domingo, 21 jul 2019
Administração

Lições de amor

A alguns dias tive duas experiências que se correlacionaram e me fizeram refletir, mais uma vez, na importância do amor em nossa vida. Esse sentimento muitas vezes mal entendido, por outras confundido com experiências alheias a sua essência, e, na maioria das vezes, simplesmente esquecido nas gavetas de nossa vida cotidiana.

A primeira aconteceu ontem e foi o velório da mãe de um amigo querido, sendo já matriarca de uma grande prole com 12 netos e 3 bisnetos é muito amada por todos e pude ver na expressão dos filhos toda a dor e sofrimento pelo que estavam passando naquele momento doloroso. A outra foi no consultório, numa regressão de um paciente que trouxe valiosas lições e em respeito à dor e em homenagem ao amor que vi toda a família manifestar pela querida senhora escrevo este pequeno post, também no intuito de mostrar que aonde existe amor verdadeiro as separações são apenas temporárias.

Esta é uma história de amor, numa família que existiu algumas centenas de anos atrás no oriente médio, que me foi contada pala mãe daquela época, personagem anônima perdida nos meandros da história, pela voz de uma paciente numa regressão e que mostra que o amor transcende o tempo a morte e a distância, unindo todos nós em seus braços fraternos. Num mercado árabe, em uma tarde ensolarada, minha pacienteSAMSUNG DIGITAL CAMERA se viu no corpo de uma jovem senhora que cuidava de seu filhinho em meio ao burburinho, enquanto observava seu marido trabalhar em uma das tendas que vendiam mercadorias, era um mercado agitado e colorido, em meio à ruelas estreitas de pedras, com casas e construções rústicas de pedra e madeira, sentia-se feliz e completa apesar da vida simples, sem riquezas materiais.

O interessante foi que ao começar a contar a história minha paciente começou a chorar, perguntei-lhe o porque e ela me disse que era por saudade daquela vida, que mal ela começara a lembrar. Naquela existência amava muito o marido, sendo submissa às suas vontades, como era comum naquela época, vivendo para cuidar do lar. O marido, que começou a vida conjugal bondoso, feliz e prestativo, se tornou agressivo, intolerante e ciumento com o passar do tempo, e ela muitas vezes se viu decepcionada e com medo dele, mas seguia a vida sem revolta, feliz mesmo. Teve mais uma filhinha que lhe completou a existência e viveu feliz até a maturidade quando seu marido, por volta dos 50 anos, caiu doente, definhando rapidamente, mas conseguiu sobreviver, nessa época ele já havia melhorado o humor, como ela relatou: “ele me olhava com olhos bondosos”, e ficou com muito medo de perde-lo, pois apesar das dificuldades o considerava um homem e companheiro muito bom.

Aos sessenta e poucos anos os filhos já haviam casado e tinham netos, viviam sós, ela e o marido, naquela casa, envelhecendo juntos, “estou muito enrugada” disse ela. Parecia muito apegada ao filho, que já estava adulto e que, segundo ela, era um belo rapaz, de barbas pretas e de quem ela, no decorrer da história, falava com muito carinho. O marido morreu primeiro com 79 anos e ela poucos anos depois aos 83, na cama de sua casa em companhia de seus dois filhos; a filha chorava muito, como normalmente ocorre nesses momentos dolorosos, quando temos que deixar quem amamos, de forma inevitável, segurando sua mão, o filho a fitava “com a cara triste” deixando a personagem de minha paciente sem vontade de deixa-los, já sentindo saudades, mas compensava isso sentindo felicidade, pois pensou que estava indo reencontrar seu marido amado.

Essa regressão, ocorrendo na mesma semana da morte da mãe de meu amigo, me fez pensar nessas separações e perdas de quem amamos, que sei ser temporárias, mas nem por isso menos dolorosas, e de como são carregadas de boas lições que podemos aproveitar para nos ajudar superar nossas próprias perdas; no caso de minha paciente as mais importantes vieram no fim da história, que relado a seguir.

Ao deixar o corpo de carne o espírito da senhora árabe contou que o maior aprendizado que ela trouxe de lá foi o amor pelos seus filhos, que “é maior que tudo, incomensurável, puro”, dessas lições de amor ela gravou que temos todos que aprender a amar e perdoar, que “nem sempre as pessoas vão ser como as conhecemos”, como no caso de seu marido, mas que sempre “vão permanecer em sua essência”, ela fechou a história dizendo: “Decidi acreditar no amor e não enfrentar ou bater de frente com meu marido”, em resumo, ser tolerante e saber aguardar com sabedoria o melhor momento para que a vida de estabilizasse vivendo feliz.

No fim de seu relato fechou dizendo: “Acho que meu marido daquela época é meu marido hoje, e por isso quero tanto um filho homem, pois sinto a falta do meu filho”.

Com isso espero ter mostrado que amores intensos e verdadeiros, como o daquela mãe, nunca se perdem de verdade, e vão sempre se reencontrando ao longo das vidas e da história, com novos e valiosos aprendizados, se tornando cada vez melhores e mais completos. Sejamos felizes lembrando que a morte completa e separações definitivas não existem para a realidade de nosso espírito.

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS