quinta-feira, 20 jun 2019
Administração

Laços de afeto

Ontem dei alta a uma paciente em tratamento a pouco mais de 2 anos, em condições especiais que merecem um comentário mais aprofundado. A. F, essa paciente, é uma jovem psicóloga que sofre por um processo de melancolia já a muitos anos e reclama de uma solidão tão profunda quanto dolorosa. Ao longo do tratamento descobrimos que ela nunca conseguiu levar a termo nenhum relacionamento romântico, ficando estes mais a nível de fantasia ou simplesmente platônicos, coisa que também lhe trouxe muito sofrimento levando-a a atualmente preferir não se envolver com ninguém.

Começamos seu tratamento abordando principalmente o tema da solidão e evoluímos lentamente, na medida de suas melhoras, até chegarmos ao tratamento da melancolia, esta como já aprendi, necessita de um longo período, anos mesmo, de terapia para poder ser curada ou pelo menos deixar de ser fonte de angústia e dor, mas infelizmente não chegamos a esse ponto. O aprofundamento necessário para chegarmos ao entendimento das causas pretéritas desse estado não foi conseguido e ela, entre o pessimista e desencantada, mas se dizendo realista resolveu parar com a terapia; por esse motivo tive que dar-lhe a alta, mesmo que provisória. O fiz lamentando a situação, pois tinha grandes esperanças de que ela conseguiria chegar ao termo da terapia, até pelas melhoras apresentadas, admitidas por ela mesma, mas não deu.

O que ficou de bom disso tudo foi o afeto que nos uniu, desenvolvemos um carinho e respeito mútuo muito grandes, que independem de qualquer terapia e posso dizer que se perdi uma paciente ganhei uma amiga. Espero sinceramente que esse período de afastamento lhe sirva para melhor pensar e comparar sua vida hoje e antes da terapia, para que ela possa se ancorar melhor na vida e conseguir desitirsuperar seus próprios obstáculos. Esses muitas das vezes são criados por nós mesmos, e podem ser de vários tipos: a desesperança, a falta de vontade, o excesso de racionalismo, o próprio pessimismo em relação ao mundo e a si mesmos, ou simplesmente, se entregar ao cansaço de lutar para sobreviver melhor, deixando a vida ao sabor dos acontecimentos. Em terapia procuramos ajudar o paciente a superar todas essas dificuldades, mas não podemos tomar o seu lugar e fazer suas escolhas, estas, bem como suas consequências, são próprias e exclusivas de cada um, assim só podemos ficar vendo o desenrolar dos fatos .

Estar no mundo numa jornada espiritual de aprendizado, requer muita força de vontade, fé e otimismo frente às dificuldades, de nada adianta ficar sentindo pena de si mesmo perdendo tempo e energia com isso, se não quisermos, ou não tivermos a vontade e a fé necessárias para enfrentar os obstáculos do mundo exterior e os nossos próprios fantasmas, seremos mais um a cair no meio do caminho. Não creio ser esse o caso de minha paciente, uma mulher inteligente e talentosa, mas com vocação para a solidão e as dores que daí podem surgir; como sempre vou apenas aguardar, e torcer, para que sua vontade supere sua descrença em que pode melhorar e ser feliz.

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1 Comentário

  1. Ney, tens minha amizade com toda a certeza. Estou refletindo em meu processo e em suas afetuosas palavras. Obrigada por tudo.

 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS