sexta-feira, 23 ago 2019
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A Vingança de Nina

Estou assistindo a alguns meses a alguns capítulos de uma novela na Rede Globo brasileira chamada “Avenida Brasil”, a estória do folhetim  é baseada numa antiga fonte inspiradora de vários dramas teatrais, a vingança; sentimento tão antigo como a humanidade.

Na trama, muito bem urdida, aquela que parecia ser a mocinha do início da novela, Nina, busca na vingança a justiça por atosNina e Carminha desumanos à que foi submetida na infância, pela madrasta Carminha, pessoa com traços de psicopatia, egoísta e ambiciosa ao extremo. Só que esta vingança chega a níveis tão cruéis que o próprio papel de mocinha se perverte e ela se torna capaz de ser tão cruel quanto sua antiga “carrasca”.

À primeira impressão, na base de toda vingança existe o que parece ser apenas o senso de justiça, uma busca de reparação ou o querer simplesmente se impedir que a impunidade prospere, mas, se formos um pouco mais fundo iremos descobrir que na realidade o que dá sentido à maioria dos atos de vingança é o orgulho ferido.

Excluindo-se os crimes de morte de entes queridos muito próximos e aqueles hediondos, que podem destruir a psique de qualquer vítima do caso, nos demais normalmente se busca a vingança por afrontas aos valores e crenças de cada um, e estas também não deixam de refletir o orgulho existente em cada um de nós.

Li esta semana uma matéria sobre a novela aonde a atriz que interpreta Carminha diz que existe uma “Carminha” dentro de cada um de nós, má e manipuladora, capaz de qualquer coisa para atingir seus objetivos. Nisso há muito de verdade, mas também é verdade que existe mais ainda da personagem Nina presente em nosso mundo íntimo. Uma pessoa que, com a desculpa de ser vítima, justifica seus atos desumanos e cruéis pela busca de uma justiça que só ela compreende.

Sobre isso temos que lançar alguma luz; o senso de justiça é próprio de cada pessoa e reflete valores individuais e a formação psicológica de cada um, o que pode ser justo para mim pode não ser nada justo para você, e é assim com todo mundo. Ao longo da história o Homem, como ser social que é, teve que criar regras e normas para o melhor convívio em sociedade, daí tivemos na história desde a Lei de Talião, do olho por olho, dente por dente, até o moderno estado de direito, aonde se buscou a justiça coletiva que impedisse a busca pelas reparações individuais, e por consequência chegássemos à barbárie.

A espantosa audiência conseguida pela trama pode ser explicada em grande parte por ela ter conseguido mexer com esse sentimento primal existente em todos nós, a vingança, mas também por muitos outros atributos, como por exemplo a “vingança” da empregada contra a patroa, das mulheres traídas contra seus parceiros infiéis ( tem disso também na novela ), dos pobres contra os ricos, e mais alguns bons exemplos de “injustiça”.

Só que a maioria se esquece que na grande ordem universal a injustiça na realidade não existe, essa é uma atribuição tosca a que nos damos direito, com a nossa miopia emocional. O que temos na realidade, e posso falar disso porque já vi “n” casos de reparação e dor ao longo das várias vidas de meus pacientes, é que na realidade não existem vítimas ocasionais, existe sim o retorno presente de algum ato ou desatino do passado. Esses atos dão início muitas vezes a um ciclo, aparentemente sem fim, de causar e tentar sanar dores e sofrimentos ancestrais pelo saciar de vinganças muitas vezes desproporcionais às atitudes que as causaram. Nisso está a origem de muitas perseguições vidas afora.

O despeito e a inveja, filhos diletos do orgulho, são muitas vezes a causa do sentimento de desforra a vingança existente em todos nós, em maior ou menor grau, a própria novela, seu sucesso e seus personagens mostram muito bem isto. Por exemplo, se temos hoje muitas empregadas domésticas se sentindo vingadas das patroas, pedimos que observem uma personagem chamada Janaína, senhora humilde e religiosa que também é doméstica na trama, justo na residência de Carminha. Essa personagem  demonstra, no trabalho, qualidades de uma pessoa boa e honesta, admirável na sua luta pelo sustento do dia a dia, mas quando vai lidar com sua própria empregada se mostra tão ruim  quanto Carminha, capaz de impingir à sua serviçal humilhações desmedidas.

O que dizer então da vingança? Seria melhor reavaliarmos nossos sentimento íntimos para verificar se merecemos realmente o título de “vítima” e, ainda assim, poderíamos refletir sobre o que fizemos em nosso passado, nesta ou em outras vidas, para merecermos determinadas injustiças do mundo. O problema com esse sentimento é que, associado normalmente ao ódio e à raiva, vai nos cobrar o preço de nossa saúde física e mental, além de tirar nossa paz, e, no fim, seremos vítimas sim, mas de nós mesmos, por não confiar na justiça divina da qual ninguém escapa e que não necessita de emissários, simplesmente está em tudo e todos, vivenciada no amor e na compaixão que existe e deve ser cultivada em nosso íntimo.

 

 

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS