terça-feira, 17 set 2019
Administração

Morrer como um passarinho

Caminhando pela praia a poucos dias fui surpreendido com uma cena inusitada, um pequenino pássaro caiu agonizante das árvores e veio rolando até quase meus pés; imaginando o que poderia terpassaros libertos acontecido recolhi-o em minha mãos delicadamente e observei-o para ver se estava ferido, aparentemente não havia nada que denunciasse algum dano ao pequeno animal, pensei que talvez ele tivesse se chocado com alguma árvore ou agredido por algum animal, mas nada nele confirmava isso. Caminhei mais alguns metros à procura de água para dar a ele na esperança que se recobrasse do choque, encontrei uma torneira perto dos chuveiros públicos e fazendo da mão uma concha coloquei nela seu bico; por instantes ele pareceu se recobrar, se agitou e despertou um pouco, teve algumas convulsões, mas por fim, perdeu todas as forças, relaxou a cabecinha e seus olhos perderam o brilho, neste momento percebi que ele havia morrido. Levei-o a um tronco de árvore velho e quebrado, à sombra de árvores, cercado do gorgolejo dos seus irmãos, depositei o pequeno cadáver numa parte em forma de ninho e me despedi mentalmente dele desejando seu bom retorno à Deus.

Ver a morte do animalzinho numa manhã alegre de sol foi uma contradição e um paradoxo: vida e morte, alegria e tristeza, início e fim; tudo isso me ocorreu naqueles poucos minutos entre a queda do passarinho e seu desfalecimento final em minhas mãos. Fiquei a refletir logo depois sobre a vida e seu fim aparente; em nosso própria finitude e de quando chega a nossa hora final, será que somos tão diferentes assim daquele animal aparentemente tão insignificante? A sua morte não foi tranquila como se imagina, nem como diz o ditado “morrer como um passarinho”, na realidade ela me pareceu como algumas mortes humanas, em meio à convulsões, resistências e agonia; e o pobre animal se foi depois de tentar até o último momento lutar contra o inevitável.

Já acompanhei pacientes em dezenas vidas e mortes pelo processo regressivo que utilizo em terapia, e posso testemunhar que a transição que conhecemos habitualmente como morte nada mais é que uma mudança de estado da consciência, algo a nível de nossas energias e estados mais sutis ou, se quiserem, espirituais. Se o passarinho tem algo parecido com isso eu não posso comprovar, mas suspeito que nossa consciência, tal qual a energia, nunca desaparece, simplesmente se transforma, ou muda de estado. Assim quando depositei o animalzinho no tronco senti a mim mesmo, e a ele, envolvido pela natureza que nos cercava, e isso me fez sentir muito bem, pensei que suas energias estavam retornando à sua origem, o que me trouxe uma sensação de integração e harmonia ao universo. Fiquei com uma sensação de perda e união ao mesmo tempo, de que tive em minhas mãos durante alguns segundos todos os segredos da vida, e a tristeza da morte e, por mais que tenha aprendido ao longo dos últimos anos coisas sobre isso que nunca suspeitaria, a  morte como um fim e uma transformação tão inevitável quanto poderosa, ainda me impressionam, e talvez isso tenha feito com que eu inconscientemente tenha escolhido os caminhos que escolhi.

Possivelmente foi a menor das mortes, do menor dos seres, que presenciei até hoje, mas não foi nem de longe a menos importante ou a que menos me sensibilizou, pelo contrário, ver como a vida pode se expressar de forma tão poderosa e de como o passarinho se agarrava e ela, assistir sua entrega final e sentir a paz que veio daí e o envolveu foi uma experiência que levarei até o fim de meus dias, me relembrando de quando eu não tinha sensibilidade para tal, de como em muitas vidas, a vida alheia teve tão pouca importância para mim e de como eu mesmo evolui. Espero que, como o passarinho, na minha hora derradeira, eu tenha também uma mão amiga a me amparar e me levar a um lugar de paz, perto de meus irmãos e possa assim fazer parte novamente desse universo maravilhoso que nos une e cerca. Vamos à vida, sempre, com asas e liberdade, voando sempre mais alto, e ao final tenhamos todos a morte e a libertação, como o passarinho.

 

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS