quinta-feira, 20 jun 2019
Administração

As dores do corpo e as dores da alma

dor na almaNum artigo da revista Veja desta semana, a de número 14, li o artigo de um psiquiatra americano que está no Brasil para dar uma palestra sobre depressão e dor, seu enfoque é mais na área de manifestação da doença como causadora de dores físicas nos pacientes depressivos, seus sintomas e sua cura. Por coincidência hoje recebi uma nova paciente com queixa de depressão e dores mal definidas pelo corpo todo, aproveitando vou comentar aqui minhas impressões. Este tema sempre é fonte de discussões nas ciências psicológicas porque o sintoma é uma entidade ontologicamente variável dependendo do ponto de vista que se lhe observe, o mesmo se dando com a cura, tanto é assim que algumas linhas daquelas ciências até evitam falar em busca pela cura no sentido lato do termo.

No discorrer do artigo da revista o médico relata como os avanços no uso de medicamentos antidepressivos no combate à depressão tem evoluído ao ponto de conseguirem livrar os pacientes de todos os sintomas depressivos e de como funcionam os mecanismos neurofisiológicos envolvidos na produção da dor associada àquela doença, também diz que a medicina para praticamente metade dos pacientes acometidos por esse tipo de problema, não apresenta um remédio que melhore os sintomas e os quadros se tornam irreversíveis.

Para entendermos como a ciência atual vai enfrentar o problema é necessário que se esclareça o seguinte: os pesquisadores da área psi atualmente se dividem normalmente entre os oriundos da área médica, como no caso do autor do artigo, e os da área psicológica, cuja formação vem da psicologia. Os da área médica irão buscar normalmente a abolição dos sintomas como sinônimo de cura, já os da área psicológica irão buscar a alta ou finalização do tratamento não necessariamente na cura, mas na resolução mais apropriada dos problemas que o paciente apresenta naquele momento. O problema quando se buscam apenas a eliminação dos sintomas é que às vezes, como já dissemos, é difícil até identifica-los com clareza ou ao paciente expressar o que realmente lhe incomoda. Podem ser coisas altamente subjetivas e desprovidas de uma manifestação maior no corpo que vão se tornar tanto ao terapeuta como ao paciente uma tarefa muito árdua para serem decodificadas. Uma queixa muito comum comum é, por exemplo, o chamado “vazio na alma” ou “falta de sentido na vida”, como é que poderíamos tratar isso como um sintoma, se é que podemos chamar essas impressões disso?

O que gostaria de discutir aqui são os reclames que me fazem os meus pacientes quando estão com suspeita de depressão ou mesmo já se diagnosticaram com o problema. Inicialmente é difícil para eles até nomearem alguns sintomas, esses são tão difusos e inespecíficos que sua descrição mais objetiva, a dor parece vir de uma profundeza tal na alma que está apenas por manifestar seu sofrimento, mas sem mostrar sua verdadeira face, que permanece oculta por trás de monturos de dor e sentimentos embolados uns com os outros.

Pela experiência que tenho em tratar esse tipo de queixa observo que essas sensações e impressões provêm na realidade da instância do indivíduo conhecida como “espiritual” ( favor não resvalar aqui para o terreno do misticismo ou religião), que pode também ser chamado por algumas linhas psicológicas de “inconsciente”, nestas instâncias as dores e os sofrimentos estão em um nível inacessível à nossa razão e cognição normais, por isso as dificuldades habituais que os pacientes tem em explicar sua dores relacionadas à depressão e melancolia, e, mesmo quando explicadas, ficam praticamente inacessíveis aos tratamentos convencionais, pois esses só conseguem tratar aquelas depressões de origem orgânica ou idiopática.

Para se ter sucesso com esse tipo de tratamento é necessário que tenhamos acesso aos conteúdos mais profundos do inconsciente do paciente e, a partir de lá, iniciarmos o resgate daquelas coisas que estão dando origem ao seu sofrimento que podem estar aqui nesta vida ou terem sido marcados no espirito em vidas que já se passaram. Mas, independente das condições que originaram os transtornos, sei tentar eliminar sintomas sem tratar a causa dos problemas na sua origem vai apenas camuflar e adiar uma possível solução real para as dores e sofrimentos das pessoas. A solução para  problemas complexos como a depressão e a melancolia deve ser melhor avaliada do que apenas pelos seus aspectos sintomatológicos abordando todas as instâncias do existir humano, não apenas a física.

 

Related Posts with Thumbnails

 

ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS