quarta-feira, 23 abr 2014
Administração

O verdadeiro amor

Recebi uma nova paciente esta semana, com uma queixa comum, ela não consegue secupido desapegar de uma antiga paixão por um homem que diz ter travado sua vida emocional por quase 20 anos. Muito ansiosa, ao ponto de se atrapalhar com as palavras o tempo todo, com alguma dificuldade consegui colher sua história e coloca-la dentro de uma ordem cronológica.

Suas crenças são espiritualistas e mesclam influências várias origens, das africanas às orientais,  em algumas delas desenvolveu trabalhos como aprendiz e teve experiências com vários tipos de cultos; muito cheia de energia e orgulhosa de suas conquistas na vida, no entanto,parece perdida dentro de seus próprios sentimentos dizendo-se muito confusa e angustiada.

O objeto de sua paixão é um homem bem mais velho que ela e sua história de amor com ele tinha tudo para dar errado, como acabou dando. Vou resumi-la a seguir.

Com vinte e poucos anos engravidou num namoro sem maiores pretensões de um jovem de sua idade e devido à isso resolveu casar, pois a família era do interior, muito conservadora e preconceituosa, mas não gostava do rapaz e viveram, segundo ela, como irmãos, por 5 anos até que conheceu o fatídico amante.

Esse encontro se deu num escritório em que ambos trabalhavam e ele desde o início a assediou, mesmo sendo casado e ela também isso não importava ao novo pretendente, esse assédio durou quase 1 ano, quando afinal ela cedeu, sob o argumento hoje de que estava muito carente vivendo numa relação vazia e sem amor, apenas protocolar. Ele dizia-se muito apaixonado e que seu casamento estava no fim e que em breve iria se separar, só que isso demorou 6 anos para acontecer.

Nesse período ele teve o filho de ambos, se separou e ficou servindo à ele como amante de forma escondida e sabendo que ele também mantinha muitos outros casos. Com o tempo ele foi se revelando uma pessoa de péssimo caráter, além de apenas lhe usar sem se separar, explorava-a financeiramente e lhe humilhava ao mesmo tempo que alimentava suas ilusões de amor e paixão.

Quando finalmente ele se separou escolheu outra amante para viver e disse-lhe com todas as palavras que de todas as suas amantes ela seria a única com quem ele não viveria, isso a arrasou, entrou em depressão e ficou péssima durante um bom tempo. Mas mesmo assim não terminou seu caso com ele ficando sempre à sua disposição quando ele precisava de sexo.

Vou aqui fazer um pequeno intervalo para contar outra história que tem tudo a ver com essa, ontem assistindo ao programa da apresentadora Hebe Camargo, apareceu a história de uma dona de casa que era apaixonada por um antigo namorado, a história dos dois ocorreu a 31 anos e ficou inacabada, pelo menos para ela, pois era casada e tinha 04 filhos; e aquele homem, disse ela foi o amor de sua vida e na realidade ela ainda o ama até hoje. Na hora em que comecei a ver o caso lembrei da história de minha paciente, ainda mais porque estava comentando a história uma apresentadora que admiro muito por sua coerência e sabedoria, de uma profunda doçura, que se chama Regina Volpato.

Os comentários de Regina, como sempre muito acertados, foram esclarecendo que a mulher, no geral, diferente do homem, tende a cultivar e a fantasiar seus relacionamentos românticos, muitas vezes até transformando em sua imaginação acontecimentos ruins em lembranças agradáveis e, vivendo essa ilusão, muitas mulheres mantém acesas em seus corações paixões que não mereciam estar lá e que só lhe causaram e ainda causam dor.

No final do programa se fez o encontro dos antigos amantes, após quase 3 décadas de separação, e, para surpresa e desagrado de todos, o ex-amante fingiu que nem reconheceu a antiga namorada fazendo de conta que sua história não foi nada para ele, e realmente talvez não tenha sido, mas o sofrimento  da hoje idosa senhora foi muito entristecedor; todos se perguntaram de que adiantou ela manter aquele amor no coração durante tanto tempo apenas para de decepcionar?

Bem, voltemos ao caso de minha paciente. Como a senhora do programa ela se mantém presa numa paixão ilusória, e mesmo quando reclama do amante nota-se que tudo o que ela queria era estar com ele. Realmente talvez essa seja uma característica mais feminina, mas o importante é que se isso tem que ter um motivo ou algo que o explique baseado na história de vida e emocional da pessoa.

No caso de minha paciente o que pude observar, no breve espaço de duas sessões, é que ela claramente associou sua felicidade ao amante, me pareceu com isso que ela caiu numa antiga armadilha que é a de entregarmos nossa felicidade nas mãos de alguém, e no caso dela, esse alguém nunca teve uma preocupação real em faze-la feliz, apenas a usou e ela, iludida com suas próprias esperanças de felicidade na vida ao lado daquele amor, se entregou.

Existe mais um fato curioso nessa história toda, quem  mais a apoiou nos momentos difíceis, de depressão e dor, quem cuida inclusive dos seus negócios e de suas contas até hoje, na realidade de grande parte de sua vida zelando pela sua felicidade desde aquela época até hoje, é o primeiro marido. aquele que ela não amava, mas que nunca lhe abandonou, mesmo estando separados e sem nenhum tipo de contato mais íntimo.

Talvez o amor de sua vida estivesse sempre ao seu lado e ela não enxergou e de novo faço um paralelo com a personagem do programa que ao final disse à apresentadora que o marido de quem ela tanto se queixava no final findou sendo aquele que lhe acompanhou até a morte nunca abandonando nem ela nem seus filhos, mesmo sendo alcóolatra e doente. Talvez minha paciente finde descobrindo algo parecido em sua vida hoje, vamos ver.

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4 Comentários

  1. Olá Ney

    Eu entendo seu ponto de vista e sei que não devemos dizer “desta água não beberei”, mas felizmente sou muito bem casada e espero nunca me separar do meu marido. Porém, mesmo que eu fosse solteira, jamais me envolveria com um homem casado. Iria contra os meus príncipios e contra mim mesma, pois eu acredito que a mulher que se sujeita a ser “a outra” não tem amor-próprio. O único que se dá bem na história é o safado que trai a mulher e tem a amante à sua disposição. Quer dizer, ele se dá bem “temporariamente”, pois um dia terá que responder por seus atos. Lei da ação e reação, certo?
    De qq forma, eu sou de opinião que devemos amar a nós mesmos em primeiro lugar, e acho terrível ver uma mulher se humilhando por um homem. O pior é que muitas vezes elas estragam suas vidas por causa desses “trastes”, mas poderiam ser felizes ao lado de pessoas que gostam delas, como vc mencionou no post. Infelizmente, existem pessoas profundamente masoquistas, com tendências auto-destrutivas. Qdo vejo uma mulher que apanha do marido, etc, e ela ainda diz: “Mas eu o amo!”, tenho vontade de dar na cara dela. Ela o ama? E o que ela sente por si mesma, para aceitar ser tratada como um lixo??

    1. Concordo com praticamente tudo o que vc escreveu Karla, mas quando vc diz “mesmo que fosse solteira jamais me envolveria com um homem casado..”, pois isso iria contra seus princípios, vc lembra muito, como já disse, o passado de minha paciente, que também tinha em alta conta seus valores e suas crenças; só que hoje ela sofre muito mais justamente por violentar esses mesmos valores, então sejamos mais tolerantes com as falhas alheias, nunca saberemos quando será nossa vez.

  2. Sinceramente, eu acho que isso não é amor. É burrice, falta de amor-próprio
    ou qualquer outra coisa. Menos amor.
    Sei lá, tem mulheres que não se dão o mínimo valor e passam a vida sofrendo por “trastes” como os mencionados no post. Será que ela não páram pra pensar que estão jogando suas vidas fora por pessoas que não merecem nada delas, quanto mais amor??
    Posso estar sendo muito rigorosa no meu julgamento, mas eu tenho vontade de bater em uma mulher dessas. Agindo assim, elas envergonham a classe feminina.

    1. Olá Karla, vou lhe contar algo sobre aquela paciente para você pensar a respeito do seu julgamento.
      Ela me disse que quando nova condenava, com todas as forças, as mulheres que tinham casos extra-conjugais, isso para ela e seus valores era algo de inaceitável. E veja onde ela parou. Às vezes a vida nos prega essas peças, quando achamos que já aprendemos todas as lições ou nos achamos muito donos de si, ela vem e nos mostra que ainda temos muito a aprender.
      Minha paciente está aprendendo isso de forma muito sofrida, talvez seja uma lição para toda uma vida. Quando criou esse apego por aquele homem ela foi pega numa armadilha sentimental que dependeu muito de suas próprias fragilidades psicológicas e emocionais, e ela, como todos nós, ainda se desconhece muito.
      Assim, por mais que eu concorde com algumas de suas avaliações, tenha cuidado com seus julgamentos pois ninguém sabe o dia de amanhã.

 

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

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