quarta-feira, 24 abr 2019
Administração

A solidão que nós criamos


Ontem, em mais uma consulta de rotina,
encontrei uma velha conhecida dos meus pacientes, a solidão, espécie de doença da alma, aguilhão no coração, é uma dor profunda conhecida apenas por quem já dividiu seu leito com ela em noites tristes e intermináveis, ou dos que passaram dias entre a angústia e a busca de algo que pudesse preencher o imenso vazio que carregam dentro do peito.

Vendo todo a sofrimento de minha paciente, L.C, transformado em lágrimas que corriam abundantes pelo seu rosto, me sensibilizou a sua incompreensão sobre o que deveria fazer ou de como poderia mudar o seu estado para deixar de se sentir tão solitária. Ela sofria além de tudo, por se sentir perdida; suas queixas iam do medo de se decepcionar e ser ferida pelas pessoas à sua volta até a suspeita de traumas que puderam ter lhe marcado durante a infância, pois como me relatou,
sempre se sentiu solitária ou com grande tendência a ficar só. Mas isso tudo eram tentativas de encontrar respostas racionais para uma dor tão desmedida.

Investigando sua vida na tentativa de ajuda-la, coisa que já venho fazendo a meia dúzia de sessões desde que ela começou seu tratamento, fui fazendo deduções e tentando mostrar para ela onde buscar suas respostas. A primeira coisa que notei é que ela é extremamente rígida e intolerante, suas crenças são inabaláveis e seu senso do que seria justo e correto não permite nenhum tipo de reavaliação de seus critérios; esses valores, como pude comprovar por uma regressão, lhe acompanham à muito e, por mais que seu espírito já tenha até notado que lhe fazem mal, não aceita muda-lós, sendo segundo suas próprias palavras, “muito teimosa”.

Essa postura já lhe criou inúmeros conflitos e problemas de relacionamento, já foi casada e se separou duas vezes, hoje não tem ninguém, nunca teve filhos, tem pouquíssimos amigos e mesmo estes está perdendo, hoje não encontra companhia nem para programas simples como ir ao cinema, que diz não aguentar mais ir só, em suma, sua única companheira constante é mesmo a solidão. Mas, mesmo estando extremamente infeliz, ainda não aceita bem a ideia imagesde que tem que mudar seus valores para se adaptar ao mundo e não o contrário. Reclama das pessoas que são corruptas, desonestas e desleais guardando muitas mágoas de quem lhe feriu, sente-se muito injustiçada pelo mundo e não quer se ferir mais, por isso se isola de tudo e de todos. Chamei sua atenção para o fato de que ela está apenas trocando um sofrimento, o de ser ferida pelos injustos, por outro, que é o de ficar só no mundo, para não ser ferida por ninguém.

Sua solidão, pelo que posso perceber, é criada por ela mesma, ao mesmo tempo que reclama que não consegue atrair pessoas para si procura se afastar delas, em vez de buscar gente para dividir as coisas boas da vida. passa o tempo a criticar quem não partilha de seus valores; quer ter companhia na vida, mas quem vai querer estar perto de alguém que não cede em nada? Talvez, se ela mudar de atitude, sua vida pode adquirir outro contorno, e ela consiga sair do caminho que está trilhando e que fatalmente irá leva-la à depressão, daquele tipo que acontece pela impotência perante as dificuldades da vida e porque hesitamos em ceder e sermos diferentes, abrindo mão de nosso orgulho que nos torna tão intolerantes e inflexíveis. Vamos ver se no decorrer da terapia isso ocorre.

O mundo está cheio de pessoas, algumas boas, outras más, umas melhores, outra piores, mas sempre com grande possibilidade de dividir algo conosco, se não nos furtarmos a isso e não nos fecharmos em um mundo só nosso, que vá nos deixar cada ver mais sós e infelizes com nossas opiniões, deixaremos a solidão de lado. É necessário tentar e superar as pequenas dores que poderão ocorrer no caminho, elas são naturais, mas o que importa é que no final estaremos melhores, mais sábios e mais fortes do que antes.

 

 

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS