quarta-feira, 24 abr 2019
Administração

Materialismo e fé

Li esse mês um artigo muito interessante na revista brasileira Psique, em seu número 97, ano VII, de autoria de Marcelo Luiz intitulado “Quem precisa de religião?”. Gostaria de dividir algumas partes dele com vocês pois poucas vezes vi escreverem tão bem sobre assuntos de fé e religião. Vai a seguir um trecho que achei dos melhores.

“Durante a primeira década deste século, as vozes antirreligiosas ampliaram seu alcance por meio dos livros e debates divulgados pelos “Cavaleiros do ateísmo”. Entre eles, encontram-se Richard Dawkins, autor do livro Deus um delírio; o filósofo e neurocientista estadunidense Sam Harris, que escreveu A Morte da Fé; o jornalista britânico Christopher Hitchens (1949-2011), autor da obra Deus Não é Grande: Como a religião envenena tudo. Estes autores questionaram os supostos benefícios da religião retirando a incredulidade da condição de tabu. Entretanto na ânsia de denunciar as inconsistências lógicas dos discursos religiosos, os cavaleiros do ateísmo apontam os canhões de sua argumentação contra as religiões monoteístas a afirmam solenemente a inexistência de Deus, estabelecendo um novo dogma, desta vez e nome da ciência. Embora advoguem o exercício da razão esclarecedora, as abordagens do ateísmo militante frequentemente se mostram intolerantes ao fazerem uso apaixonado de jargões ofensivos, tiradas sarcásticas e piadas humilhantes contra os religiosos. O resultado acaba sendo o acirramento do fanatismo religioso e a demonstração de que emoção e intemperança não são boas companheiras da razão. No entanto, o ponto mais criticável do ateísmo é a absoluta redução que este faz da consciência humana à matéria. A fim de eliminar as crendices supersticiosas, os rituais escravizantes e as interpretações humanas da divindade, os pesquisadores ateus acabam considerando como absurda qualquer possibilidade da transcendência do espírito sobre o corpo”fé e razão

Ao ler esse tópico do artigo lembrei de um sem número de artigos escritos por supostos materialistas, anti-religiosos e/ou ateus e realmente não há como deixar de notar que exalam de suas palavras um ranço irônico, cheio de uma imensa  soberba, que traduz-se muitas vezes na mais profunda ignorância e presunção de se achar detentor de um conhecimento muito além dos “pobres ignorantes” que eventualmente não partilham de sua descrença; mas mais do que isso noto por baixo de tudo uma mágoa, um orgulho ferido de quem, talvez em algum momento, tenha sofrido por alguma crença ou religião e isso lhes transformou nos paladinos da descrença e falta de fé que temos no mundo de hoje. Muitas vezes é difícil fazer a distinção entre religião e a fé, ou mesmo se é possível ter fé sem que essa esteja atrelada à algum credo religioso; vou dar minha versão, que vai ser mais uma entre milhares, mas que pode ajudar no entendimento desse tema, mas antes vou me apresentar a vocês.

Como não tive formação religiosa formal nenhuma, excetuando-se alguns preceitos católicos na fase escolar como primeira comunhão e crisma, findei me tornando um adulto que nunca cultuou nenhuma forma de religiosidade, chegado inclusive a ter um verdadeiro preconceito com as pessoas que buscavam esses cultos que julgava meras formas de exploração de mentes mais fracas e os crentes, indivíduos sem condições de enfrentar a vida sem a muleta da crença religiosa, não chegava a ser ateu, mas era extremamente cético; mas para minha própria surpresa amadureci a mudei, graças a Deus, e isso chega a ser irônico, mas o mais interessante é que mudei e passei a ter mais fé e ser mais espiritualizado sem ter que me afiliar a nenhuma religião formal, a única coisas que fiz foi me aprofundar nos assuntos ligados aos temas que me pareciam transcender a simples existência material, nessa busca por conhecimento encontrei muita coisa, principalmente na literatura espírita, que por ter várias coincidências com os relatos que via de meus pacientes me pareceu bastante crível. Assim fui evoluindo e assumindo uma nova postura que me fez com o tempo passar a encontrar naquela doutrina algo que poderia ser o mais próximo de uma religião que conheci e que a partir de determinada época passou a fazer parte de minha vida, que se tornou “espiritualizada”, por assim dizer.

Percebi com essas mudanças que a partir do momento e que nos tornamos menos materialistas despertamos nossa sensibilidade às forças imanentes do Universo e assim podemos receber delas uma força e sabedoria que ultrapassam os limites da simples razão, passam a fazer parte do reino da intuição, das para-percepções e finalmente da fé; e isso independe de qualquer religião, apesar de poder estar ligado à qualquer uma delas, que neste caso atuariam como catalizadores de nosso conjunto de forças e energias vitais no sentido de tornar-nos mais integrados ao universo que nos cerca e à todas as formas sutis de existência, que podemos muito bem chamar de espiritualidade. Infelizmente isso ainda não é bem compreendido, inclusive pelos próprios profissionais que lidam com saúde mental, e que ainda consideram que associar um enfoque mais holístico de seus clientes seria misturar ciência e religião, esquecendo-se de que se não atentarmos com cuidado ao ser espiritual que também faz parte de nosso existir não estaremos cuidando de nossa saúde, e da de nossos clientes como deveríamos, possivelmente prejudicando o resultado dos tratamentos pela nossa própria ignorância, e porque não dizer, falta de fé.

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS