domingo, 25 ago 2019
Administração

As mágoas nossas de cada dia.

Estou tratando à algum tempo uma senhora muito distinta que vou chamar de E.F, esta senhora me procurou em virtude de um problema crônico de depressão e melancolia, esse quadro já lhe persegue a anos e não teve melhoras por mais que ela tenha buscado auxílio dos melhores profissionais de saúde do Brasil, pois é uma pessoa de posses.

Ao me procurar veio com a esperança de voltar a ser a mulher feliz que fora uns anos atrás e querendo ter prazer de novo em viver, coisa que diz ter perdido completamente, suas queixas se concentravam no casamento e nas atitudes do marido, mas apesar de tudo disse ter uma união feliz. Com quatro filhos adultos sofreu muito ao perde-los para o mundo pois todos se casaram, mas essa perda foi atenuada pela proximidade da moradia de todos, pois o marido sendo rico os colocou para morar todos no mesmo condomínio sob as vidas da senhora. mesmo assim revelou-se uma mãe que até hoje não superou a dor da separação e isso, tenho certeza, lhe piorou o quadro depressivo.

Vou fazer aqui um parêntese para explicar algo importante, Sempre que me chega um paciente com histórico de depressão procuro esclarecer até que ponto ele tem crises melancólicas ou mesmo se tem apenas estas, pois existe um grande diferença de sintomas e no tratamento entre depressão e um quadro exclusivamente melancólico. No caso de minha paciente esses problemas se somam dando origem a um sofrimento intenso, resistente aos antidepressivos convencionais, estes apenas atenuam a dor tornando a sua vida suportável, mas não resolvem seu problema psicológico nem a fazem recuperar a alegria de viver.

Sua perda de sentido na vida é tamanha que coisas que deixariam uma mulher como ela extremamente feliz lhe são completamente inúteis, como o nascimento dos netos, o conforto material que a riqueza dá e até a visita dos filhos que lhe veem com frequência.

magoasApós ter colhido sua história de vida e ter explorado seu temperamento e forma de ser para formar um quadro de sua personalidade e de seus problemas, percebi que ela sempre foi uma pessoa orgulhosa com uma tendência muito grande a guardar mágoas, e isto apesar de não parecer tão danoso pode cobrar um preço muito caro de que se entrega a cultivar este tipo de atitude. Só que como quem se sente ferido ou melindrado em seus sentimentos pelo outro, normalmente, se acha no direito de ter e guardar essas mágoas consigo, até como forma de tentar mudar as outras pessoas que, em sua visão, mudariam de atitude consigo ao percebe-lhes tristes, infelizes ou enfezadas.

Infelizmente esse é um  engano em que caem não tão poucas pessoas que ,como minha paciente, esperam aquelas mudanças de atitude dos outros por uma vida, e elas findam não acontecendo. Os únicos que mudam são eles próprios, aqueles magoados que guardaram no fundo do coração centenas de melindres, e se tornaram pessoas mal-humoradas, tristes e agressivas.

Este é o caso de minha paciente, após as primeiras sessões em busca de qual seria a sua psicopatologia ou de que morbidez ela estaria sofrendo estou chegando à conclusão de que, independente das que sejam, todas se originaram em suas velhas mágoas, fruto de um casamento insatisfatório com um companheiro que não lhe correspondeu às expectativas e do qual ela só colheu tristezas, vergonhas e raiva. Tudo isso somado a um caráter orgulhoso, mandão e perfeccionista, com valores familiares rígidos de como ser uma mulher de família, resultaram numa pessoa infeliz e depressiva que chega hoje ao meu consultório com uma vaga ideia dos motivos de seu sofrimento, mas completamente ignorante sobre o mal que lhe causam tantas mágoas acumuladas.

O interessante é notarmos pelo seu relato que seu marido, fonte da maioria de suas queixas, passa incólume pelos sofrimentos que tanto lhe afligem e não mudou nem um pouco depois de 30 anos de casamento, assim de nada adiantaram suas mágoas e a expressão de suas contrariedades na forma de desagrados raivosos e comentários ferinos, no deixar de falar e se amuar em seu canto. Ao final ganhou apenas o rótulo de chata, mal-humorada, agressiva e isolada.

Quem mais perdeu no final findou sendo ela mesma que está vendo a vida passar sem sentido, sem prazer e infeliz, com nenhuma ou pouquíssimas alegrias. Esse finda sendo o caráter mórbido de sua depressão, como a vida não foi o que ela queria, nem as pessoas, marido e filhos fazem o que ela quer só lhe resta a tristeza de se ver impotente perante uma vida que não aceita seus mandos e poderia ser bem diferente. Nossos próximos passos vão ser começar as regressões, aonde tenho certeza que seu inconsciente irá lhe mostrar, na forma de vidas relembradas, como essas mágoas lhe prendem a tanta dor, pois de certeza seu caráter melindroso não se formou apenas nessa vida, e como apesar de tudo ela é uma mulher forte e decidida, tenho, eu e ela esperanças de que consiga superar suas dificuldades e se sentir feliz novamente.

Related Posts with Thumbnails

 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS