa por todas essas normas, não era essa vida que queria para mim”.

Após um curto período de tempo findou se sentindo atraída por um dos empregados da fazenda, ele lhe olhava constantemente e isso foi mexendo com sua auto-estima, começou a se sentir envaidecida e desejada, assim, apesar de tentar resistir aos seus impulsos, terminou por se tornar amante do empregado. Se sentia com culpa por isso, mas também livre das convenções e de tudo, isso durou algum tempo até que seu marido começou a desconfiar e, mesmo sem ter comprovado nada, mandou expulsar o empregado da fazenda e tornou-se diferente. “Sinto a reprovação nos seus olhos e indiferença, parece que não existo, ele passou a me tratar assim até que findei morrendo de tuberculose com 42 anos. Enquanto permaneci doente meu marido cuidou de mim o tempo todo. Queria lhe pedir perdão, mas não tinha coragem de admitir para ele, que foi tão bom para mim, o que fiz. Depois que morri ele me segurou em seus braços, me sacode e chora sobre meu corpo”.

Nessa fase da regressão começaram a surgir os padrões que identificamos nela hoje e ainda lhe fazem sofrer depois de tanto tempo: “Seria melhor que eu vivesse só, para não ferir as pessoas daquele jeito”—  Pensou logo depois que morreu — “Nunca mais quero sentir uma culpa tão grande, tive alguns momentos de prazer, mas muito mais culpa. Não quero buscar mais homem nenhum na minha vida” – Dito isso repetiu duas vezes: “Eu não mereço mesmo” – “Seu perdão, sua confiança” — Aí completou o padrão que ficou gravado até hoje: “Não mereço ter homem nenhum ao meu lado”. Vendo isso ocorrer na regressão lembrei de uma frase que ouvi de seus lábios algum tempo antes : “Eu necessito de perdão” aí o ciclo se fechou. Conversando com ela logo depois da regressão fomos percebendo o quanto aquela vivência lhe afetava até hoje, e quanto ela se tornou sua própria carcereira se negando o perdão pelos erros que cometeu; ao entender isso no fim da regressão disse que sentia como se pequenos “choques”se desprendessem dela, parecendo que liberava algo energético. Creio que isso foi a libertação que ela mesmo se deu, o perdão que tanto necessitava, o seu próprio, e a liberação de suas culpas. Depois disso tudo ela passou a entender melhor sua personalidade e modo de agir, entendendo que é possível ser feliz, passando a ter na vida uma nova postura e deixando no passado aqueles padrões de dor e culpa que lhe atrapalhavam até hoje.

 

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS