terça-feira, 17 set 2019
Administração

Carma que não se apaga

Ontem tive mais uma prova de que o Carma é uma coisa real, nos vinculando a erros e atitudes no passado que levaram sofrimento aos nossos semelhantes, por falhas de nós mesmos. Vou lhes contar o que aconteceu.

L. é uma moça de apenas 20 anos que veio se tratar a algumas semanas com pensamentos obsessivos sobre acidentes, incêndios e a impressão de que iria perder suas pernas em algum acidente automobilístico, além disso reclamava de músicas que ficavam “tocando” intermitentemente em seus pensamentos, chegando inclusive a impedi-la de dormir direito. Esses sintomas começaram 2 anos atrás após ter perdido o pai num incêndio, na casa onde às vezes ela passava alguns dias com ele, pois havia se separado de sua mãe já a alguns anos. Isso me fez pensar de imediato em se tratar de mais um caso de stress pós-traumático, mas lá pela quarta sessão eu mudei de idéia; algumas coisas não me incentivavam a ir por este caminho, nem ajudavam a fechar o diagnóstico,

Com muitos pensamentos intrusivos, alguns suicidas, e intuições negativas frequentes (pensamentos relacionados a atos e atitudes que levam, ou podem levar, o paciente à grande sofrimento psíquico) tinha alguns sintomas que poderiam ser associados à esquizofrenia,  além daquelas alucinações auditivas, por exemplo: delírios e sensações corporais estranhas e algumas manias.Tudo isso ainda se somava a uma irritação e raiva constantes com uma tristeza diária descrita por ela como uma saudade indefinível. Além disso tinha episódios frequentes de uma melancolia profunda. Fomos avançando em seu tratamento até iniciarmos as regressões de memória, e, logo na primeira, entendemos várias coisas juntos; vou contar como foi a regressão para que vocês entendam também.

O inconsciente da paciente a levou até o que ela situou como século XVIII e lá se viu Belle Epoquecomo uma mulher jovem, loura, magra e bonita, num parque bonito e muito florido, onde havia uma ponte de madeira. Era um dia bonito e ela estava vestindo roupas de época, com sombrinha e chapéu, assim como as outras mulheres que passeavam por ali. Logo após descrever esta cena me disse que surgiu em sua mente a palavra “Belle Époque” e “França”, mas não sabia do que se tratava isto. Ainda lembrando viu-se no que seria seu quarto, numa casa rica, se olhando num espelho grande. Vieram também à sua memória a imagem de duas pessoas, uma era uma negra por quem sentiu que nutria um sentimento de raiva, por estar tendo um caso com seu marido da época, a outra foi uma menininha de uns 4 anos, loura e branquinha, que identificou como sua filha, por quem tinha um cuidado e um amor muito grandes.

Nos momentos em que estava naquele quarto sentia-se preocupada e triste, com a intuição que iria perder sua filha, pensando que seu marido talvez a quisesse tirar dela. Ele era um homem de meia idade, de cabelos pretos, muito rico, e, ao perguntar-lhe o motivo dele querer lhe fazer isso, ela me respondeu que estava relacionado ao caso amoroso que ele estava tendo com aquela negra. E mencionou que ele parecia com seu pai atual. Aqui cabe um parêntese importante.

Com seu pai na existência atual ela teve uma convivência conturbada, ele era extremamente violento e agressivo chegando a lhe agredir fisicamente em diversas oportunidades, afora isto ainda lhe assediou sexualmente desde criança. Ela desde o início do tratamento me contou que sentia um ódio profundo por ele, mesmo depois de sua morte, aparentemente ele ter morrido não havia sido suficiente para apagar as marcas das agressões que sofreu.

Seguindo a regressão, ela já se viu grávida, fugindo à noite, em meio a floresta, junto com sua filhinha, ouvindo barulho de cavalos que  lhe perseguiam; em dado momento sentiu-se atingida por um deles, caindo no chão. Notou que morreu pouco depois ali, mas não conseguia deixar o corpo, e o que aconteceu a seguir foi deveras chocante. Ela me relatou que aqueles homens que a estavam perseguindo, a mando de seu marido, e imediatamente depois dela ter caído tocaram fogo no seu corpo, ela sentiu seu corpo queimando e encarquilhando, ouviu o barulho de sua pele sendo queimada, e percebeu-se diminuindo. Ao falar isto manifestava muito desconforto e angústia. Para piorar, como ela sentiu tudo isso sem poder se desligar do corpo, cheguei à conclusão aterradora de que ela foi queimada ainda viva, passando por toda aquela dor e desconforto até realmente morrer.

Contando isso ela notou que a parte mais atingida pelo dano e pelo fogo em foram suas pernas, foi como se os cavalos tivessem passado em cima delas. Seu corpo ficou ali, jogado no meio da mata, com algumas partes mais queimadas do que outras, numa cena em que ela relutou para descrever,e, mesmo tendo se desligado do corpo,  continuava sentindo-o encarquilhar-se. Seu espírito, logo após aqueles momentos, vendo aquilo sentiu uma raiva muito grande daquele que foi seu marido lá, e, de forma pungente, uma saudade enorme de sua filha, que mais tarde me disse chamar-se Anita, um nome aliás, que sempre surgia do nada em sua mente atualmente.

Notei nessa história várias implicações cármicas, por exemplo:  a impressão que tem o tempo inteiro que vai morrer de acidente, em incêndios, e de que vai perder as pernas nesses acidentes. Sua tristeza associada com uma saudade indefinível, que ela mesma achou que fosse de sua filha perdida e, por fim, o que me impressionou mais, a morte de seu pai nesta vida, queimado num incêndio que lhe afetou mais as pernas, de forma semelhante à que mandou fazer com ela no passado.

Tudo isso junto me faz pensar que não podemos nos esquivar de nossas próprias ações no passado e de que temos que cuidar muito bem do que fazemos hoje para termos um futuro sem dor ou sofrimentos desnecessários. Não podemos mudar o passado, mas podemos aprender com ele e, como diz o antigo ditado hindu: “a sabedoria apaga o carma”, assim é possível nos liberar de nossas próprias imperfeições com os erros que deixarmos de reincidir.

                                                                                                       

 

 

 

 

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS