quarta-feira, 19 jun 2019
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Saber amar

amorAproveitando a experiência de uma amiga, que noto ter muitas dificuldades nos seus relacionamentos amorosos, vou explorar um pouco esse assunto, o amor e as dificuldades nos relacionamentos, já que isso é motivo de tantos conflitos e frustrações para o ser humano. Não entendam isso como uma análise de caso, seria mais como uma tentativa de entendimento de uma situação comum e de como as pessoas podem enveredar por caminhos que fatalmente as farão serem infelizes a longo prazo.

No caso da minha amiga observo que ela sempre foi muito confusa em relação ao tipo de relações que deseja ter em sua vida, isso misturado a uma personalidade hedonista e muito narcisista a faz ter relacionamentos ora complicados, ora incompletos, sempre infelizes. Quando confrontada ao fracasso desses relacionamentos sua resposta é sempre a mesma: “Eu não quero mesmo nenhum relacionamento sério”, e demonstra que só quer desfrutar do prazer imediato que pode obter das pessoas com quem se envolve, inclusive as escolhe os parceiros não pelos seus valores morais ou qualidades de personalidade, mas apenas por sua beleza física e condição social.

Por mais que seja bastante claro que neste tipo de relacionamento só vai sobrar o vazio e a solidão, ela não consegue deixar de traze-los para sua vida e continua tendo apenas sobras de afetos e algum prazer físico, tão rápidos quanto a vontade de refaze-los e tentar de novo, dando a impressão de querer o tempo todo se satisfazer com algo que não encontra, e continua a procurar, só que nos lugares errados. Como essa busca envolve prazer e afeto podemos notar que, no caso dela,  praticamente não existe alí qualquer tipo de amor que permeie aquela procura. A única coisa que parece lhe importar é o prazer e o desfrutar da vida e dos corpos, da melhor maneira possível.

Isso possivelmente acontece por vários motivos, talvez por ela não ter noção de que está passando por uma das suas muitas vidas, e queira aproveitar o máximo desta, como se fosse a última. Outra possiblidade seria a de uma imaturidade espiritual aonde seu espírito ainda inexperiente precisa aprender a se liberar mais de seu lado instintivo que busca apenas o gozo, evoluindo suas emoções para aquelas mais nobres como o amor.

Uma coisa que noto em sua prática “amorosa” e que creio ser bastante comum, é que quando ela pensa que está apaixonada ou amando, naturalmente deseja que esse amor deva ser acompanhado de outros interesses, estes normalmente associados à sua busca por lucros narcisistas e de sua ambição. Por isso finda não sendo capaz de amar realmente, mesmo quando deseja muito isso, e, por estar com seus sentimentos atados apenas às conquistas materiais imediatas não nota que é possível amar, não por necessidade, mas por sentir que se pode partilhar bons sentimentos com tudo e com todos, permutando as agradáveis impressões que isso nos deixa n`alma.

Para pessoas assim os relacionamentos amorosos vão ser apenas uma troca de interesses na busca de satisfação de desejos e de incompletudes, quase uma relação comercial. Nesse tipo de relacionamento as partes podem até achar que se amam, mas na verdade estão apenas se protegendo da solidão e fazendo trocas, dando lugar a um vazio interior maior do que o que tinham antes.

Jesus Cristo já dizia: “Aonde está seu tesouro, aí estará seu coração”, em referência a onde fixamos nossos valores e o que nos importa, se deixamos nossas emoções fixadas apenas ao lucro e conquistas da vida mundana não vai sobrar nenhum afeto para dedicarmos às pessoas, que deveriam ser, em última análise o maior objeto de nosso amor. Se aqueles que assim procedem procurassem amar sem negociar e entender as dificuldades e lutas do seu próximo, terminariam por ama-ló.

Minha amiga, na sua imaturidade psicológica, finge, ou acha que está, às vezes a amar ou estar apaixonada, só que isso passa com uma velocidade espantosa, pois que não tem base nem fundamento emocional real. Isso acontece, não apenas com ela, mas com vários tipos de pessoas, que tem expectativas distorcidas de sua realidade afetuosa, esperando plenificar-se em outro. Parece quererem amar por ter necessidade de ter um amor e não pela própria satisfação de amar. Esquecem-se que não é possível dar daquilo que não foi gerado neles mesmos, assim por mais que alguém lhes dedique amor verdadeiro aquela plenificação nunca vai acontecer, pois sua personalidade, alheia aos verdadeiros valores da existência, não gerou em sí mesmo o conteúdo emocional que necessita para se preencher, e isso nem ela, nem ninguém vão encontrar em outra pessoa.

Para vivermos uma experiência amorosa é indispensável primeiro um auto-preenchimento, um adquirir e se enriquecer de amor, para a partir daí podermos entender e sentir o amor dos outros, dividindo com quem nos dá afeto, alegrias e satisfações. Na inexistência de amor interno as pessoas se atormentam e no seu desespero pensam que poderão ser felizes se forem amadas, mas esquecem de que também teriam que amar e se doar para aqueles que lhe amam, mas sua personalidade egoísta as impede disto; confundem dedicação com doação e dedicam-se ao outro procurando atende-ló nas suas necessidades, quando na realidade querem que seu par, como pagamento, as faça feliz de qualquer maneira.

Querem alguém que as ame para lhe dar a segurança  e tranquilidade que não encontram em sí mesmo, para dar uma direção às suas emoções desordenadas, transferindo para outrem seus conflitos, buscando nos outros algo que não podem ter por sí e nem podem doar nada pois ainda não encontraram seu amor interior. Apenas o interesse físico, a busca pela beleza e do contato sexual, em face da atração irresistível, vão levar a pessoa a ter fortes sentimentos que podem até se confundir com o amor, mas não correspondem à realidade e não são suficientes para suscitar o verdadeiro amor, este , ao contrário, se origina da atração e cultivo daquilo que os olhos não vem e que ressoa em consonância com o nosso amor internalizado. Quando passa o período da novidade sexual e descobertas iniciais sobre o outro, que foi objeto de ardente desejo, surgem a decepção e o desencanto, pois o outro se mostra incompleto e imperfeito, como o são todos os seres humanos, aí sobrevém a frustração e a tristeza.

O amor é uma forma de encantamento, exige empatia com o outro, se alimenta da descoberta de potencialidades e de afirmações que se unem em favor daqueles que se amam, sem castrações ou impedimentos à liberdade, sem dependências ou apegos atormentadores, deve ser espontâneo e brotar em forma de ternura e afeto verdadeiros. Não pode ser apenas ilusão dos sentidos e das emoções, fuga da realidade ou busca de abrigo de nossas próprias infelicidade, por isso tantos dizem sofrer por amor, quando na realidade sofrem por não saberem amar.

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS