terça-feira, 17 set 2019
Administração

Nada contra Deus

Acabei de ler um livro interessantíssimo, chama-se “Por que o mundo existe”, do escritor americano Jim Holt; já me devia essa leitura a alguns meses depois que assistir uma entrevista do autor a um programa da Globo News. Bem, agora consegui, e o que li me impressionou e esclareceu muito sobre o entendimento atual a respeito do que os intelectuais e cientistas, principalmente os ateus, pensam a respeito do porque da existência, e é sobre essas afirmações que vou tecer as reflexões que acho necessárias sobre isso em bases mais crédulas, por assim dizer.

Notei em algumas passagens do livro que o autor, por vários motivos, desenvolveu uma aversão e mesmo um terror à morte,  no sentido da finitude total e  completa que essa pode assumir, da perda completa de identidade e inutilidade diante de forças cósmicas esmagadoras e inevitáveis; esta impotência se transmite no livro na forma de um pessimismo grandiloquente que se mostra a cada linha escrita, indisfarçável, por mais que o inteligente autor procure faze-lo com afirmações de um humorismo ácido ou pontuar o texto com citações um pouco mais otimistas de outros autores. O nome que o Jim Holt dá a esse estado é terror cósmico, que segundo ele, seria um medo da vida se transformar em nada a qualquer momento e da nossa existência sair do nada e acabar na morte; sendo que nossa vida o tempo todo estaria permeada pelo “temor iminente do não ser” (SIC).

jim HoltA parte inicial do livro passeia sobre as bases ontológicas da existência do nada, entre divergências e contradições filosóficas e religiosas e, ao final de muuuuitas explicações e exemplos, baseados principalmente em critérios físicos e matemáticos, Jim Holt parece, de forma muito convincente, demonstrar que toda a criação não foi nada além de um mero acidente, um acaso estatístico. Resta ao fim dessa introdução uma coisa como um sabor amargo, ou um ranço, de que a vida e a existência não passam de coisas absolutamente banais e sem um propósito real, que seria fruto daquele pessimismo que falei no início. A seguir vem toda uma dissertação muito bem embasada e apoiada por eminentes físicos e intelectuais dos porquês da impossibilidade da existência de Deus e de sua falibilidade, segundo suas próprias teorias.

Muito esclarecedora nessa primeira parte do livro é a diferença entre o nada filosófico e o nada físico, bem explicado, o chamado vácuo quântico, ou nada físico, se distingue em muito do nada absoluto postulado pela filosofia, que compreenderia a ausência total de qualquer estrutura, assim chegamos afinal à metade do livro, quando as coisas começas a ficar melhores; saímos dos domínios da mecânica quântica e da absoluta frieza dos números com o autor explorando outras vertentes do ser e do saber. A mais interessante a meu ver foi a teoria aventada por alguns estudiosos de que o que conhecemos como realidade nada mais é do que uma substância ou construção mental, a nível individual e coletivo, com várias consequências e interconexões entre os seres; segundo um dos entrevistados “A verdadeira unidade orgânica (…) só se realiza na consciência”. A partir deste ponto também temos uma exploração filosófica de conceitos mais abstratos relacionados à nossa existência, sendo o que me chamou mais a atenção foi o ligado à bondade, não num sentido piegas do termo, mas num sentido profundo, de motivação de toda a criação, o que no livro é motivo de debates e discordâncias acaloradas.

Um dos intelectuais citados no livro, John Updike, diz o seguinte: “E na verdade existe uma cor, uma tranquila mas incansável bondade que as coisas em repouso, como uma parede de tijolos ou uma pequena pedra, parecem afirmar”. É dele também uma das melhores advertências do livro: “Nós racionalistas aceitamos proposições sobre o início do universo que soam mais absurdas que qualquer milagre da Bíblia (…) A ideia de que o universo, incomensuravelmente vasto como parece ser, estivesse em dado momento comprimido num minúsculo espaço – num minúsculo ponto – é de fato muito difícil de acreditar. Não estou dizendo que seja capaz de refutar as equações que escoram essa ideia. Digo só que também não deixa de ser um questão de fé aceita-la”.

Não faltam no livro diferentes abordagens e o autor tem o mérito de procurar ouvir opiniões de todos os tipos de forma quase imparcial, só não tem mais sucesso devido ao negativismo pungente que transparece aqui e acolá: “Assim do ponto de vista do cosmos, minha existência não tem significado, sentido, necessidade (…) Eu sou uma coisa acidental, contingente. Poderia facilmente não ter existido” ou “E se for uma vida de constante sofrimento e insuportável tédio? Não seria preferível a não existência?”.

Aparentemente conformado afirma que:  “Não fico surpreso com minha desimportância cósmica. Não tenho qualquer dificuldade em me ver como um “ponto insignificante”. Mas sinceramente, acho que ele tem uma dificuldades sim, e muitas; sua dificuldade principal começa pelo seu medo da morte e da finitude, que acredito serviu de real inspiração ao livro, depois passa pela dificuldade de aceitar que não consegue entender o universo e seu propósito; no fim seu aparente conformismo a meu ver nada mais é do que uma enorme sensação de impotência frente à algo muito maior e mais incompreensível do que ele gostaria de admitir e minha impressão é a de que o autor sofre do mal que atinge uma grande parcela da humanidade desde que tomamos consciência de nosso ser no universo, a melancolia; que tira a nossa capacidade de ver o sentido da vida como um todo e de nossa existência em particular; e que tem movido escritores, poetas, cientistas e filósofos ao longo dos séculos em busca de respostas que afinal estão apenas dentro deles mesmos.

O assunto do livro tende sempre a voltar ao nada filosófico, como se este fosse a mais perfeita, simples e lógica forma de estar universal, incluindo-se nisso vários ataques à qualquer ideia de que Deus seria uma variável tanto possível como necessária (segundo ele um ser 100% malévolo, mas apenas 80% eficiente) ; dando a entender que partilha o ponto de vista dos ateus de que o universo não tem origem em uma causa inteligente primária ou em alguém que poderíamos chamar de Deus, Jim Holt apresenta provas matemáticas, sem a certeza de que sejam elas mesmas verdadeiras, ao mesmo tempo em que exige provas de que seria muito mais coerente a existência do vazio e do nada à de tudo o que nos cerca; por isso vejo a necessidade de tecer alguns comentários aqui sobre o que poderia de esperar de um “nada” qualquer como forma existir do universo, apesar de achar uma completa inutilidade duelar com essa possibilidade ele a qualquer nível, pois como salta aos olhos o nada, como possibilidade concreta, não existe .

Um cosmologista citado em seu livro, John Leslie, porém lhe dá uma simples explicação que considero a mais completa do livro sobre a absoluta prevalência da criação inteligente sobre o nada universal: “Eu  sempre fico espantado quando as pessoas dizem: “Mas não existe qualquer prova do que você está dizendo”. Respondo que existe um prova bem impressionante; o fato de existir um mundo e não apenas um vazio. Por que elas descartam isso? A simples existência de algo no lugar de nada clama por explicação”. Partilho da mesma opinião, se tiver de buscar explicações ao universo vou iniciar essa busca pelo mais óbvio, à minha volta e que salta aos meus olhos, isto é muito mais contundente do que qualquer argumento, e se por acaso eu não encontrar a explicação para algo pode ser por que simplesmente minha capacidade intelectual não me permita tal aventura.

O orgulho dos homens pontua ao longo dos milênios como uma erva daninha que se alastra e emaranha no coração da humanidade, não basta-nos o presente da vida e da consciência, gostaríamos de estar acima de tudo e de todos, inclusive de Deus, por isso talvez esse desconforto com nossa aparente “insignificância” perante o cosmos, o aparente conformismo do cientista nada mais é do que uma enorme sensação de impotência frente a uma realidade muito maior do que ele, e, pior para seu orgulho, incompreensível, muito além de suas ( e nossas ) pobres capacidades intelectuais. Tivesse ele um pouco de humildade veria que a morte não anula o presente da vida, que os males do mundo não obscurecem o bem que podemos cultivar em cada ato, que a enormidade do cosmos nada seria sem ninguém para contempla-la e a existência de Deus não exclui a dor e o sofrimento, pois este provem de nossos próprios atos. Pobre Jim Holt, tem tanto medo da morte e não percebeu ainda que já está morto em vida; morreu quando morreram também seu otimismo, sua alegria, sua satisfação, sua esperança em si mesmo e na humanidade e tudo o mais que pudesse lhe trazer um pouco de felicidade.

Finalizo com uma frase de seu próprio livro creditada a Allan Sandage, o pai da astronomia moderna: “A ciência não tem com responder às perguntas mais profundas. A partir do momento em que perguntamos porque existe algo e não apenas o nada, fomos além da ciência”

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS