quarta-feira, 24 abr 2019
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O erro do Dr. Damásio

DamasioAcabei de ler a pouco tempo o livro “O erro de Descartes – Emoção, Razão e o Cérebro humano”, do Dr. António R. Damásio, nesta obra se exploram as origens neurológicas das emoções e do comportamento humano e suas influências na forma de como as pessoas fazem suas escolhas e tomam suas decisões. Segundo as teorias do Dr. Damásio as decisões sociais e pessoais se encontram ligadas intrinsecamente aos nossos impulsos e instintos; emoção e sentimentos fariam parte da maquinaria neural para regulação biológica essenciais à nossa sobrevivência. A tristeza e a felicidade seriam resultado de estados combinados de fatores corporais e pensamentos superpostos complementados por uma alteração no estilo e eficiência no processo de pensamento; existiria, segundo o escritor, uma verdadeira simbiose entre os processos cognitivos ( de pensamento) e os processos mentais.

Essas teorias são interessantes e se as observarmos apenas pelo ângulo neurológico são muito bem embasadas, até porque foram postuladas sobre a observação de vários pacientes que sofreram algum tipo de lesão cerebral e que, por isso, tiveram seus comportamentos e suas emoções alterados drasticamente. Além disso o Dr. Damásio coloca de forma muito apropriada como as influências do meio ambiente e as questões sociais e culturais influenciam no desenvolvimento neurológico humano, além dos já conhecidos fatores genéticos.

O problema com essas teorias é que o autor demonstra no decorrer de sua obra que o privilégio da razão é o que deveria ser o melhor para nossas decisões e nossa vida, subestimando o custo e os benefícios do peso das emoções em nossas escolhas, inclusive colocando, como ele mesmo diz a “paixão pela razão”, intrínseca de cada cérebro humano, cria  um impulso natural, que dá origem aos sentimentos, ai dos poetas se isso fora verdade. Afora isso suas teorias ignoram uma grande parte das observações que comumente temos sobre nós mesmos e sobre a forma de como percebemos nossos sentimentos e nosso próprio “Eu” .

Por exemplo quando ele diz em seu livro, na página 175, que “…um sentimento depende da justaposição de uma imagem do corpo propriamente dito com uma imagem de alguma outra coisa (…) visual ou auditiva” (???) ou ainda que “…uma emoção é um conjunto das alterações no estado do corpo associadas a certas imagens mentais” ; não tem como eu não pensar nas minhas emoções e quando as sinto e não poder relaciona-las sempre a alguma imagem, logo aquelas afirmativas não passam pelo crivo da minha razão, pois nem sempre que sinto percebo que há um envolvimento do meu corpo ou me situo apenas no plano das imagens.

Dizer também que a felicidade depende apenas de um certo grau de eficiência no processo do pensamento é “forçar um pouco a barra”, como se diz no popular. Se para ser feliz bastasse ser eficiente a nível de pensamento isso seria apenas uma questão de treino, aí todos poderiam ser felizes, logo acho essa colocação extremamente simplista. Mas o Dr. Damásio não para aí, para ser feliz ele também prega que o uso das drogas “legais” é algo socialmente eficiente e que poderia ser usado em grande escala, diz ele na página 298 de sua obra: “ A tendência atual vai no sentido de não se fazer nenhuma distinção e utilizar a abordagem médica para eliminar qualquer desconforto”, psíquico diga-se de passagem; continua ele mais à frente: “Quem poderia ser tão puritano e desmancha-prazeres para negar a um semelhante os benefícios dessas drogas maravilhosas? “… e meu queixo caiu.

Deste tipo de raciocínio provem outro dos erros do Dr. Damásio naquela obra, na página 285 ele diz, convicto: “…o profundo conhecimento do cérebro e da mente ajudará a alcançar a felicidade, cuja procura foi o trampolim para o progresso a dois séculos e ajudará a manter a liberdade que Paul Èluard descreveu tão gloriosamente no seu poema “Liberté”. Pelo que pude entender a felicidade pregada pelo eminente Doutor só poderá ser conseguida por meio de intervenções farmacológicas que atuem a nível cerebral nos dando a ilusão de estarmos bem, sem desconfortos ou inquietudes psicológicas. Não por acaso essas drogas já existem e são utilizadas hoje na forma, principalmente, de antidepressivos, mas isso traz a felicidade? onde ficam aqueles outros valores que nos completam e realizam num sentido mais profundo? será que basta nos doparmos, nos alijarmos da dura realidade para sermos felizes?

Por mais que ele diga o contrário, e procure ser poético na sua fria racionalidade, fica claro que tanto para ele como para aqueles que partilham sua forma de pensar, sobra apenas o pessimismo e a crueza de uma vida apenas de sentido evolucional e biológico, por isso fica até entristecedor vê-lo tentar se referir à espiritualidade humana num sentido mais nobre. Que sentido teria isso se fôssemos apenas produto da evolução material, e nosso espírito não passasse de um subproduto de nossos neurônios? Tenderíamos para o egoísmo desenfreado e mandaríamos às favas a ética, pois o mais importante seria sobreviver bem e satisfazer os desejos de nosso corpo material.

O título do livro do nobre Doutor veio da forma como Descartes separou a mente do corpo, o que é algo que o Dr. Damásio contrapõe em absoluto no seu livro, para ele mente e corpo são um consequência do outro de forma indissociável e se construindo e influenciando mutuamente, a famosa afirmação do grande filósofo francês “Penso, logo existo”, para o Dr. é um contrassenso pois já está mais do que provado que em nossa evolução primeiro começamos a existir e só depois pensamos; a partir daí o escritor divaga por pensamentos que Descartes talvez nem de longe pensou quando fez suas afirmações, mas isso é difícil de entender pelo Dr. Damásio com seu uso intensivo da razão.

Coisa interessante também é ver o Dr. Damásio falando de alma e de espírito, e aí eu posso dar meus pitacos, pois garanto que tenho mais experiência do que ele. Primeiro ele quer localizar o espírito humano dentro do cérebro, fruto também do funcionamento dos neurônios, intrinsecamente ligado ao corpo e perecível como ele.

Ao fazer isso o Dr. Damásio está ignorando completamente as experiências de quase morte e casos comprovados de reencarnação descritos por pesquisadores no mundo inteiro, que mostram que a consciência continua mesmo após uma parada cardíaca e a cessação completa de funcionamento do cérebro, com os indicadores de atividade neural a zero e pressão arterial ficar imensurável, mesmo que por alguns minutos. Nesse estado crítico ocorre perda de reflexos e funções do tronco cerebral que ativam as áreas corticais, logo fica muito difícil explicar como nesse tipo de paciente, após pesquisas posteriores, detectarem-se pensamentos lúcidos, com processos de raciocínio e formação de memória, coisas que puderam ser verificadas em muitos casos.

Outra afirmação da qual discordo neste sentido é quando ele diz, na página 282: “Versões do erro de Descartes obscurecem a tragédia implícita no conhecimento dessa fragilidade, finitude e singularidade [do organismo humano]. E, quando os seres humanos não conseguem ver a tragédia inerente à existência consciente, sentem-se menos impelidos a fazer algo para minimiza-la e podem mostrar menos respeito pelo valor da vida.” Creio que esse foi o maior erro de Dr. Damásio, pelo menos nesse livro.

Concordo plenamente com uma afirmação do Dr. Damásio, a de que crer em nossa finitude possa nos tornar seres humanos piores, Só que acho que ele está equivocado quando diz que isso é causado pelo desconhecimento de nosso fim definitivo. Creio que vai ser natural para que quem pense como ele, que somos apenas um conjunto complexo de nervos e músculos, que a vida realmente vai ser uma tragédia, uma tragédia pela fugacidade de sua existência, pelos sonhos que nunca irão se realizar, por tudo o que gostaríamos de experimentar e nunca poderemos, quer tragédia maior? para o Dr. Damásio o máximo que podemos fazer a respeito é minimizar a situação, racionalizando-a; sinto muito, para mim isso é impossível.

A vida só se mostra possível se ser justa e bela a muito longo prazo,  é claro que se nós só crêssemos ou intuíssemos que a existência fosse apenas uma, isso nos faria ter menos respeito tanto pela vida, principalmente a dos outros. Aí está a beleza de nossa existência espiritual eterna, não daquele espírito do Dr. Damásio, produto apenas de nossos neurônios, mas daquela centelha divina criada por Deus para lhe fazer companhia por toda a eternidade desfrutando de tudo o que há de melhor e mais nobre na criação.

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ARQUIVO MORTO

AOS MEUS PACIENTES

Nos últimos 10 anos tive pacientes dos mais diferentes tipos no meu consultório: tive os agradáveis, os difíceis, os que queriam resolver logo sua vida, os que queriam apenas aliviar suas dores, aqueles que não sabiam o que queriam, os curiosos; alguns jovens, corajosos; anciãos às portas da morte, pacientes espiritualizados, céticos, cínicos, com fé demais, com fé de menos, "loucos varridos", pacientes divertidos, prepotentes, alguns amargos; todos de alguma forma doentes... de tudo: do corpo... da alma... do coração; mas todos com algo em comum, a necessidade de dividir suas dúvidas e angústias com alguém, de encontrar uma saída para suas dores e formas de acertar o que estava errado em suas vidas.

(clique aqui para ler na íntegra.)

CONSULTAS EM MANAUS