domingo, 21 jul 2019
Administração

Dias de escuridão e luz

Assim definiu sua vida atual um paciente que está saindo de um luto  de 9 meses. Este paciente tem uma história interessante comigo; sua terapia começou na realidade pela sua esposa, essa tinha uma doença crônica terminal que estava afetando sua psiquê e, infelizmente, não pude fazer muito por ela, mas ele, em meio à muitas dores emocionais, resolveu começar uma terapia para poder suportar melhor a situação difícil.

Após alguns meses de tratamento ela findou vindo a falecer, tinham 27 anos de casados, e ele desapareceu por um tempo, ressurgindo por mais duas vezes para aliviar seu luto, mas continuava muito arredio e introspectivo.

luz e escuridão

Chegou mais magro, firme, mas menos risonho que o habitual, de quando tudo estava mais ou menos normal, me disse que a saudade foi o sentimento que mais lhe afligiu ultimamente, tão forte que às vezes chegou às raias do insuportável, mas felizmente ele conseguiu manter a sanidade, outras vezes contou sentir culpa pelas falhas como esposo e homem, mas ressaltou que sempre havia amado a esposa muito.

Quando ele me falou, sobre sua situação de sofrimento atual, a referência que fez foi justamente a que deu nome a este post, e que achei muito poética, porque faz jus à “noite” e “dia” que podem afligir nossa alma quando passamos por sofrimentos atrozes. Não há dia ensolarado  que possa iluminar a escuridão de uma alma em dor, assim como a alma feliz vê uma luz bela e forte até nas réstias daquela que passa pela fresta de uma porta.

Após me contar como está encontrando o caminho para seguir em frente com sua vida percebi que seu luto está no fim e que sua saudade, se nunca vai passar, pelo menos vai assumir a forma de um sentimento de nostalgia saudável. Isso ficou claro na seguinte situação: ele me contou como manteve em seu lugar todos os pertences pessoais da falecida esposa, desde suas bijuterias até seus vestidos, e ficou cultivando as recordações que tem dela vez por outra. Sugeri que, se tiver em condições, doe às suas 3 filhas as coisas da mãe, ele concordou; assim todos ficarão com uma agradável recordação dela e ao mesmo tempo ele deixará de lado a dor de relembrar constantemente da amada como um vazio que ficou em sua vida.

Acho que ele ficou reconfortado, mas tive a impressão de que não vou ve-lo de novo, a situação ficou parecida com aqueles pacientes que vem para a última sessão antes da alta, me deu uma sensação de que estava deixando um amigo ir, alguém que aprendi a gostar e respeitar em meio à dores que dividimos e dos sentimentos que tivemos em comum, como por exemplo a culpa que senti quando sua esposa se foi e eu achei que não fiz o suficiente por ela.

Mas a vida continua, ele, suas filhas, eu, meus outros pacientes, enfim todo o mundo, continua o seu giro, regular e eterno, e no futuro quem sabe? poderemos nos reencontrar todos novamente, em reencarnações do porvir.

Related Posts with Thumbnails
Palavras-chave:, , ,

 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS