domingo, 25 ago 2019
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Compreendendo Lars von Trier

Na revista Veja desta semana, a de número 36, Setembro de 2011, o cineasta Lars von Trier, em entrevista nas páginas amarelas, esclarece um fato polêmico em que se envolveu no festival deLars von Trier cinema de Cannes ao afirmar que: “Acho que compreendo o homem (Hitler), ele não é o que se poderia chamar de bom sujeito, mas compreendo muita coisa nele e simpatizo um pouco com ele”; a seguir destilou a quantidade de bobagens que se permitiu seu espírito de artista e saiu exacrado do festival, expulso pelos diretores deste.

Mas, afora a curiosidade natural sobre o fato, fiquei impressionado com algumas de suas declarações, o cineasta, que diz se sentir judeu, foi capaz de raciocínios que desafiam o bom senso, daí as polêmicas e isso finda sendo positivo de alguma forma. O mais interessante disso é que ele afirma em suas declarações que sua dificuldade de entender conceitos como a vida e Deus vem justamente de uma suposta falta de senso de organização lógica e sentido na existência da vida em sí, e do porque Deus tê-la criado finita ou entremeada de sofrimentos.

Bem, vou tentar neste post um exercício bem mais fácil que entender Deus ou a vida, vou tentar entender Lars von Trier e sua visão amargurada da existência e da vida, com suas dificuldades de se relacionar com Deus e os homens.

Vamos começar com suas suas citações na entrevista, aí vai a primeira: “Se Deus a criou (a vida) – e eu não acredito Nele – ele logo a largou (…) sem um pensamento para que o fato de que criou seres que sabem que cada passo deles na Terra causa o sofrimento de uma planta, um animal ou um outro homem, e que tem de enfrentar a consciência de que sua existência é finita”. Ei!! Surpresa!! Esse aí falando de sofrimento  com tal sensibilidade e condenando Deus por fazer os homens sofrerem é aquele mesmo que “compreende Hitler” e seus atos abomináveis chegando mesmo a simpatizar com ele?

Hitler levou um sofrimento tão absurdo como desnecessário a tantos, sem contrapartida, só dores indescritíveis, de perdas físicas e morais, de mortes de pais e filhos, irmãos e irmãs, amigos e parentes, o que ficou de bom para todos aqueles que sofreram em suas mãos? Nada, só amarguras. Já a vida não é feita apenas de coisas ruins, por mais que não se creia que exista nada depois dela, ainda assim o que sobra pode ser muito belo e o desfrute muito intenso, então Deus ainda está em vantagem não? …Olha, é difícil entender que tipo de raciocínio leva alguém a considerar o contrário.

Bem, por essas colocações podemos entender como o famoso diretor pode achar na figura de Hitler um personagem simpático. Só alguém que acha a vida uma “idéia ruim” pode simpatizar com uma pessoa que exterminou a vida de milhões sem nenhum tipo de constrangimento, será essa uma “conclusão lógica” àquelas vidas ceifadas sem outro motivo que não o ódio e o preconceito. Pelo que pude perceber o motivo principal da revolta do cineasta para com a vida é que ela tem fim, ou que somos mortais, e que sofremos, mas temos que procurar compreender também que o diretor é uma pessoa depressiva e melancólica, segundo ele mesmo, com vários problemas familiares que de certeza afetam sua capacidade de julgamento e percepção da vida e das pessoas, tanto é assim que seu novo novo filme “Melancolia” trata justamente desses assuntos.

É muito natural que pessoas com esse perfil tenham uma visão do mundo distorcida, negativa ou “cinzenta”, aonde o seu sofrimento pessoal é percebido de forma superlativa, isso muitas vezes descamba em agressividade e revolta para com o mundo, as pessoas e Deus, em última instância, como criador de todas as coisas; como o diretor diz disso tudo e da vida: “não é justo”. Mas isso não justifica suas posições, fica aqui meu protesto. A seguir vou procurar entender junto com os leitores como esse tipo de percepção pode se tornar patológico, criando um ciclo vicioso e agravando estados depressivos e melancólicos.

Vamos aquela declaração que mais me chocou: “Acho que a vida é uma idéia muito ruim. Se essa idéia partiu de Deus, eu o culpo por tê-la largado no meio do caminho, sem leva-la à sua conclusão lógica”Bem, conclusões lógicas não parecem ser o forte do diretor como vimos, sua visão distorcida do mundo afeta seu humor e suas relações de forma intensa fazendo-o ver as coisas apenas no seu pior sentido e piorando seu sofrimento, logo seu discernimento e cognição findam sendo afetadas por esse estado.

Outra situação que noto no seu discurso é sua indefinição quanto às suas crenças, em determinado momento da entrevista ele diz sentir-se judeu fica a questão de como seria um judeu que não crê em Deus?. Já percebi em meus pacientes que a falta de uma fé ou uma crença religiosa são fatores que pesam na economia de nossa psiquê, que necessita deste tipo de “alimento” para sua estruturação sadia e se bem resolver. A falta desse tipo de fé pesa, principalmente a longo prazo, pois a vida tende a ficar mais vazia e desesperançada à medida que caminha para seu desfecho, com suas consequências naturais como a perda da saúde, da disposição e da beleza. Não estou fazendo apologia a nenhum tipo de religião em especial, só quero deixar claro que as pessoas que tem algum tipo de crença na perenidade da vida vivem mais felizes à medida que a morte ou o fim se aproxima.

Meu sogro, já com 93 anos, às voltas com várias doença no fim de sua vida me disse um uma coisa que gravei: “A vida só é ruim para quem não sabe viver, por isso gosto de viver”; essas palavras foram uma lição para mim e cabem neste contexto. Tenho certeza que a vida é ruim para Lars von Trier porque ele não sabe viver, em vez de se preocupar em desfrutar dos momentos maravilhosos da vida que tem e da qual pode extrair maravilhosas experiências, fica a reclamar que um dia ela vai terminar. Quer dizer, deixa de viver o presente porque vai morrer no futuro, será esse um raciocínio lógico?

Se o diretor, e todos os outros que não sabem o que é reencarnação,  tivessem a mais vaga idéia de que nossa vida é um continuum dentro do que convencionamos chamar de tempo, veriam que ela tem uma conclusão lógica sim, na realidade mais um sentido do que uma conclusão, pois esta está condicionada à forma limitada como entendemos nossa existência. Além disso nada fica “largado” ao léu como reclama o diretor sobre a vida e Deus, tudo se encaixa à perfeição quando ampliamos nossa visão ao todo do universo e consideramos a eternidade de nossa existência, nos desapegando das pequenas coisas do dia a dia.

Para isso é necessário mudar nossa forma de ser e interagir com o mundo e as pessoas, que frequentemente nos contrariam e passar a tolerar mais as diferenças e dificuldades. O pior paciente que eu conheço é aquele que diz como o diretor no final da entrevista: “Eu não vou mudar” e diz que até poderia, mas aí teria que se tornar outra pessoa e isso ele não quer. Pena para ele, que não percebe que esta outra pessoa, que ele poderia se tornar, teria a chance de ser uma pessoa feliz.

 

 

 

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS